Monday, January 04, 2016

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA PESSOAL DE 2015

2015 foi para mim um baita ano – pura e simplesmente, um dos melhores e mais produtivos até agora, um dos anos em que mais iniciei novos e bons projetos e conheci (e reencontrei) mais gente boa. “Conta tuas muitas bênçãos!”, diz o hino, e é o que venho fazer aqui todos os anos – sim, “contar” em ambos os sentidos, narrar e enumerar, numa tarefa agradavelmente árdua de resumir tanto em espaço permitido pela auto-referência justificada.

RESPEITÁVEL PÚBLICO!

Aprendi na vida a não usar com intenção ofensiva ou pejorativa palavras como “velho”, “caipira” “cachorro”, “porco” e “palhaço”. Afinal, já tenho uma certa idade e pretendo ter mais, escrevo também sobre animais de estimação, fui criado no “interiorrr” paulista e já estou entrando no quarto ano de minha carreira de circense – não como palhaço (como talvez seria de se esperar), mas músico de charanga.

Em 2009 o Centro de Memória do Circo, entidade paulistana mantida pela Prefeitura e dedicada a pesquisa, preservação divulgação da história e saberes circenses (primeira instituição do gênero no Brasil), me encomendou uma pesquisa sobre música e circo. Quando percebi, eu havia feito a primeira grande pesquisa sobre o assunto até mesmo em nível mundial, com gravações do fim do século 19 ao início do 21 e dos mais variados gêneros e países, e me tornei uma das pessoas consultoras da exposição permanente Hoje Tem Espetáculo do CMC (ah, sim: para quem não sabe, fica na Galeria Olido, no centro de Sampa.)

Meu envolvimento com o circo estava apenas começando. Em 2012 fui convidado a participar como violonista e, ocasionalmente, contrabaixista numa temporada do Circo Pindorama, numa parceria do CMC com o Teatro Oficina (que cedeu o espaço, na Praça Pérola Byington) e o Bixigão (projeto social para crianças de rua). Sim, já posso falar: além de compositor, escritor, pesquisador, radialista e tradutor, sou também circense, nas áreas de música e pesquisa. E participo, inclusive como uma das pessoas fundadoras, de outro belo projeto do CMC: o Sarau Café do Circo. Muito mais que "apenas" um museu de tradições circenses, o CMC é um espaço vivo, onde pessoas artistas, pesquisadoras e interessadas se reúnem para confraternização e eventos diversos como homenagens, lançamentos de discos e livros, exibição de filmes e shows, incluindo este Sarau Café do Circo, evento mensal criado no começo de 2015 com sucesso (e fizemos parte da Virada Cultural – foi, por sinal, minha primeira participação neste projeto anual da Prefeitura de Sampa). Foi graças ao Sarau do Café do Circo que me tornei amigo e colega de trabalho de Alessandra Siqueira (trombonista e a palhaça Silueta), Edmeia Memeia (atriz), Joy Domingoz (equilibrista), Levi Orion (malabarista e músico), Mafê Vieira (a palhaça Mendiva), Manu Muniz (pintor), Nina Sprovieri (atriz e malabarista) e Viviane Figueiredo (a palhaça Espalha-Brasas), além de Amercy Marrocos (quituteira e atriz), Mayran Marrocos (atriz e malabarista), a artesã Marília Pereira, a dupla de palhaças cantoras Mariana Gabriel e Juliana Mattos, a Trupe Um Kilo E Meio De Variedades (dupla dos palhaços e músicos Julio Fuska e Erickson Almeida, o Herolino) e da banda Cabaré Três Vinténs. Afirmei e repito: poucas vezes conheci tanta gente boa artista de uma vez só.


(Na foto, da esquerda para a direita: Levi Orion, Joy Domingoz, Edméia Memeia, Viviane Figueiredo, Alessandra Siqueira, Mug, Nina Sprovieri, Verônica Tamaoki e a dupla de palhaçaria Kerouac, participante desta edição do Sarau Café do Circo. E este painel foi feito por Marília Pereira.)

E há dois anos Verônica Tamaoki, diretora do CMC e coordenadora e apresentadora do Sarau Café do Circo, sugeriu-me pesquisar e escrever um livro sobre a música brasileira e o circo; pois bem, já tenho pronta boa parte do texto, acho que ainda nesta década o livro sai. Por sinal, a própria Tamaoki-san, ela mesma artista circense e referência no circo brasileiro. vem demonstrando potencial como cantora, até falei sobre isso em minha retrospectiva de 2014 aqui no blog; no Sarau Café do Circo ela tem cantado mais, e promete cantar mais ainda em 2016, inclusive com minha honrada parceria. Matte kudasai!

EMPREENDENDO E ACONTECENDO

Em 2015 completaram-se 18 anos de amizade e parceria com a cantora, compositora, fonoaudióloga e esteticista Vera Mendes, com muitas gravações, shows e palestras. No fim de 2014 ela me convidou a participar de um evento sobre empreendedorismo, e ao começar 2015 tornei-me parte do projeto. Eu e Verona tivemos a ideia de unir música e empreendedorismo, para demonstrar que o mundo dos negócios não precisa, nem deve, ser uma coisa árida sem diversão, tão-somente prazos, planilhas e livros-caixa. Compus então uma série de canções sobre música e empreendedorismo, e Verona idealizou um projeto de eventos em empresas sobre o tema; chamamos o projeto de Empreendedores Urbanos, e uma amostra está aqui. Tivemos a assistência de André Furkin, empreendedor por excelência e então vinculado à Associação Comercial de São Paulo. Como demonstração, compusemos um jingle para o Magazine Luiza, e o mostramos pessoalmente para a própria Luiza Trajano, a dona da empresa, num evento do Núcleo Saúde & Bem-Estar do Programa Empreender da Distrital Norte da ACSP,  realizado na Mega Loja do Magazine Luíza na Marginal Tietê; confiram o vídeo aqui.



