Wednesday, April 27, 2016

FELIZ ENQUANTO HOUVER VOCÊS: UM POUCO DE "TILL THERE WAS YOU"

Um de meus grandes orgulhos e júbilos (gostaram?) é a dupla que formei em 2015 com Verônica Tamaoki, notória e emérita pesquisadora e artista circense que está se revelando como cantora. Eu manobro o violão e os arranjos, e ela escolhe as canções que mais lhe tocam. Num dos ensaios mais recentes ela acrescentou ao repertório “Quando Te Vi”, que a maioria das pessoas que cresceram no Brasil nos anos 1970 e 1980 conhece como “versão cantada por Beto Guedes para uma canção dos Beatles”, no caso “Till There Was You”, lançada na Inglaterra em 1963 e no Brasil dois anos mais tarde. Aqui estão as formas onde muitos e muitas de nós conheceram a gravação dos Beatles (em sua primeira edição brasílica) e a versão cantada por Beto Guedes (em seu LP Viagem Das Mãos, de 1985).



Só que esta bela canção surpreende com novos pormenores a cada vez que se lhe examina (gostaram de novo?). Sim, esta versão foi lançada por Beto Guedes, mas a autoria é de Ronaldo Bastos. Não, a composição não é dos Beatles, e sim do pianista e compositor estadunidense Meredith Wilson (1902/1984). E antes de ser transformada em bolero-rock liverpudliano a canção já havia se tornado um clássico pop (por "pop" entenda-se música popular comercial, seja rock ou outro ritmo, não um mero sinônimo de rock como diz muita gente boa), inclusive na Broadway e no cinema – e com versões mais “rock” que a dos Beatles. Vejamos.

Uma primeira pesquisa nos diz que “Till There Was You” nasceu como um dos temas do musical da Broadway The Music Man, sobre um “músico” picareta dos anos 1910 que vai de cidade em cidade oferecendo aulas de música para crianças, cobrando adiantado de pais & mães e fugindo com a grana, até que um dia se apaixona por uma dama local e reluta em continuar fugindo... The Music Man estreou em 1957; a gravadora Capitol pôs tanta fé neste musical que lançou algumas de suas canções em discos antes mesmo da estréia na Broadway; uma das escolhidas foi justamente “Till There Was You”, com a jovem cantora Sue Raney (17 anos de idade) acompanhada pela orquestra do grande Nelson Riddle. O disco saiu em 26 de novembro de 1957, quase dois meses antes do álbum com o elenco da peça, no dia 20 de janeiro seguinte. Ouçam aqui a gravação de Sue Raney. E confiram abaixo dois recortes da revista Billboard de 11 e 25 de novembro de 1957 comentando  e divulgando o disco.



Na peça, “Till There Was You” foi cantada pela atriz Barbara Cook – sim, esta interpretação é uma dádiva para quem gosta de musicais com vozeirão empostado na linha de A Noviça Rebelde. Confiram aqui. E a confiança da gravadora Capitol em The Music Man revelou-se plenamente justificada; o musical fez tanto sucesso – inclusive rendendo para o LP correspondente o primeiro Grammy para uma trilha teatral – que a Capitol lançou também a trilha sonora da versão filmada, em 1962. Mal sabia a Capitol que em 1964 ela iria lançar nos EUA a versão de maior sucesso de “TTWY” – sim, a dos Beatles, que até se tornou, segundo a viúva de Meredith Wilson, de longe a maior fonte de renda do maridão.

Entre a gravação de Barbara Cook e a dos Beatles, “TTWY” tornou-se, como dissemos, um clássico da música pop, regravada por muitos artistas, incluindo Peggy Lee, Sonny Rollins, Al Hirt e Sergio Franchi, e a versão rock pioneira a que me referi foi com a cantora Anita Bryant em 1959 - uma balada-rock em compasso 12/8 na linha de “Only You”, “Come Prima” e outras. Ouça esta gravação aqui e deguste abaixo os selos da primeira edição e de uma rara versão em compacto estéreo.

“Quando Te Vi” fez grande sucesso, mas não foi a primeira versão brasílica de “TTWY”. Há pelo menos uma precedente, “Não Há Você”, escrita pelo radialista Waldyr Santos e gravada pelos Incríveis (ouça aqui) exatamente 20 anos antes, em 1965, no seu último LP (sem título) com o contrabaixista original, Neno, e ainda na primeira gravadora da banda, a Continental (onde o grupo gravou até 1967). Uma das outras faixas deste álbum é a primeira das duas gravações que a banda fez de “O Milionário” (“The Millionaire”)  da banda inglesa The Dakotas; a segunda foi feita em 1968 para outra gravadora, a RCA, e fez tanto sucesso que em 1970 a Continental não teve dúvida em pegar carona, relançando o LP de 1965 com título O Milionário – só que substituindo a (toscaça) capa original pela capa do álbum seguinte da banda, de 1966, também sem título mas o primeiro com o contrabaixista Neno substituído por Nenê (muita gente boa confunde os apelidos de ambos e há até quem pense serem eles uma mesma e única pessoa!). Esta edição com capa trocada/errada é a mais comum e a mais reeditada, inclusive em CD; meu exemplar é da reedição econômica de 1982, e autografado para mim pela formação clássica dos Incríveis (Manito, Mingo, Nenê, Netinho e Risonho) em um de seus últimos shows juntos, na casa paulistana Tom Brasil em 1996. Eu não sabia ainda que Nenê aparecia na capa mas não tocava no disco – o LP de 1965 é dos mais raros da banda e só consegui minha cópia anos depois – , nem mesmo quando a Continental (então já adquirida pela Warner Music) me chamou para escrever o release da primeira edição do álbum em CD, em 1994; Nenê foi tão gentil que elogiou meu release mas esperou alguns anos para me esclarecer o caso, dizendo inclusive que estava processando a gravadora pela confusão.


Este é o LP onde surgiu a versão de "Till There Was You" gravada pelos Incríveis.


Esse é o hoje igualmente raro LP seguinte da banda, de 1966.



Em 1970 a Continental (usando o selo Musicolor) relançou o disco de 1965 com a capa do seguinte; Nenê está na capa mas não no disco.



Esta edição de 1982 da Rosicler, um dos selos econômicos da Continental, é um dos muitos relançamentos desta versão híbrida/confusa do LP; este é meu exemplar autografado por Manito, Mingo, Nenê, Netinho e Risonho. 


E esta é a primeira edição em CD.