(Na foto: Luiza Trajano, uma integrante da equipe do evento - pedindo desculpas a ela por eu não lembrar agora seu nome - Mug, Vera Mendes e André Furkin)

Outro novo projeto de uma velha amiga e parceira para o qual fui convidado em 2015 foi o Movimento Chega De Homem, criado por Tereza Miguel e dedicado a eliminar não o sexo masculino e sim o machismo na língua portuguesa - aquela coisa de se referir a 99 mulheres e um homem como "eles". Dizer "elas" seria o erro oposto; o certo seria dizer "99 mulheres e um homem", "100 pessoas", sem favorecer um sexo nem o outro. Estamos com uma página de discussão (sem brigas) no Facebook; é esta aqui.

DIZ-ME COM QUEM FAZES MÚSICA

Sempre digo que a era dos festivais passou, e agora estamos na era dos saraus, de música, poesia ou ambas. Em 2015 completaram-se 13 anos do Clube Caiubi de Compositores (de cuja diretoria sou integrante), e muitos outros eventos paulistanos têm feito sucesso para quem procura música diferente da divulgada pelas rádios e TVs comerciais, como Sarau da Maria, o Sarau da Casa Amarela, o Sarau da Casa das Rosas e o Via Sarau. Tais eventos, aliados ao velho e bom Facebook, têm sido boas ferramentas do destino para que eu forme boas parcerias, o que aconteceu com uma boa frequência em 2015. Destaque especial merece ser dado à cantora, atriz e produtora carioca Nadja Bandeira, com quem comecei a compor e gravar, e ao letrista niteroiense Celso Madruga, parceiro de Nadja na outra ponta da Via Dutra e com quem também já estou compondo.


(Na foto: Mug e Nadja Bandeira)

Ainda em 2015 Givly Simons, um cliente meu de LPs, disse-me que era cantor e compositor e me convidou para participar de um disco dele; gravei, ele gostou, mas o fonograma permanece inédito. Givly tornou-se bem mais conhecido como Figueroas, revelação da lambada satírica. E pessoas amigas me convidaram para tocar com duas cantoras que merecem ser mais conhecidas: a roqueira Samara Noronha (que tem alguns clipes por aí) e a MPBzeira Márcia de Carvalho. Descobri também o potencial de uma amiga poetisa, Silvia Palaia, que como eu é fã da obra de Chico Buarque, e transformei um poema dela numa canção que pode ser ouvida nesta gravação demo caseira aqui.


Na foto: Mug com o compositor Arnaldo Afonso e a cantora Márcia de Carvalho)


(Na foto: Mug e Samara Noronha no Sensorial Pub, em evento promovido pelo lendário jornalista Humberto Finatti; na ocasião cantei meu hit inspirado nele - esse mesmo, "Rebelde Sem Alça.")

Tornei-me também parceiro de duas pessoas companheiras do Caiubi cujas obras eu já admirava: o compositor Walter Zanatta e a poetisa Claire Feliz Regina – ainda não consigo acreditar que fui a primeira pessoa a ver o potencial musical dos poemas desta dama incrível, muito menos que fui para ela o que Adoniran Barbosa foi para Hilda Hilst (o bardo do Bixiga musicou poemas de HH antes de Zeca Baleiro haver nascido).



(Na foto: Mug e Claire Feliz Regina com poema dela recém-musicado por ele em pleno Sarau Sopa de Letrinhas)

Já posso dizer que toquei com o lendário Loop B., numa de suas participações no Sopa de Letrinhas, o sarau lítero-musical do Caiubi, Fiz minhas primeiras gravações com outra velha amiga de Caiubi, a cantora e compositora Célia Demezio. E enquanto algumas parcerias são imediatas, como estas que citei, outras levam tempo, como uma canção em parceria com Walter Franco, que iniciamos lá em 1988-89 e que terminei agora em 2015; o próprio Walter gostou e aprovou, embora não se lembrasse da meia melodia e do verso (dentre os oito) que contribuiu, chegando a brincar: “essa é uma das mais belas músicas que eu não fiz”.

E mais uma vez participei, ao lado de meu filho Ivo, do Bloco da Mata que Resta, onde ele mora, em Cotia; desta vez toquei violão em vez de percussão e convidei o velho parceiraço Wilson Rocha para animar ainda mais a festa tocando cavaquinho.

30 ANOS DE MIM A ESMO

Será que só eu percebo a frase "tudo está fazendo trinta anos" de Gabriel Garcia Marquez como sendo irônica? Para mim, em 2015 esse “tudo” significou 30 anos de minha primeira viagem de avião, primeira ida ao Rio de Janeiro, estréia em jornais (O Pasquim, Cruzeiro do Sul de Sorocaba), primeira canção gravada em disco (a “Os Metaleiros Também Amam” do Festival dos Festivais, parceria com Carlos Melo), estreia do programa Rádio Matraca e do lançamento de minha grande pesquisa sobre festivais de música (publicada no Cruzeiro do Sul). Muito bem, mas eu, não sendo de descansar sobre lauréís nem de querer voltar ao passado, preferi usar tempo e energia de comemorações para continuar produzindo. Melhor que lembrar os 30 anos do Rádio Matraca foi saber que ele se tornou, ao lado de O Samba Pede Passagem de Moisés da Rocha, campeão de audiência da USP FM (inclusive em 2015 tivemos pessoas convidadas ilustres como o músico Pedro Baldanza, o produtor Antonio Celso Barbieri, a cantora Claudya e a banda Cracker Blues). E melhor que lembrar os 30 anos do Língua no Festival dos Festivais é poder dizer que o grupo tem boas novidades para 2016 – e que em 2015 eu voltei a ser integrante do grupo como compositor. (Sim, mudanças na vida implicam também em retornos, e outro retorno meu de 2015 foi à equipe de crítica de música popular da APCA.)


(Na foto: o pessoal do programa Rádio Matraca - Mug, Laert Sarrumor e Alcione Sanna - ladeando as cantoras Claudya e Grazi Medori; vale lembrar que estas não são irmãs e sim mãe e filha.)

APLICANDO A TEORIA DOS CONJUNTOS

Não sou saudosista (inclusive tenho algumas canções anti-nostalgia, como “Você Se Lembra De Mim?” e a ainda inédita “Voltas E Voltas”), embora eu goste de guardar o bom do que eu vivi. Mas nada tenho contra tocar musica antiga de que eu goste, especialmente se não forem os chavões que todo mundo toca. Em 2015 fui convidado a integrar uma banda dedicada ao pop-rock dos anos 1950 ao comecinho dos 1990. A banda inclui dois amigos com quem já fiz música em outras décadas; um deles não sabia que era eu o “baixista chamado Ayrton” que o outro convidou.  Além de mim, a banda inclui Alvaro Telles (bateria), Newton Bardauil (guitarra), José Roberto Curitiba (teclados), sua esposa Lucimara Curitiba (vocal e percussão) e Fábio Ferre (vocal e guitarra), e aceitaram um nome que sugeri, The Vintages. Já fizemos alguns shows na casa Tonton Jazz e na Pizzaria ZioVito, aqui em Sampa; haverá muito mais, começando por outro no Tonton em 20 de fevereiro próximo.


(Na foto: Mug em ensaio da banda The Vintages)

Não sou saudosista, mas sou conjunteiro. Marcos Mamuth, guitarrista e eu companheiro de Caiubi, resolveu montar um trio de blues-rock, e convidou a mim e ao baterista Carlinhos Machado. No terceiro ensaio já estávamos prontos para encarar barzinhos, com clássicos menos  óbvios de blues e r&b e composições minhas e de Mamuth, uma ou outra inclusive parceria de ambos. E quem batizou o grupo foi Mamuth: Trio Sem Nome.



(Na foto: Mamuth, Machado e Mug no primeiro ensaio do Trio Sem Nome - sim, poderia ter sido Trio MMM.)

NO MAIS, MUITO MAIS...

Meu jingle para a loja Baratos Afins foi regravado por Pedro Ivo Salvador e Lillian Lessa, da banda alagoana Messias Elétrico (que inclui ex-integrantes do Mopho, homenageado por mim na canção “Metamophose” em 2000); confiram minha versão original de 1979, minha regravação de 1984 e a versão desta dupla das Alagoas

Revi pessoas como Clovis Ribeiro, da Rádio Butantã e colega de Caiubi; Próspero Albanese, ex e eterno vocalista do Joelho de Porco (que fez um belo show no Auditório Elis Regina, em São Bernardo, produzido pela nunca demais lembrada Nadja Bandeira, que desmente a letra de "Rio De Janeiro City"); a cantora e compositora Dhara Mammana, uma da fundadoras da Rede Solidária da Música Brasileira, uma das precursoras do Caiubi. Não esquecendo novas amizades como Mônica Ananias, Marlene Vieira, Giannis Zaharopoulos, Rhaéli Rocha Lopes e Tania Amaras.


(Na foto: Mug e Próspéro Albanese após o show deste no Elis Regina de SBC; a foto é de Bolivia & Catia, casal amigo nosso.)


(Na foto: Mug e Clóvis Ribeiro na Rádio Butantã)

Sem falar no trabalho como tradutor oficial (conhecido popularmente como "juramentado") português-inglês, para um tantão de documentos oficiais e outro de casamentos civis. Much fun indeed.


(In this picture: Mug at the São Miguel Paulista notary office.)

Speaking of English, que este ano seja realmente "sweet sixteen" para todos e todas. Sigamos em frente, pois 2016 promete mais - inclusive por ser bissexto. Como diz Tom Zé: "Dezesseis, ô, ô, dezesseis, ô, ô, dezesseis..."


(Na foto: Mug num dos saraus do Caiubi. Ah, sim: o chapéu foi presente da banda The Vintages e realmente ficou bem.)

Sunday, July 05, 2015

POSSO DAR UMA CANJA... COM UMA CANÇÃO MINHA EM MEU PRÓPRIO DISCO?

Vejam o que é sincronicidade... Justamente quando eu ia fazer a redação final deste texto, concluí a leitura de uma bela fonte para minhas pesquisas sobre MPB e circo e a relação entre religião & rock brasileiro: o livro Aquarelas Do Brasil, coletânea de contos e trechos de romances brasileiros que citam música popular, organizada por Flávio Moreira da Costa. A antologia inclui um conto do próprio FMC, e ele apresenta justificativa que apóio e complemento: o Brasil tem a ideologia da “falsa modéstia”, da “culpa” católica, da inveja fazer-sucesso-é-ofensa-pessoal; portanto, neste país uma pessoa citar a si mesma é “falta de ética”, “auto-referência” como ofensa ou “excesso de ego”, ao passo que nos EUA e Europa, como lembra FMC, a auto-inclusão em antologias é não só autorizada como também esperada – afinal, concluo, uma pessoa que divulga tantas outras tem direito a um pouco de auto-promoção... Isso serve como boa introdução para o tema deste texto: artistas que dão canja autoral em seus próprios discos-tributos ou temáticos, por vaidade, ganância, prazer ou até um pouco de cada, e dos quais este texto é apenas um ligeiro apanhado.