Ainda no quesito rock brasileiro dos anos 1960 com relação a “Till There Was You”, vale a pena garimpar 12 Maravilhas, LP de 1968 da banda carioca Os Santos, aquela formada por Euclides dos The Pop's e que acompanhou Ronnie Von em seu primeiro disco, “Meu Bem”. O álbum 12 Maravilhas reúne uma dúzia de sucessos da velha guarda da MPB arranjadas como rock instrumental. Citei aqui este disco para vocês procurarem o solo criado e executado por George Harrison para “Till There Was You” no meio da interpretação dos Santos de “Jamais Te Esquecerei”, samba-canção do grande violonista Antonio Rago; ouçam aqui. E segue abaixo a capa do LP.


Após o sucesso na Broadway, The Music Man chegou a Hollywood, como dissemos, e o filme saiu em junho de 1962; “TTWY” foi entoada por Shirley Jones; ouçam aqui(Se o nome e a imagem de Shirley Jones soam familiares, há motivo: ela começou os anos 1970 atuando no seriado The Partridge Family/A Família Dó-Ré-Mi – interessante é a sátira deste seriado feita pela revista Mad dizer que Shirley nunca ergueu a voz “acima de um monocórdio”.). O filme foi exibido no Brasil em 1963 com título O Vendedor de Ilusões – sim, encamparam o título da peça de Oduvaldo Vianna lançada com sucesso em 1931 celebrizada por Procópio Ferreira e para a qual o famoso “Monólogo das Mãos” está como o “Ser Ou Não Ser” está para Hamlet de Shakespeare. (Pois é, o título brasileiro dado a este filme prova que a gravadora Continental não esteve sozinha em agir primeiro e pensar depois, e bons títulos de peças e filmes não costumam ser usados apenas uma vez...)

Ah! Mais uma surpresa: a gravação original de “TTWY” não é a de Sue Raney e sim da cantora Eileen Willson (sem parentesco com Meredith), que lançou a canção em 1950 com título “Till I Met You” (não confundir com a balada homônima posterior da banda inglesa The Searchers). Confiram aqui.


E, para ainda mais júbilo (eu sabia que vocês haviam gostado) de quem estuda música brasileira no circo, inclusive eu mesmo e Tamaoki-san, o título “Vendedor De Ilusões” (sem o artigo dfinido) serviu também para uma marcha carnavalesca lançada em 1964 pelos palhaços Arrelia e Pimentinha (ouçam aqui, com o perdão da baixa qualidade desta digitalização que consegui por ora); a letra nada tem a ver com o filme The Music Man nem com a peça de Oduvaldo Vianna, mas cita periquitos que leem a sorte (e que em tempos mais recentes estão deixando de ser confinados em gaiolinhas de realejos), com direito a citação de outra canção que remete ao circo – “Oh Minas Gerais”, a versão do grande palhaço-cantor Eduardo Das Neves para a canção italiana “Vieni Sul Mar”...


Wednesday, March 30, 2016

REBOLATION JORNALÍSTICO É BOM, BOM, BOM

A música popular sempre gostou de rebolado. Inclusive a anglo-saxã. Para quem não sabe, basta lembrarmos que "rebolar" em inglês é "to shimmy", e temos então o clássico do dixieland "I Wish I Could Shimmy Like My Sister Kate" (assinada por Armand Piron mas composta por ninguém menos que Louis Armstrong), "Shout And Shimmy" de James Brown (regravada pelo Who) e os rocões "Shimmy Shake" e "Shimmy Shimmy" (ambas estraçalhadas pelos Beatles em Hamburgo, e ainda John cantou a segunda como "shitty"). Não, não esquecerei da paródia de dixieland "Miss Lilly Higgins Sings Shimmy In Mississippi's Spring" da trupe argentina de humor musical Les Luthiers. Nem da paródia "Shimmy Like My Sister Arthur" (!) da banda inglesa Shadows.

Lembrei-me de tudo isso ao ser encontrado em um sebo por alguns exemplares de Shimmy, revista carioca em formato pequeno que durou de 1927 a 1934 - duração até que boa para revistas brasileiras de qualquer tempo. A Shimmy era revista de humor, variedades e erotismo - pode até ter sido a primeira publicação brasileira sistematicamente erótica. Certamente, a revista era bem feita e seu humor era quase sempre picante mas sutil. (Ah, sim: perdoem estas minhas reproduções de qualidade abaixo da ideal, e o facto de todos estes meus exemplares estarem encadernados num volume único também não ajuda muito.)


Sim, a Shimmy era baluarte do, digamos, machismo suave; belas damas como adorno nas capas e páginas são o que não falta. Mas uma boa leitura em várias edições revela outras noções, como a de que maridos foram feitos para serem traídos - ou, como diz a revista, "enganados" - e de que homens são o oposto das balzaquianas, tornando-se nada ao completarem 30 anos de idade.



Um ilustre colaborador de Shimmy foi o ainda iniciante Lamartine Babo, sua bela biografia Trá-Lá-Lá lembra que ele usou vários pseudônimos, mas um destes meus exemplares inclui uma colaboração de 1928 que ele assinou como ele mesmo.


Na pesquisa para minha saudosa coluna "Hora Do Passeio" na revista Cães & Cia., descobri na Shimmy esta notícia que já então era curiosidade antiga:


Hoje em dia há uma revista virtual chamada Shimmie, sem nada a ver além do nome. Tem mais sobre nossa Shimmy em lugares como este. E, realmente, para se fazer revista no Brasil tem que rebolar, rebolar, rebolar...

Thursday, March 17, 2016

DESMITANDO: GRANDES MITOS DA MÚSICA BRASILEIRA

Desde os primeiros grunhidos primitivos aos mais recentes grunhidos primitivos, o que nunca faltou são noções e dados que muita gente ouve sem questionar ou verificar e mesmo assim passa adiante. Aqui estão alguns dos maiores de tais mitos da música brasileira, incluindo rock brasileiro. (Um ou outro destes mitos – ou, mais exatamente, erros repetidos até quase se tornarem verdades - foi repetido até por este que vos escreve na pura ignorância de uma versão mais exata; e, já que quem critica tem de apresentar solução, esta autocrítica vem de brinde com as (auto-)correções.)

Começando do começo, pelos primórdios da fonografia brasílica:

* “Pelo Telefone” foi o primeiro samba gravado em disco

Nããããão! “Pelo Telefone”, composição de Donga e Mauro de Almeida (autoria algo controversa, mas não vem ao caso agora), gravado em novembro de 1916 e lançado em dezembro (cem anos já...), foi “apenas” o primeiro samba a fazer grande sucesso e se tornar um clássico da MPB. Há pelo menos dez exemplos anteriores a trazerem no disco o crédito de “samba”, alguns sendo “Urubu Malandro” de Pixinguinha (c. 1912-1914), “A Viola Está Magoada” de Catullo da Paixão Cearense (c. 1912-1915), “Quando A Mulher Não Quer” (autoria desconhecida, c. 1908-1912) e “Em Casa De Baiana” (também de autoria desconhecida, c. 1911 – e cujo selo tirei de História do Samba, bela coleção de fascículos-e-CDs da Editora Globo. E não reparem o erro indelicado de grafia de “Casa” no selo do disco).



* “Isto É Bom” foi o primeiro disco brasileiro

Outro caso de “apenas”. “Isto É Bom”, composição de Xisto Bahia em gravação do cantor Bahiano, foi “apenas” o disco que recebeu o número 10001 no primeiro catálogo da Casa Edison, lançado em 2 de agosto de 1902 (e aqui reproduzido “apud” o primeiro volume do sempre indispensável livro Panorama Da Música Popular Brasileira de Ary Vasconcellos); nota-se neste catálogo que “Isto É Bom” foi lançado simultaneamente com dezenas de outros discos, e que, dada a popularidade de Bahiano, pode até ter sido o primeiro a ter sido gravado, mas vai saber...



(Curiosidade mugnaínica: a Casa Edison lançou este disco com o selo Zon-O-Phone. Este selo soa familiar? Sim, é o mesmo selo Zonophone, originalmente alemão (tal como o Odeon, também usado - e com muito mais frequência - pela Casa Edison, que inclusive mandava prensar os discos na Alemanha) mas que comprou seu nome de uma gravadora estadunidense falida, e que décadas depois seria unido pela EMI inglesa a outro, Regal, formando o Regal Zonophone, onde gravariam Joe Cocker, o Procol Harum, The Move e outros grandes roqueiros. Quem gosta de acompanhar tais epopéias pode se divertir em páginas como esta.

Agora, MPB em geral:

* Luhli é sobrinha-neta de Noel Rosa

A grande cantora e compositora Luhli (ex-Luli), autora de sucessos de Ney Matogrosso com e sem os Secos & Molhados como “O Vira”, “Fala” e “Bandoleiro”, teria de ter sido filha de uma das duas únicas sobrinhas de Noel, Irami Medeiros Rosa de Melo e Maria Alice Joseph, filhas de seu único irmão. Hélio Rosa, com idades de 72 e 70 anos em 2012 segundo a Folha de S. Paulo. Mas Luhli nasceu quase ao mesmo tempo que elas, em 1945. Ela tem em comum com Noel Rosa o facto de também ser carioca de Vila Isabel, e sua família, além de ser uma das fundadoras do bairro, é muito amiga da família de Noel, afinidade esta tão grande que Luhli até afirmou ser sobrinha-neta de Noel – e muita gente boa levou ao pé da letra...

* “Ou não” é bordão criado e usado por Caetano Veloso

Na verdade, é o título do primeiro álbum de Walter Franco e um verso de sua anti-canção “Cabeça”. Talvez o crédito equivocado a Caetano deva-se a seu álbum Araçá Azul ter saído praticamente junto a Ou Não, em fevereiro de 1983. e ambos os discos serem bastante semelhantes no experimentalismo anticomercial com vanguarda, rock, MPB. E Caetano não perde oportunidade para desmentir: “Mesmo que tenha sido uma confusão nascida da ignorância de alguns humoristas, é uma honra para mim ter herdado o bordão ‘ou não’ de Walter Franco.” (Talvez um precedente a Walter ou Caetano seja a estrofe “a cultura/a civilização/elas que se danem/ou não” de Gilberto Gil, mas sem dúvida Walter levou a idéia muito adiante).

* Claudya foi grande rival de Elis Regina

Em 1965, Claudya, uma das maiores cantoras brasileiras, apresentou-se no programa O Fino Da Bossa, apresentado na TV Record por Elis Regina, e ela já cantava tão bem que foi convidada pelo produtor e compositor Ronaldo Bôscoli para estrear um show chamado Quem Tem Medo De Elis Regina?. Claudya, que era fã de Elis, se recusou, mas Elis ficou sabendo pela via deturpada do fuxico e surgiu daí o boato de uma rivalidade entre ambas.

* “Asa Branca” foi regravada pelos Beatles

Boato lançado por Carlos Imperial no segundo semestre de 1968 para promover Luiz Gonzaga, cuja popularidade estava em baixa devido às hegemonias do rock, do tropicalismo e da MPB com menos influências sertanejas ou nordestinas (obras como “Ponteio” e “Disparada” .eram minoria). Provavelmente Carlos Imperial aproveitou a ligeira porém notável semelhança do baião com uma das mais recentes gravações dos Beatles, “The Inner Light”, lançada em maio na Inglaterra e em junho no Brasil (em caso de dúvida, confira neste vídeo no Youtube a partir dos 0’08”).

Chegou a vez do pop-rock brasileiro:

* Lucinha Turnbull foi a primeira mulher brasileira a tocar guitarra elétrica

Típica bobagem (para citar uma canção de Rita Lee que fez sucesso com Lucinha) tão grande, e quase tão difundida, quanto dizer que o primeiro disco pirata foi The Great White Wonder de Bob Dylan... Lucinha Turnbull pode até ter sido a primeira brasileira a se notabilizar como grande guitarrista, mas há pelo menos dois precedentes documentados de guitarra tocada neste país pelo verdadeiro sexo forte: a cantora e compositora mineira Martinha (basta ver a capa de seu primeiro disco, de 1966) e a banda niteroiense As Feiticeiras (como atesta o livro Liverpool-Cantareira: A Rota Do Rock (Editora Niterói, 2004) do saudoso Marcus Heizer, sobre o rock em Nikiti dos anos 1960 e começo dos 1970).




* Raul Seixas encontrou-se com John Lennon nos EUA

Isso teria acontecido no primeiro semestre de 1974, quando Raul esteve exilado em Nova Iorque. Assim dizia Raul: “Discutimos a Sociedade Alternativa no Brasil. Notando meu nervosismo e minha ansiedade, ele disse pra eu relaxar, porque a gente estava em Nova Iorque e não na terra da paranoia.” Muita gente acreditou, até que nos anos 1990 surgiram os desmentidos, inclusive de pessoas emeritamente beatlemaníacas como Marco Antonio Mallagoli, que disse a este que vos escreve: “Raul não precisava ter inventado isso para aparecer”.

* “Eu Te Amo Meu Brasil”, grande sucesso dos Incríveis, foi gravado especialmente para promover a ditadura militar

Esta marcha-rancho foi composta por Dom (sim, o da dupla com Ravel) simplesmente como uma ode ao país, uma “Aquarela Do Brasil” mais simples e direta. Mingo, guitarrista-base dos Incríveis, resumiu em entrevista a este que vos escreve: “Gravamos para o povo, não para os militares”, Mas o disco, lançado em outubro de 1970, fez tanto sucesso que a canção foi inevitavelmente cooptada pela ditadura militar – de forma algo semelhante ao compositor Richard Wagner ter sido associado ao nazismo devido a suas óperas terem sido consideradas bons exemplos de nacionalismo para a Alemanha nazista, e Wagner não pôde opinar por estar morto desde 1883, décadas antes da ascensão do nazismo em seu país...