MÚSICA TUA, MAESTRO!

Por exemplo, o maestro e trombonista Ray Conniff variou um pouco a fórmula de seus álbuns dos anos 1960 e 1970, reunindo arranjos suaves para sucessos do momento, incluindo uma ou outra composição própria, e com o lembrete “Composta por Ray”, canções que, se não memoráveis, tampouco ofensivas.


Idem, no Brasil, o maestro e violonista Waltel Blanco, de quem tenho em mãos dois LPs “fantasmas” (lançados com crédito a orquestras e conjuntos “ad hoc” formados por ele e outro pessoal de estúdio) de fins dos anos 1960: Muito Legal - Linha Jovem, creditado a The Song Boys, e Direcional, pelo Conjunto Itam (“Itam” de Itamaraty, nome da gravadora); em cada um destes LPs  Waltel incluiu, ao lado de sucessos do momento, uma composição própria (e instrumental), respectivamente “Inédita” e “Dixie Da Gata”, garantindo assim alguns trocados de direitos autorais. 




(Esses LPs são tão raros e obscuros que já foi difícil conseguir essas reproduções quase virtuais das capas; tentarei obter e trazer melhores, podem me cobrar.)

Outro brasileiro que fez a mesma coisa, só que não como artista e sim como produtor, foi Raul Seixas, que produziu vários LPs da série Lafayette Apresenta Os Sucessos do tecladista Lafayette e, em meio a hits da ocasião, incluía em cada LP uma ou duas de suas composições (“Último Da Lista”, “Nasci Pra Te Amar”).


PEDRAS SOBRE PEDRAS

Obviamente, tal prática não é privilégio do Brasil... A música pop, como toda indústria cultural, exige e forma repertório; o que não falta são álbuns inteiros de artistas os mais diversos, de pop, rock, jazz, samba e até música erudita ligeira, interpretando canções de musicais como My Fair Lady e Hair! e de compositores de sucesso como,por exemplo, ninguém menos que os Rolling Stones, artistas cuja notoriedade inicial foi como intérpretes de outros artistas, como Chuck Berry e Willie Dixon, mas logo perceberam – instados pelo empresário e produtor Andrew Oldham – que a fonte de renda musical em médio e longo prazo era investirem em si mesmos como compositores; no início de 1966 eles já haviam se afirmado como tal, graças a sucessos como “Satisfaction”, “As Tears Go By”, “The Last Time” (embora “baseada” num clássico do gospel) e “19th Nervous Breakdown”. O próprio Oldham não perdeu tempo em lançar em 1966 o álbum The Rolling Stones Songbook, creditado à “Andrew Oldham Orchestra” (na verdade pessoal de estúdio com arranjos e direção musical de David Whittaker) e incluindo dez hits dos Stones, compostos por eles ou não, junto a... isso mesmo, um “Theme For A Rolling Stone” escrito pelo próprio Oldham (embora haja quem conteste dizendo que a autoria seja de Jagger & Richards).


Em 1966 houve ainda outro tributo-com-bônus aos Stones, e de quem menos se esperaria: Joe Pass, um dos melhores guitarristas de jazz, com o álbum The Stones Jazz. É forçoso reconhecer que as melodias dos Stones não eram tão ricas quanto as de Lennon & McCartney, quanto mais as de Gershwin, Porter, Berlin e quetais, mas Pass fez o que pôde – afinal, Dave Brubeck havia gravado um álbum de canções country transformadas em jazz, e em meados dos anos 1960, não obstante o sucesso da bossa nova e da força da natureza que era Louis Armstrong, o que mais vendia não era jazz e sim rock, pop e folk – , e o resultado é um álbum interessante e agradável de jazz-muzak, com direito a uma faixa que garante sua inclusão neste artigo: “Stone Jazz”, composição do próprio Pass.


DAQUI, DALI E DE TODA PARTE (CALMA, AINDA NÃO)

Indústria cultural que se preza é produtiva, e a referida dupla do produtor Andrew Oldham com o maestro David Whittaker não perdia tempo: em 1964 ela havia pegado carona nos dois mais famosos grupos estadunidenses de antes da Invasão Inglesa, os Beach Boys e os Four Seasons, lançando o álbum East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons (sim, os Four Seasons eram da Costa Leste e os BBS da Oeste), incluindo duas canções menos “hits” e menos “famous”, ambas parcerias de Oldham e Whittaker: “The Lonely Beach Boy” e “There Are But Four Seasons To Every Year”.


E matéria-prima de qualidade vem de toda parte, inclusive do Brasil. Voltando ao jazz, merece ser lembrado o álbum Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova, do cantor Jon Hendricks,lançado em 1961 e que, descontando os equívocos do título (para os EUA toda a América que não fosse os EUA e Canadá era “cucaracha” y bastava ya) e da capa (exemplo de machismo suave), é um bom tributo a João Gilberto – e um raríssimo exemplo onde a faixa “bônus-carona” tornou-se o maior sucesso do álbum: “Jive Samba”, parceria de Hendricks com o saxofonista Nat “Cannonball” Adderley.