* O rótulo “jovem guarda” foi inspirado em Lênin

Muita gente – inclusive este que vos tecla – ouviu dizer e saiu repetindo que o publicitário Carlito Maia, que nos anos 1960 trabalhou para Roberto Carlos e o pessoal do programa Jovem Guarda, tomou este nome de uma suposta frase do líder comunista Lenin, “o futuro pertence à jovem guarda, pois a velha está ultrapassada”. Eu, pelo menos, venho me penitenciar, após muita procura em vão por essa frase nas obras de Lênin. Mas para esse "não" há quatro "sims".

Sim 1: Lênin realmente exortou a juventude a lutar contra o capitalismo e a opressão em geral.

Sim 2: a expressão “jovem guarda” já vinha sendo muito usada pelo comunismo, embora não por Lênin.

Sim 3: Carlito Maia foi intencionalmente irônico ao usar uma expressão comunista para designar uma união de música e capitalismo, embora ele mesmo fosse de esquerda, sendo inclusive um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores.

E Sim 4: Maia deve ter utilizado a expressão ao saber que ela foi usada num congresso comunista mundial realizado em 1965, e cuja minuta inclui este trecho: “O novo movimento não pode esperar por super-homens nem ter messias, deve se basear no que pôde ser preservado por muito tempo, mas esta preservação não pode se restringir ao ensinamento de teses e pesquisa de documentos; ela usa instrumentos vivos para formar uma velha guarda e transmiti-las, com força e integridade, a uma jovem guarda”.

* Roberto Carlos proíbe toda e qualquer menção ao acidente que sofreu na infância

Realmente, Roberto proibiu algumas reportagens de jornais sobre o assunto. Numa de suas primeiras entrevistas coletivas dos anos 1990, uma repórter perguntou “por quê o artista Roberto Carlos faz tanta questão de esconder a pessoa Roberto Carlos” e ele esclareceu que não proíbe menções ao acidente, mas sim que elas sejam veiculadas com destaque suficiente para caracterizar exploração e sensacionalismo, como era o caso das reportagens acima mencionadas. Inclusive, após a entrevista citada foram lançados pelo menos dois livros que mencionam o episódio e não sofreram censura alguma, Eles E Eu de Ronaldo Boscoli e o meu Roberto Carlos: Esta É A Nossa Canção.

E, para acabar, alguns itens sobre justamente isso:

* As marchinhas de carnaval acabaram

As marchinhas apenas deixaram de ser opção de sucesso para a grande indústria fonográfica, por volta de 1985. Mas muita gente continua compondo marchas carnavalescas, havendo inclusive pelo menos dois concursos regulares dedicado a elas, nas cidades paulistas de São Luís de Paraitinga e Pindamonhangaba. Vale também lembrarmos discos recentes só de marchinhas novas (e boas), como o primeiro da banda Os Marchistas e Carnaval É Bom, Mas Com Você É Bem Melhor do grupo Paranga.

* Os festivais competitivos de música acabaram

Isso pode ser verdade para os festivais das emissoras de televisão; mas tais certames continuam firmes pelo interior do Brasil, como os de Avaré e Botucatu.

* O Brasil teve uma “volta do vinil” nos anos 2010

O “vinil” nunca voltou... simplesmente porque nunca foi embora. Tal formato nunca deixou de ser lançado no Brasil, embora nos anos 2000 as prensagens de LPs e compactos tenham se tornado mais raras, muitas vezes restritas a selos independentes, e alguns lançamentos tenham sido prensados em outros países, como a Alemanha – exatamente como os primeiros discos brasileiros (inclusive o supracitado “Isto É Bom”) cem anos antes. E "tudo acaba onde começou"...

Monday, January 04, 2016

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA PESSOAL DE 2015

2015 foi para mim um baita ano – pura e simplesmente, um dos melhores e mais produtivos até agora, um dos anos em que mais iniciei novos e bons projetos e conheci (e reencontrei) mais gente boa. “Conta tuas muitas bênçãos!”, diz o hino, e é o que venho fazer aqui todos os anos – sim, “contar” em ambos os sentidos, narrar e enumerar, numa tarefa agradavelmente árdua de resumir tanto em espaço permitido pela auto-referência justificada.

RESPEITÁVEL PÚBLICO!

Aprendi na vida a não usar com intenção ofensiva ou pejorativa palavras como “velho”, “caipira” “cachorro”, “porco” e “palhaço”. Afinal, já tenho uma certa idade e pretendo ter mais, escrevo também sobre animais de estimação, fui criado no “interiorrr” paulista e já estou entrando no quarto ano de minha carreira de circense – não como palhaço (como talvez seria de se esperar), mas músico de charanga.

Em 2009 o Centro de Memória do Circo, entidade paulistana mantida pela Prefeitura e dedicada a pesquisa, preservação divulgação da história e saberes circenses (primeira instituição do gênero no Brasil), me encomendou uma pesquisa sobre música e circo. Quando percebi, eu havia feito a primeira grande pesquisa sobre o assunto até mesmo em nível mundial, com gravações do fim do século 19 ao início do 21 e dos mais variados gêneros e países, e me tornei uma das pessoas consultoras da exposição permanente Hoje Tem Espetáculo do CMC (ah, sim: para quem não sabe, fica na Galeria Olido, no centro de Sampa.)

Meu envolvimento com o circo estava apenas começando. Em 2012 fui convidado a participar como violonista e, ocasionalmente, contrabaixista numa temporada do Circo Pindorama, numa parceria do CMC com o Teatro Oficina (que cedeu o espaço, na Praça Pérola Byington) e o Bixigão (projeto social para crianças de rua). Sim, já posso falar: além de compositor, escritor, pesquisador, radialista e tradutor, sou também circense, nas áreas de música e pesquisa. E participo, inclusive como uma das pessoas fundadoras, de outro belo projeto do CMC: o Sarau Café do Circo. Muito mais que "apenas" um museu de tradições circenses, o CMC é um espaço vivo, onde pessoas artistas, pesquisadoras e interessadas se reúnem para confraternização e eventos diversos como homenagens, lançamentos de discos e livros, exibição de filmes e shows, incluindo este Sarau Café do Circo, evento mensal criado no começo de 2015 com sucesso (e fizemos parte da Virada Cultural – foi, por sinal, minha primeira participação neste projeto anual da Prefeitura de Sampa). Foi graças ao Sarau do Café do Circo que me tornei amigo e colega de trabalho de Alessandra Siqueira (trombonista e a palhaça Silueta), Edmeia Memeia (atriz), Joy Domingoz (equilibrista), Levi Orion (malabarista e músico), Mafê Vieira (a palhaça Mendiva), Manu Muniz (pintor), Nina Sprovieri (atriz e malabarista) e Viviane Figueiredo (a palhaça Espalha-Brasas), além de Amercy Marrocos (quituteira e atriz), Mayran Marrocos (atriz e malabarista), a artesã Marília Pereira, a dupla de palhaças cantoras Mariana Gabriel e Juliana Mattos, a Trupe Um Kilo E Meio De Variedades (dupla dos palhaços e músicos Julio Fuska e Erickson Almeida, o Herolino) e da banda Cabaré Três Vinténs. Afirmei e repito: poucas vezes conheci tanta gente boa artista de uma vez só.


(Na foto, da esquerda para a direita: Levi Orion, Joy Domingoz, Edméia Memeia, Viviane Figueiredo, Alessandra Siqueira, Mug, Nina Sprovieri, Verônica Tamaoki e a dupla de palhaçaria Kerouac, participante desta edição do Sarau Café do Circo. E este painel foi feito por Marília Pereira.)

E há dois anos Verônica Tamaoki, diretora do CMC e coordenadora e apresentadora do Sarau Café do Circo, sugeriu-me pesquisar e escrever um livro sobre a música brasileira e o circo; pois bem, já tenho pronta boa parte do texto, acho que ainda nesta década o livro sai. Por sinal, a própria Tamaoki-san, ela mesma artista circense e referência no circo brasileiro. vem demonstrando potencial como cantora, até falei sobre isso em minha retrospectiva de 2014 aqui no blog; no Sarau Café do Circo ela tem cantado mais, e promete cantar mais ainda em 2016, inclusive com minha honrada parceria. Matte kudasai!

EMPREENDENDO E ACONTECENDO

Em 2015 completaram-se 18 anos de amizade e parceria com a cantora, compositora, fonoaudióloga e esteticista Vera Mendes, com muitas gravações, shows e palestras. No fim de 2014 ela me convidou a participar de um evento sobre empreendedorismo, e ao começar 2015 tornei-me parte do projeto. Eu e Verona tivemos a ideia de unir música e empreendedorismo, para demonstrar que o mundo dos negócios não precisa, nem deve, ser uma coisa árida sem diversão, tão-somente prazos, planilhas e livros-caixa. Compus então uma série de canções sobre música e empreendedorismo, e Verona idealizou um projeto de eventos em empresas sobre o tema; chamamos o projeto de Empreendedores Urbanos, e uma amostra está aqui. Tivemos a assistência de André Furkin, empreendedor por excelência e então vinculado à Associação Comercial de São Paulo. Como demonstração, compusemos um jingle para o Magazine Luiza, e o mostramos pessoalmente para a própria Luiza Trajano, a dona da empresa, num evento do Núcleo Saúde & Bem-Estar do Programa Empreender da Distrital Norte da ACSP,  realizado na Mega Loja do Magazine Luíza na Marginal Tietê; confiram o vídeo aqui.



(Na foto: Luiza Trajano, uma integrante da equipe do evento - pedindo desculpas a ela por eu não lembrar agora seu nome - Mug, Vera Mendes e André Furkin)

Outro novo projeto de uma velha amiga e parceira para o qual fui convidado em 2015 foi o Movimento Chega De Homem, criado por Tereza Miguel e dedicado a eliminar não o sexo masculino e sim o machismo na língua portuguesa - aquela coisa de se referir a 99 mulheres e um homem como "eles". Dizer "elas" seria o erro oposto; o certo seria dizer "99 mulheres e um homem", "100 pessoas", sem favorecer um sexo nem o outro. Estamos com uma página de discussão (sem brigas) no Facebook; é esta aqui.

DIZ-ME COM QUEM FAZES MÚSICA

Sempre digo que a era dos festivais passou, e agora estamos na era dos saraus, de música, poesia ou ambas. Em 2015 completaram-se 13 anos do Clube Caiubi de Compositores (de cuja diretoria sou integrante), e muitos outros eventos paulistanos têm feito sucesso para quem procura música diferente da divulgada pelas rádios e TVs comerciais, como Sarau da Maria, o Sarau da Casa Amarela, o Sarau da Casa das Rosas e o Via Sarau. Tais eventos, aliados ao velho e bom Facebook, têm sido boas ferramentas do destino para que eu forme boas parcerias, o que aconteceu com uma boa frequência em 2015. Destaque especial merece ser dado à cantora, atriz e produtora carioca Nadja Bandeira, com quem comecei a compor e gravar, e ao letrista niteroiense Celso Madruga, parceiro de Nadja na outra ponta da Via Dutra e com quem também já estou compondo.


(Na foto: Mug e Nadja Bandeira)

Ainda em 2015 Givly Simons, um cliente meu de LPs, disse-me que era cantor e compositor e me convidou para participar de um disco dele; gravei, ele gostou, mas o fonograma permanece inédito. Givly tornou-se bem mais conhecido como Figueroas, revelação da lambada satírica. E pessoas amigas me convidaram para tocar com duas cantoras que merecem ser mais conhecidas: a roqueira Samara Noronha (que tem alguns clipes por aí) e a MPBzeira Márcia de Carvalho. Descobri também o potencial de uma amiga poetisa, Silvia Palaia, que como eu é fã da obra de Chico Buarque, e transformei um poema dela numa canção que pode ser ouvida nesta gravação demo caseira aqui.



{Na foto: Mug e Silvia Palaia)


Na foto: Mug com o compositor Arnaldo Afonso e a cantora Márcia de Carvalho)


(Na foto: Mug e Samara Noronha no Sensorial Pub, em evento promovido pelo lendário jornalista Humberto Finatti; na ocasião cantei meu hit inspirado nele - esse mesmo, "Rebelde Sem Alça.")

Tornei-me também parceiro de duas pessoas companheiras do Caiubi cujas obras eu já admirava: o compositor Walter Zanatta e a poetisa Claire Feliz Regina – ainda não consigo acreditar que fui a primeira pessoa a ver o potencial musical dos poemas desta dama incrível, muito menos que fui para ela o que Adoniran Barbosa foi para Hilda Hilst (o bardo do Bixiga musicou poemas de HH antes de Zeca Baleiro haver nascido).



(Na foto: Mug e Claire Feliz Regina com poema dela recém-musicado por ele em pleno Sarau Sopa de Letrinhas)

Já posso dizer que toquei com o lendário Loop B., numa de suas participações no Sopa de Letrinhas, o sarau lítero-musical do Caiubi, Fiz minhas primeiras gravações com outra velha amiga de Caiubi, a cantora e compositora Célia Demezio. E enquanto algumas parcerias são imediatas, como estas que citei, outras levam tempo, como uma canção em parceria com Walter Franco, que iniciamos lá em 1988-89 e que terminei agora em 2015; o próprio Walter gostou e aprovou, embora não se lembrasse da meia melodia e do verso (dentre os oito) que contribuiu, chegando a brincar: “essa é uma das mais belas músicas que eu não fiz”.