YEAH, YEAH, YEAH (AGORA SIM, SIM, SIM)

Quem mais, além de mim, deixaria o mais óbvio para mais tarde? Isso mesmo, álbuns-tributo-com-carona aos Beatles. Lembro-me de alguns. Um é da dupla instrumental estadunidense Santo & Johnny, formada pelos irmãos Santo e Johnny Farina (e muitas vezes compondo em parceria com a mana Ann Farina), mais lembrada hoje em dia pela bela balada “Sleepwalk” (podemos citar também “Love Lost”, regravada pelos Clevers/Incríveis) e de muito sucesso na era pré-Invasão Inglesa. Quando esta começou, em 1964, a dupla passou recibo referente a ela com o LP The Beatles Greatest Hits Played By Santo & Johnny, que, ao lado de dez hits dos Fab Four, inclui duas canções do trio Farina, “The Beatle Blues” e “The Beatle Stomp”.


Outra dupla de canções-bônus-caronistas do mesmo ano de 1964 está no LP Dance To The Hits Of The Beatles do grande maestro e compositor Jack Nitzsche: “Ringo” (que o público mais velho ou “careta” não deve ter associado com o baterista dos Beatles e sim com Johnny Ringo, notório e legítimo cowboy-fora-da-lei do século 19; mal sabia Nitzsche que iria trabalhar com nosso Ringo, o Starr, no megahit “Photograph”) e “Beatle-Mania”. 


E se os Stones inspiraram um disco de jazz com bônus deste tipo, os Beatles têm pelo menos um, Beatlejazz!, lançado em 1964 pelo pianista Bob Hammer e incluindo entre vários sucessos do grupo a faixa-título, composta por Hammer em parceria com Bob Thiele.


Lembro-me agora de dois exemplos brasileiros – ou melhor, um e meio.

O, digamos, exemplo inteiro é o CD sem título da banda goiana Bitkids, lançado em 1996. Produzido por Renato Ladeira (sim,d’A Bolha e Herva Doce), este disco merece um estudo em separado por vários motivos. Um: o Bitkids era formado por guris nascidos na virada dos anos 1970 para 1980 e, salvo engano, é o primeiro tributo aos Beatles feito por crianças ou adolescentes em todo o mundo. Dois: o repertório é quase todo de versões em português feitas nos anos 1960, antes de Yoko Ono apertar o cerco e dificilmente liberar novas versões de canções de Lennon & McCartney; além de duas “bônus-carona”, temos versões recentes do repertório Beatle, mas de canções não de autoria do grupo e portanto fora da jurisdição de Yoko-san, como “Twist And Shout” (“Chegue Mais, Baby”) e “Please, Mr. Postman” (“Carteiro”). Três: o grupo teve vida curta, e de lá para cá um dos integrantes faleceu, outro seguiu carreira musical e, segundo algumas fontes, nem todos os Bitkids tocam no disco, substituídos por músicos de estúdio. A saga da banda pode ser decifrada em páginas como esta e mais esta.


O outro tributo-aos-Beatles-com-bônus de que me lembro agora é brasileiro-argentino e quase igualmente obscuro. Trata-se do LP duplo Tributo Aos Beatles, creditado a “The Beetles Group”. O álbum pode ser discutido também como “propaganda quase enganosa”: a capa não tem nenhuma foto deste “Beetles Group”, mas tem muitas e muitas fotos dos Beatles e as palavras “Tributo aos...” e “Interpreted by The Beetles Group” em tamanho pequeno o suficiente para serem despercebidas pelo público mais incauto e ao mesmo tempo grande o suficiente para dizermos “quem mandou não prestar atenção”.  Mais: o disco pega carona também na montagem brasileira do musical Beatlemania – só que este traz canções de toda a carreira dos Beatles, ao passo que o álbum duplo em questão só vai até 1965, embora a única faixa “bônus-carona”, “Forever Beatles”, soe ela mesma Beatles de 1966-69, incluindo citações de canções do grupo e até uma de Macca solo! O disco foi produzido por Billy Bond (que havia incluído citações de “Oh! Darling” e “She Loves You” em suas gravações como vocalista do Joelho de Porco), e este LP tem participações de Mauricio Birabent “Moris”, outro grande roqueiro argentino dos anos 1960 e 1970, e, segundo a página Senhor F, o saudoso Wander Taffo (que havia gravado com Bond no álbum de 1977 do Joelho).


E, para completar/complementar, temos algumas ilustrações sonoras: cada um dos álbuns comentados acima está representado por uma das faixas “bônus caronas” e uma faixa que, digamos, pagou ingresso (ou, pelo menos, ajudou a pagar as contas).

Andrew Oldham Orchestra
The Rolling Stones Songbook
Decca
Inglaterra, 1966
“Heart Of Stone” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Theme For A Rolling Stone” (Andrew Oldham)

Andrew Oldham Orchestra
East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons
London/Parrot
EUA, 1964
“I Get Around” (Brian Wilson)
“There Are But Four Seasons For Every Year” (Andrew Oldham/David Whittaker)

Beetles Group
Tributo Aos Beatles
Círculo do Livro/Abertura Records
Brasil, 1979
“Wait” (John Lennon/Paul McCartney)
“Forever Beatles” (Billy Bond/Anthony/Moris/Wanderley Patry)

Bitkids
Bitkids
Polydor
Brasil, 1996
“Chegue Mais, Baby” (“Twist And Shout”) (Bert Russell/Phil Medley/versão: Renato Ladeira)
“Noite Maluca” (Hilton Júnior/Ricardo Júnior))

Bob Hammer
Beatlejazz!
ABC
EUA, 1964
“When I Get Home” (John Lennon/Paul McCartney)
“Beatlejazz” (Bob Hammer/BobThiele)