E mais uma vez participei, ao lado de meu filho Ivo, do Bloco da Mata que Resta, onde ele mora, em Cotia; desta vez toquei violão em vez de percussão e convidei o velho parceiraço Wilson Rocha para animar ainda mais a festa tocando cavaquinho.

30 ANOS DE MIM A ESMO

Será que só eu percebo a frase "tudo está fazendo trinta anos" de Gabriel Garcia Marquez como sendo irônica? Para mim, em 2015 esse “tudo” significou 30 anos de minha primeira viagem de avião, primeira ida ao Rio de Janeiro, estréia em jornais (O Pasquim, Cruzeiro do Sul de Sorocaba), primeira canção gravada em disco (a “Os Metaleiros Também Amam” do Festival dos Festivais, parceria com Carlos Melo), estreia do programa Rádio Matraca e do lançamento de minha grande pesquisa sobre festivais de música (publicada no Cruzeiro do Sul). Muito bem, mas eu, não sendo de descansar sobre lauréís nem de querer voltar ao passado, preferi usar tempo e energia de comemorações para continuar produzindo. Melhor que lembrar os 30 anos do Rádio Matraca foi saber que ele se tornou, ao lado de O Samba Pede Passagem de Moisés da Rocha, campeão de audiência da USP FM (inclusive em 2015 tivemos pessoas convidadas ilustres como o músico Pedro Baldanza, o produtor Antonio Celso Barbieri, a cantora Claudya e a banda Cracker Blues). E melhor que lembrar os 30 anos do Língua no Festival dos Festivais é poder dizer que o grupo tem boas novidades para 2016 – e que em 2015 eu voltei a ser integrante do grupo como compositor. (Sim, mudanças na vida implicam também em retornos, e outro retorno meu de 2015 foi à equipe de crítica de música popular da APCA.)


(Na foto: o pessoal do programa Rádio Matraca - Mug, Laert Sarrumor e Alcione Sanna - ladeando as cantoras Claudya e Grazi Medori; vale lembrar que estas não são irmãs e sim mãe e filha.)

APLICANDO A TEORIA DOS CONJUNTOS

Não sou saudosista (inclusive tenho algumas canções anti-nostalgia, como “Você Se Lembra De Mim?” e a ainda inédita “Voltas E Voltas”), embora eu goste de guardar o bom do que eu vivi. Mas nada tenho contra tocar musica antiga de que eu goste, especialmente se não forem os chavões que todo mundo toca. Em 2015 fui convidado a integrar uma banda dedicada ao pop-rock dos anos 1950 ao comecinho dos 1990. A banda inclui dois amigos com quem já fiz música em outras décadas; um deles não sabia que era eu o “baixista chamado Ayrton” que o outro convidou.  Além de mim, a banda inclui Alvaro Telles (bateria), Newton Bardauil (guitarra), José Roberto Curitiba (teclados), sua esposa Lucimara Curitiba (vocal e percussão) e Fábio Ferre (vocal e guitarra), e aceitaram um nome que sugeri, The Vintages. Já fizemos alguns shows na casa Tonton Jazz e na Pizzaria ZioVito, aqui em Sampa; haverá muito mais, começando por outro no Tonton em 20 de fevereiro próximo.


(Na foto: Mug em ensaio da banda The Vintages)

Não sou saudosista, mas sou conjunteiro. Marcos Mamuth, guitarrista e eu companheiro de Caiubi, resolveu montar um trio de blues-rock, e convidou a mim e ao baterista Carlinhos Machado. No terceiro ensaio já estávamos prontos para encarar barzinhos, com clássicos menos  óbvios de blues e r&b e composições minhas e de Mamuth, uma ou outra inclusive parceria de ambos. E quem batizou o grupo foi Mamuth: Trio Sem Nome.



(Na foto: Mamuth, Machado e Mug no primeiro ensaio do Trio Sem Nome - sim, poderia ter sido Trio MMM.)

NO MAIS, MUITO MAIS...

Meu jingle para a loja Baratos Afins foi regravado por Pedro Ivo Salvador e Lillian Lessa, da banda alagoana Messias Elétrico (que inclui ex-integrantes do Mopho, homenageado por mim na canção “Metamophose” em 2000); confiram minha versão original de 1979, minha regravação de 1984 e a versão desta dupla das Alagoas

Revi pessoas como Clovis Ribeiro, da Rádio Butantã e colega de Caiubi; Próspero Albanese, ex e eterno vocalista do Joelho de Porco (que fez um belo show no Auditório Elis Regina, em São Bernardo, produzido pela nunca demais lembrada Nadja Bandeira, que desmente a letra de "Rio De Janeiro City"); a cantora e compositora Dhara Mammana, uma da fundadoras da Rede Solidária da Música Brasileira, uma das precursoras do Caiubi. Não esquecendo novas amizades como Mônica Ananias, Marlene Vieira, Giannis Zaharopoulos, Rhaéli Rocha Lopes e Tania Amaras.


(Na foto: Mug e Próspéro Albanese após o show deste no Elis Regina de SBC; a foto é de Bolivia & Catia, casal amigo nosso.)


(Na foto: Mug e Clóvis Ribeiro na Rádio Butantã)

Sem falar no trabalho como tradutor oficial (conhecido popularmente como "juramentado") português-inglês, para um tantão de documentos oficiais e outro de casamentos civis. Much fun indeed.


(In this picture: Mug at the São Miguel Paulista notary office.)

Speaking of English, que este ano seja realmente "sweet sixteen" para todos e todas. Sigamos em frente, pois 2016 promete mais - inclusive por ser bissexto. Como diz Tom Zé: "Dezesseis, ô, ô, dezesseis, ô, ô, dezesseis..."


(Na foto: Mug num dos saraus do Caiubi. Ah, sim: o chapéu foi presente da banda The Vintages e realmente ficou bem.)

Sunday, July 05, 2015

POSSO DAR UMA CANJA... COM UMA CANÇÃO MINHA EM MEU PRÓPRIO DISCO?

Vejam o que é sincronicidade... Justamente quando eu ia fazer a redação final deste texto, concluí a leitura de uma bela fonte para minhas pesquisas sobre MPB e circo e a relação entre religião & rock brasileiro: o livro Aquarelas Do Brasil, coletânea de contos e trechos de romances brasileiros que citam música popular, organizada por Flávio Moreira da Costa. A antologia inclui um conto do próprio FMC, e ele apresenta justificativa que apóio e complemento: o Brasil tem a ideologia da “falsa modéstia”, da “culpa” católica, da inveja fazer-sucesso-é-ofensa-pessoal; portanto, neste país uma pessoa citar a si mesma é “falta de ética”, “auto-referência” como ofensa ou “excesso de ego”, ao passo que nos EUA e Europa, como lembra FMC, a auto-inclusão em antologias é não só autorizada como também esperada – afinal, concluo, uma pessoa que divulga tantas outras tem direito a um pouco de auto-promoção... Isso serve como boa introdução para o tema deste texto: artistas que dão canja autoral em seus próprios discos-tributos ou temáticos, por vaidade, ganância, prazer ou até um pouco de cada, e dos quais este texto é apenas um ligeiro apanhado.

MÚSICA TUA, MAESTRO!

Por exemplo, o maestro e trombonista Ray Conniff variou um pouco a fórmula de seus álbuns dos anos 1960 e 1970, reunindo arranjos suaves para sucessos do momento, incluindo uma ou outra composição própria, e com o lembrete “Composta por Ray”, canções que, se não memoráveis, tampouco ofensivas.


Idem, no Brasil, o maestro e violonista Waltel Blanco, de quem tenho em mãos dois LPs “fantasmas” (lançados com crédito a orquestras e conjuntos “ad hoc” formados por ele e outro pessoal de estúdio) de fins dos anos 1960: Muito Legal - Linha Jovem, creditado a The Song Boys, e Direcional, pelo Conjunto Itam (“Itam” de Itamaraty, nome da gravadora); em cada um destes LPs  Waltel incluiu, ao lado de sucessos do momento, uma composição própria (e instrumental), respectivamente “Inédita” e “Dixie Da Gata”, garantindo assim alguns trocados de direitos autorais. 




(Esses LPs são tão raros e obscuros que já foi difícil conseguir essas reproduções quase virtuais das capas; tentarei obter e trazer melhores, podem me cobrar.)

Outro brasileiro que fez a mesma coisa, só que não como artista e sim como produtor, foi Raul Seixas, que produziu vários LPs da série Lafayette Apresenta Os Sucessos do tecladista Lafayette e, em meio a hits da ocasião, incluía em cada LP uma ou duas de suas composições (“Último Da Lista”, “Nasci Pra Te Amar”).


PEDRAS SOBRE PEDRAS

Obviamente, tal prática não é privilégio do Brasil... A música pop, como toda indústria cultural, exige e forma repertório; o que não falta são álbuns inteiros de artistas os mais diversos, de pop, rock, jazz, samba e até música erudita ligeira, interpretando canções de musicais como My Fair Lady e Hair! e de compositores de sucesso como,por exemplo, ninguém menos que os Rolling Stones, artistas cuja notoriedade inicial foi como intérpretes de outros artistas, como Chuck Berry e Willie Dixon, mas logo perceberam – instados pelo empresário e produtor Andrew Oldham – que a fonte de renda musical em médio e longo prazo era investirem em si mesmos como compositores; no início de 1966 eles já haviam se afirmado como tal, graças a sucessos como “Satisfaction”, “As Tears Go By”, “The Last Time” (embora “baseada” num clássico do gospel) e “19th Nervous Breakdown”. O próprio Oldham não perdeu tempo em lançar em 1966 o álbum The Rolling Stones Songbook, creditado à “Andrew Oldham Orchestra” (na verdade pessoal de estúdio com arranjos e direção musical de David Whittaker) e incluindo dez hits dos Stones, compostos por eles ou não, junto a... isso mesmo, um “Theme For A Rolling Stone” escrito pelo próprio Oldham (embora haja quem conteste dizendo que a autoria seja de Jagger & Richards).


Em 1966 houve ainda outro tributo-com-bônus aos Stones, e de quem menos se esperaria: Joe Pass, um dos melhores guitarristas de jazz, com o álbum The Stones Jazz. É forçoso reconhecer que as melodias dos Stones não eram tão ricas quanto as de Lennon & McCartney, quanto mais as de Gershwin, Porter, Berlin e quetais, mas Pass fez o que pôde – afinal, Dave Brubeck havia gravado um álbum de canções country transformadas em jazz, e em meados dos anos 1960, não obstante o sucesso da bossa nova e da força da natureza que era Louis Armstrong, o que mais vendia não era jazz e sim rock, pop e folk – , e o resultado é um álbum interessante e agradável de jazz-muzak, com direito a uma faixa que garante sua inclusão neste artigo: “Stone Jazz”, composição do próprio Pass.


DAQUI, DALI E DE TODA PARTE (CALMA, AINDA NÃO)

Indústria cultural que se preza é produtiva, e a referida dupla do produtor Andrew Oldham com o maestro David Whittaker não perdia tempo: em 1964 ela havia pegado carona nos dois mais famosos grupos estadunidenses de antes da Invasão Inglesa, os Beach Boys e os Four Seasons, lançando o álbum East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons (sim, os Four Seasons eram da Costa Leste e os BBS da Oeste), incluindo duas canções menos “hits” e menos “famous”, ambas parcerias de Oldham e Whittaker: “The Lonely Beach Boy” e “There Are But Four Seasons To Every Year”.


E matéria-prima de qualidade vem de toda parte, inclusive do Brasil. Voltando ao jazz, merece ser lembrado o álbum Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova, do cantor Jon Hendricks,lançado em 1961 e que, descontando os equívocos do título (para os EUA toda a América que não fosse os EUA e Canadá era “cucaracha” y bastava ya) e da capa (exemplo de machismo suave), é um bom tributo a João Gilberto – e um raríssimo exemplo onde a faixa “bônus-carona” tornou-se o maior sucesso do álbum: “Jive Samba”, parceria de Hendricks com o saxofonista Nat “Cannonball” Adderley.


YEAH, YEAH, YEAH (AGORA SIM, SIM, SIM)

Quem mais, além de mim, deixaria o mais óbvio para mais tarde? Isso mesmo, álbuns-tributo-com-carona aos Beatles. Lembro-me de alguns. Um é da dupla instrumental estadunidense Santo & Johnny, formada pelos irmãos Santo e Johnny Farina (e muitas vezes compondo em parceria com a mana Ann Farina), mais lembrada hoje em dia pela bela balada “Sleepwalk” (podemos citar também “Love Lost”, regravada pelos Clevers/Incríveis) e de muito sucesso na era pré-Invasão Inglesa. Quando esta começou, em 1964, a dupla passou recibo referente a ela com o LP The Beatles Greatest Hits Played By Santo & Johnny, que, ao lado de dez hits dos Fab Four, inclui duas canções do trio Farina, “The Beatle Blues” e “The Beatle Stomp”.