Conjunto Itam (com Waltel Blanco)
Direcional
Itamaraty
Brasil, c. 1968
“A Chuva Que Cai” (“È La Pioggia Che Va”) (“Remember The Rain”) (Bob Lind/versão em italiano: Mogol/versão em português: Antônio Marcos – o selo do LP diz “A. Marco”)
“Dixie Da Gata” (Waltel Blanco)

Jack Nitzsche
Dance To The Hits Of The Beatles
Reprise
EUA, 1964
“It Won’t Be Long” (John Lennon/Paul McCartney)
“Ringo” (Jack Nitzsche)

Joe Pass
The Stones Jazz
Pacific Jazz
EUA, 1966
“19th Nervous Breakdown” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Stone Jazz” (Joe Pass)

Jon Hendricks
!Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova
Reprise
EUA, 1961
“The Duck” (“O Pato”) (Jayme Silva/Neuza Teixeira/versão em inglês: Jon Hendricks)
“Jive Samba” (Jon Hendricks/Nat “Cannonball” Adderley)

Lafayette
Lafayette Apresenta Os Sucessos, Volume 10
CBS/Entré
Brasil, 1970
“Sweet September” (Joey Day/Alan Dischel)
“Nasci Pra Te Amar” (Raulzito)

Ray Conniff
Bridge Over Troubled Waters
Columbia
EUA, 1970
“Leaving On A Jet Plane” (John Denver)
“Someone” (Ray Conniff)

Santo & Johnny
The Beatles Greatest Hits Played By Santo And Johnny
Canadian-American
EUA, 1964
“And I Love Her” (John Lennon/Paul McCartney)
“The Beatle Stomp” (Santo Farina/Johnny Farina/Ann Farina)

Song Boys (com Waltel Blanco)
Muito Legal – Linha Jovem
Spot
Brasil, c. 1968
“Because Of You” (Arthur Hammerstein/Dudley Wilkinson)
“Inédita” (Waltel Blanco)


Confira aqui!

Monday, March 30, 2015

THINK FOR YOUR SHELF: DOIS AMIGOS, DOIS LIVROS

Mais uma daquelas coincidências (para quem acredita) que se fossem programadas não dariam certo. Agora em março saíram quase juntos dois livros sobre duas pessoas que são meus amigos dos mais queridos desde que voltei a Sampa em 1978; conheci ambos no ano seguinte, e desde então compartilhamos muita música e fizemos juntos alguma. Um é o DJ, cantor, radialista, escritor e jornalista Kid Vinil, com quem tive as honras de trabalhar na banda Magazine (fizemos muitos shows e em CD, Na Honestidade) e no programa Digital Session na Brasil 2000 FM; o outro é o arquiteto e ilustrador Claudio Finzi Foà, que editou comigo a emérita publicação alternativa ASAS e participou de algumas gravações minhas, notadamente  o quase-sucesso "Tancredo Neves's Dead". Um dos livros é a biografia autorizada Kid Vinil, Um Herói Do Brasil, escrita pelo músico Duca Belintani em parceria com o jornalista Ricardo Gozzi e lançada pela editora Ideal; o outro é o autobiográfico Memories Of A Shrinked Person, também editado pelo próprio Foà.

Outras coincidências são Kid e Foà serem "oriundi" (Kid se chama "al secolo" Antônio Carlos Senefonte), nascidos no interior paulista (Kid em Cedral, Foà em Jundiaí), residentes em Sampa desde piazitos e comemorarem aniversário praticamente juntos, ou quase (Kid nasceu em 26 de fevereiro, segundo sua mãe, e 10 de março, diz sua certidão de nascimento; Foà é seguramente de 28 de fevereiro; Kid veio ao mundo em 1955 e Foà no ano seguinte). E, sim, ambos são palmeirenses. (Por sinal, Foà talvez seja a única pessoa judia que conheço pessoalmente que não é corintiana.)


O livro de Foà é uma divertida narrativa de fatos pessoais, principalmente as internações psiquiátricas por que passou - um dos raros tais relatos brasileiros. Sim, Foà é uma versão bem mais "light" de Arnaldo Baptista, de quem, aliás, é amigo - e parceiro em arte: foi ele quem criou o selo do disco Singin' Alone, adotado pela gravadora, a Baratos Afins, para quase todos seus lançamentos em vinil. Foà explica a razão do título: "shrink", "encolher" em inglês, é também gíria ianque para "psiquiatra". Sim, ele, quase tão fluente em inglês quanto em português e italiano, sempre esteve ciente de que o certo seria "shrunk" e não "shrinked" - mas este ato falho acaba sendo mais um charme e uma distinção. Memories Of A Shrinked Person inclui também poemas, letras e ilustrações de Foà; fui honrosamente citado em parcerias com ele, mas o livro não menciona o ASAS nem "Tancredo Neves's Dead" - se bem que Foà promete que este é apenas seu primeiro livro, outros virão. A primeira edição de Shrinked é "encolhida", limitada e com nova edição prevista para breve; pessoas interessadas podem falar com o autor pelo e-mail finzi.foa@terra.com.br .