Outra dupla de canções-bônus-caronistas do mesmo ano de 1964 está no LP Dance To The Hits Of The Beatles do grande maestro e compositor Jack Nitzsche: “Ringo” (que o público mais velho ou “careta” não deve ter associado com o baterista dos Beatles e sim com Johnny Ringo, notório e legítimo cowboy-fora-da-lei do século 19; mal sabia Nitzsche que iria trabalhar com nosso Ringo, o Starr, no megahit “Photograph”) e “Beatle-Mania”. 


E se os Stones inspiraram um disco de jazz com bônus deste tipo, os Beatles têm pelo menos um, Beatlejazz!, lançado em 1964 pelo pianista Bob Hammer e incluindo entre vários sucessos do grupo a faixa-título, composta por Hammer em parceria com Bob Thiele.


Lembro-me agora de dois exemplos brasileiros – ou melhor, um e meio.

O, digamos, exemplo inteiro é o CD sem título da banda goiana Bitkids, lançado em 1996. Produzido por Renato Ladeira (sim,d’A Bolha e Herva Doce), este disco merece um estudo em separado por vários motivos. Um: o Bitkids era formado por guris nascidos na virada dos anos 1970 para 1980 e, salvo engano, é o primeiro tributo aos Beatles feito por crianças ou adolescentes em todo o mundo. Dois: o repertório é quase todo de versões em português feitas nos anos 1960, antes de Yoko Ono apertar o cerco e dificilmente liberar novas versões de canções de Lennon & McCartney; além de duas “bônus-carona”, temos versões recentes do repertório Beatle, mas de canções não de autoria do grupo e portanto fora da jurisdição de Yoko-san, como “Twist And Shout” (“Chegue Mais, Baby”) e “Please, Mr. Postman” (“Carteiro”). Três: o grupo teve vida curta, e de lá para cá um dos integrantes faleceu, outro seguiu carreira musical e, segundo algumas fontes, nem todos os Bitkids tocam no disco, substituídos por músicos de estúdio. A saga da banda pode ser decifrada em páginas como esta e mais esta.


O outro tributo-aos-Beatles-com-bônus de que me lembro agora é brasileiro-argentino e quase igualmente obscuro. Trata-se do LP duplo Tributo Aos Beatles, creditado a “The Beetles Group”. O álbum pode ser discutido também como “propaganda quase enganosa”: a capa não tem nenhuma foto deste “Beetles Group”, mas tem muitas e muitas fotos dos Beatles e as palavras “Tributo aos...” e “Interpreted by The Beetles Group” em tamanho pequeno o suficiente para serem despercebidas pelo público mais incauto e ao mesmo tempo grande o suficiente para dizermos “quem mandou não prestar atenção”.  Mais: o disco pega carona também na montagem brasileira do musical Beatlemania – só que este traz canções de toda a carreira dos Beatles, ao passo que o álbum duplo em questão só vai até 1965, embora a única faixa “bônus-carona”, “Forever Beatles”, soe ela mesma Beatles de 1966-69, incluindo citações de canções do grupo e até uma de Macca solo! O disco foi produzido por Billy Bond (que havia incluído citações de “Oh! Darling” e “She Loves You” em suas gravações como vocalista do Joelho de Porco), e este LP tem participações de Mauricio Birabent “Moris”, outro grande roqueiro argentino dos anos 1960 e 1970, e, segundo a página Senhor F, o saudoso Wander Taffo (que havia gravado com Bond no álbum de 1977 do Joelho).


E, para completar/complementar, temos algumas ilustrações sonoras: cada um dos álbuns comentados acima está representado por uma das faixas “bônus caronas” e uma faixa que, digamos, pagou ingresso (ou, pelo menos, ajudou a pagar as contas).

Andrew Oldham Orchestra
The Rolling Stones Songbook
Decca
Inglaterra, 1966
“Heart Of Stone” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Theme For A Rolling Stone” (Andrew Oldham)

Andrew Oldham Orchestra
East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons
London/Parrot
EUA, 1964
“I Get Around” (Brian Wilson)
“There Are But Four Seasons For Every Year” (Andrew Oldham/David Whittaker)

Beetles Group
Tributo Aos Beatles
Círculo do Livro/Abertura Records
Brasil, 1979
“Wait” (John Lennon/Paul McCartney)
“Forever Beatles” (Billy Bond/Anthony/Moris/Wanderley Patry)

Bitkids
Bitkids
Polydor
Brasil, 1996
“Chegue Mais, Baby” (“Twist And Shout”) (Bert Russell/Phil Medley/versão: Renato Ladeira)
“Noite Maluca” (Hilton Júnior/Ricardo Júnior))

Bob Hammer
Beatlejazz!
ABC
EUA, 1964
“When I Get Home” (John Lennon/Paul McCartney)
“Beatlejazz” (Bob Hammer/BobThiele)

Conjunto Itam (com Waltel Blanco)
Direcional
Itamaraty
Brasil, c. 1968
“A Chuva Que Cai” (“È La Pioggia Che Va”) (“Remember The Rain”) (Bob Lind/versão em italiano: Mogol/versão em português: Antônio Marcos – o selo do LP diz “A. Marco”)
“Dixie Da Gata” (Waltel Blanco)

Jack Nitzsche
Dance To The Hits Of The Beatles
Reprise
EUA, 1964
“It Won’t Be Long” (John Lennon/Paul McCartney)
“Ringo” (Jack Nitzsche)

Joe Pass
The Stones Jazz
Pacific Jazz
EUA, 1966
“19th Nervous Breakdown” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Stone Jazz” (Joe Pass)

Jon Hendricks
!Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova
Reprise
EUA, 1961
“The Duck” (“O Pato”) (Jayme Silva/Neuza Teixeira/versão em inglês: Jon Hendricks)
“Jive Samba” (Jon Hendricks/Nat “Cannonball” Adderley)

Lafayette
Lafayette Apresenta Os Sucessos, Volume 10
CBS/Entré
Brasil, 1970
“Sweet September” (Joey Day/Alan Dischel)
“Nasci Pra Te Amar” (Raulzito)

Ray Conniff
Bridge Over Troubled Waters
Columbia
EUA, 1970
“Leaving On A Jet Plane” (John Denver)
“Someone” (Ray Conniff)

Santo & Johnny
The Beatles Greatest Hits Played By Santo And Johnny
Canadian-American
EUA, 1964
“And I Love Her” (John Lennon/Paul McCartney)
“The Beatle Stomp” (Santo Farina/Johnny Farina/Ann Farina)

Song Boys (com Waltel Blanco)
Muito Legal – Linha Jovem
Spot
Brasil, c. 1968
“Because Of You” (Arthur Hammerstein/Dudley Wilkinson)
“Inédita” (Waltel Blanco)


Confira aqui!