Ah, sim: ambos estes livros são saborosos, sucintos e enxutos, cada um com menos de 200 páginas que se leem num instante. Felizmente, em minha opinião, eles nada têm de sensacionalismo, exceto, talvez, as narrativas da única vez em que Kid fumou maconha e de quando Foà foi paquerado pelo filósofo francês Michel Foucault quando este veio ao Brasil (sim, filósofo inteligente,  sensível e de bom gosto). Também fui citado no livro sobre Kid como integrante do Magazine, mas há poucos detalhes sobre o grupo; afinal, o livro é sobre Kid, e o Magazine merece outro (mais que apenas um "magazine") só para ele. O único erro que encontrei é a canção "I'm Gonna Get Married", sucesso com a banda Sunday, onde tocou Ted Gaz, guitarrista do Magazine, ter sido citada como parte da trilha da telenovela Beto Rockfeller; na verdade, foi outra novela, Super Plá. (Lembremos que Duca Belintani, co-autor do livro, também foi integrante do Magazine.) Esta biografia de Kid Vinil já deve ter chegado às livrarias; pode-se falar com a editora pela internet, www.edicoesideal.com.br .

Sunday, March 29, 2015

Ê, TREM BÃO, PONTUAL E SEM PARAR HÁ 50 ANOS

Estão se completando 50 anos do grande sucesso do samba "Trem Das Onze", não só a vencedora do carnaval carioca de 1956, mas também uma das canções brasileiras mais conhecidas em todo o mundo. Aqui vai um "estudo" que produzi para o programa Rádio Matraca sobre este samba.
Adoniran compôs “Trem das Onze” em 1961, mas originalmente o samba era muito longo e Adoniran, que tocava apenas algumas notas no violão e flautim, demorou para conseguir ensiná-lo aos Demônios, e isso causava briga em todos os ensaios do grupo. Os Demônios tiveram de fazer um belo trabalho de copidesque e edição no samba (incluindo a famosa frase "pascalingundum", não "faz caringudum" como muita gente ouve), que ficou pronto em 1964. O disco com “Trem das Onze” foi lançado em agosto e fez tanto sucesso que conseguiu duas grandes façanhas. Uma foi ser a composição mais cantada no Rio de Janeiro, justamente no carnaval de Quarto Centenário da cidade, em 1965. A outra foi se tornar uma das composições brasileiras de maior sucesso no exterior, a partir de uma versão em italiano; inclusive, “Trem das Onze” foi uma das cem canções de maior êxito na Itália nos anos de 1960. Muitos cariocas não se conformaram com o sucesso de “Trem Das Onze”, uma canção paulista até a medula. Houve quem comentasse: “Imagine se carioca, quando está com mulher, vai ligar para horário de trem e mãe esperando em casa.” O grande Stanislaw Ponte Preta, apesar de carioca, não se rendeu ao bairrismo de Vinicius de Moraes e outros, inclusive contestando-o (“São Paulo pode ser o túmulo do carnaval, sim, mas do samba não”), e defendeu entusiasticamente a paulistaníssima “Trem das Onze”. Tanto defendeu que acabou plagiando-a sem querer em sua composição “Samba Do Crioulo Doido”, nesse trecho que acabamos de ouvir. Este samba de Stanislaw foi lançado em 1968 pelo Quarteto em Cy e fez grande sucesso. Ao ser lembrado de que cometera um plágio acidental, Stanislaw não se apertou e disse: "A minha música não fala em trem? Fiz de propósito, pra lembrar mesmo."
Na Itália, onde os trens eram muito mais pontuais que no Brasil, a ênfase da letra de “Trem Das Onze” foi transferida para o amor filial, e a versão chamou-se “Figlio Unico”, composta e gravada em 1966 por Riccardo Del Turco, na mesma levada de sambas à italiana como “Meglio Stasera” e “Quando Quando Quando”.


Uma prova do sucesso mundial de "Figlio Unico" está neste anúncio da Billboard de 7 de janeiro de 1967 (leiam a última, mas não menos importante, linha).


“Figlio Unico”, a versão italiana de “Trem Das Onze”, fez tanto sucesso que não demorou ela mesma a inspirar outras versões. Uma delas é do grupo belgradiano 4M, gravada em 1967 e com o título “Jedinac Sin”, que significa “Filho Único” em iugoslavo. Detalhe: no selo do disco dos 4M aparece apenas o nome de Riccardo Del Turco, não o de Adoniran.
E o cantor espanhol Erasmo Mochi gravou uma versão em espanhol, "Hijo Unico", também em 1967. O próprio Adoniran execrou esta versão, dizendo “Rrrrrruim! Como ele canta mal, e ainda diz ‘vivo em Maringá’!” (Notem que neste caso a situação se inverteu: o selo do disco credita apenas Adoniran e omite Riccardo Del Turco.)

Vinte anos depois, o cantor hebraico Matti Caspi gravou um álbum só de canções brasileiras em hebraico, Crazy Pais Tropical, lançado em 1987, e incluindo uma versão de "Trem Das Onze" bem fiel à original, nada de Maringá. O título é “Afilu Daka”, ou seja, “nem mais um minuto”, e a letra diz “nem mesmo mais um minuto posso ficar, já é tarde, não fiques brava comigo, tenho de pegar o último trem desta noite, exatamente às 11 horas, e minha mãe não dorme sem mim”. Realmente, uma versão em hebraico teria de falar em mãe...


Em 1994 a grande dupla gaúcha de humor musical Klaunus & Pletskaia cantou "The Eleven’s Train", uma versão de “Trem das Onze” em inglês macarrônico. E em 2001 foi lançado na Itália o CD Buena Vista Social Ska, com versões em ska de grandes sucessos da música pop italiana. Um deles é justamente “Figlio Unico”, ou seja, “Trem das Onze” em italiano. E esta versão em ska é interpretada pelo grupo Arpioni e cantada no feminino, ou seja, “Figlia Unica”, por uma mulher, Begoña Bang-Matu.
Como toda canção de grande sucesso, “Trem das Onze” inspirou muitas imitações, continuações e paródias. Uma das primeiras foi “Desculpe, Mãe”, composição de Enock Figueiredo, com um grupo chamado Anjos do Sol; até o nome tem alguma semelhança com Demônios da Garoa. E os Quatro Azes e Um Coringa foram um dos grandes grupos vocais brasileiros e um dos mais imitados pelos próprios Demônios. Com o sucesso de “Trem Das Onze”, os Quatro Azes não resistiram a imitar seus imitadores, embora com sutileza, em "Reza Por Mim", composição de Roberto Faissal.
A demolição da estação Jaçanã de trem, para construção da avenida Radial Norte e modernização da Zona Norte de São Paulo, começou a ser planejada em 1964 e foi efetivada em 1966. Começaram a surgir as primeiras composições a aproveitarem o sucesso de “Trem Das Onze” pelo lado nostálgico. A pioneira foi “Adeus, Cantareira”, de Frederico Rossi, lançada pelos Demônios em 1965. Outra das muitas imitações/continuações de “Trem Das Onze” é “Penha-Lapa”, gravada pelos Azes da Melodia em 1965. A composição é de Doca e Ivan Pires, que também chegou a ser integrante dos Demônios da Garoa. Curioso é que o título do samba está creditado no selo do compacto como “Penha-Lapa”, mas o grupo canta “Lapa-Penha”.
Tom Zé, o tropicalista não-paulistano que mais afinidade tem com São Paulo, homenageou Adoniran em várias de suas canções, e uma delas é esta, “A Volta Do Trem Das Onze”, lançado em 2005. E este que vos escreve compôs e gravou em 2000 “O Trem Das 10 (Podia Ser De Qualquer Hora)”, sobre o atraso costumeiro dos trens paulistanos até então (se bem que de lá para cá a situação tem melhorado um pouco).
E quase tudo isso pode ser conferido aqui, dirijam-se para o atalho de embarque e boa viagem!

Friday, February 27, 2015

"ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS..."

Sim, hoje faz exatamente uma década que inaugurei este espaço com toda a pujança e idealismo de um jovem de 47 anos. Mesmo que eu nem sempre tenha comparecido com a assiduidade que eu gostaria, espero ter ajudado a difundir música e cultura - como pretendo continuar fazendo,  com toda a pujança e idealismo de um jovem de 57 anos.

E numa coincidência daquelas que se programadas não dariam certo, ainda ontem uma pessoa amiga e companheira de "mutantologia", Marcus Queiroz, escreveu em seu blog um belo texto a meu respeito:

Ode A Big Mug.

Como Ayrton Mugnaini Jr. consegue por sua cabeça no travesseiro e dormir, sabendo que ele é apenas Ayrton Mugnaini Jr.?

Mal sei, mal sei. Insisto nesta questão até o fim deste relato mal detalhado e sem informações concretas, pois, como pode ser um homem tão versátil, íntegro, sucinto e carregado de um humor ácido e inteligente - cujas pessoas o talvez julguem por meio de ser incoerente, entrão ou qualquer outro adjetivo de mal logradouro. A maioria dos gênios são incompreendidos e/ou subestimados, coisa que acontece também com este homenageado.

Estas pessoas - pobres pessoas, mal conhecem o Professor (Sim, ele também é professor).

Ayrton é uma pessoa única, como qualquer outra pessoa que gosta de música no mundo, que acorda cedo e dorme tarde como qualquer outra pessoa no mundo e que é feliz, como qualquer outra pessoa no mundo. Eu desde cedo conheço ele, sem ter ligado nome a pessoa. Tenho uma biografia do Raul Seixas, herdada do meu pai, que contém seu nome, e quando ouvi pela primeira vez Língua de Trapo aos meus 14 anos, não imaginava sequer que o nome de Ayrton estava envolvido ali, as revistas com matérias épicas e detalhadas de bandas incríveis, resenhas, e links para shows piratas, e gemas "perdidas" de músicas e músicos, teriam seu toque em letras e blogs, e afins. Pensando bem, até você, amigo(a) leitor(a) já deve ter cruzado o caminho do meu amigo Ayrton, mas não deve ter tido noção de que ele era realmente ele.

Além de tudo isso, um bom compositor, letrista, musicista, pesquisador, autor de bons livros, radialista e ainda tem ótimos discos na jogada. Afinal, Como Ayrton consegue por a cabeça no travesseiro sabendo que ele é ele? Como ele se sente sabendo que é tão importante e vital para um pedaço histórico da música, e quiçá de toda uma geração? Seus dados, suas fontes, sua histórias, e todo o resto só podem ser cada vez mais relevantes para quem pesquisa, ou apenas quer conhecer mais e mais sobre o universo.

Dado a última vez que vi Ayrton, pude perceber outra de suas qualidades: Ele simplesmente andou da Móoca até  Belém, para poder me encontrar no Tatuapé(!). Um presente que recebi também foi ter seu autógrafo no meu LP recém-adquirido desta figuraça. E assim sendo Ayrton Mugnaini Jr. me mostrou toda a sua humildade, paciência, amizade e carisma (apesar de encharcado pela chuva de ontem).

Talvez este texto acima seja apenas para dar valor para quem é necessário, antes que seja tarde, ou para que não passe em branco. Afinal, pessoas boas existem, e Ayrton faz parte desse seleto time, com todo louvor.

Sim, ficou bonito. Coisas assim fazem os anos valerem a pena. E o texto pode ser lido também no blog do próprio Marcus Queiroz, digno, por sinal, de ser lido inteiro.