Sunday, March 29, 2015

Ê, TREM BÃO, PONTUAL E SEM PARAR HÁ 50 ANOS

Estão se completando 50 anos do grande sucesso do samba "Trem Das Onze", não só a vencedora do carnaval carioca de 1956, mas também uma das canções brasileiras mais conhecidas em todo o mundo. Aqui vai um "estudo" que produzi para o programa Rádio Matraca sobre este samba.
Adoniran compôs “Trem das Onze” em 1961, mas originalmente o samba era muito longo e Adoniran, que tocava apenas algumas notas no violão e flautim, demorou para conseguir ensiná-lo aos Demônios, e isso causava briga em todos os ensaios do grupo. Os Demônios tiveram de fazer um belo trabalho de copidesque e edição no samba, que ficou pronto em 1964. O disco com “Trem das Onze” foi lançado em agosto e fez tanto sucesso que conseguiu duas grandes façanhas. Uma foi ser a composição mais cantada no Rio de Janeiro, justamente no carnaval de Quarto Centenário da cidade, em 1965. A outra foi se tornar uma das composições brasileiras de maior sucesso no exterior, a partir de uma versão em italiano; inclusive, “Trem das Onze” foi uma das cem canções de maior êxito na Itália nos anos de 1960. Muitos cariocas não se conformaram com o sucesso de “Trem Das Onze”, uma canção paulista até a medula. Houve quem comentasse: “Imagine se carioca, quando está com mulher, vai ligar para horário de trem e mãe esperando em casa.” O grande Stanislaw Ponte Preta, apesar de carioca, não se rendeu ao bairrismo de Vinicius de Moraes e outros, inclusive contestando-o (“São Paulo pode ser o túmulo do carnaval, sim, mas do samba não”), e defendeu entusiasticamente a paulistaníssima “Trem das Onze”. Tanto defendeu que acabou plagiando-a sem querer em sua composição “Samba Do Crioulo Doido”, nesse trecho que acabamos de ouvir. Este samba de Stanislaw foi lançado em 1968 pelo Quarteto em Cy e fez grande sucesso. Ao ser lembrado de que cometera um plágio acidental, Stanislaw não se apertou e disse: "A minha música não fala em trem? Fiz de propósito, pra lembrar mesmo."
Na Itália, onde os trens eram muito mais pontuais que no Brasil, a ênfase da letra de “Trem Das Onze” foi transferida para o amor filial, e a versão chamou-se “Figlio Unico”, composta e gravada em 1966 por Riccardo Del Turco, na mesma levada de sambas à italiana como “Meglio Stasera” e “Quando Quando Quando”.


Uma prova do sucesso mundial de "Figlio Unico" está neste anúncio da Billboard de 7 de janeiro de 1967 (leiam a última, mas não menos importante, linha).



“Figlio Unico”, a versão italiana de “Trem Das Onze”, fez tanto sucesso que não demorou ela mesma a inspirar outras versões. Estamos ouvindo uma versão com o grupo belgradiano 4M, gravada em 1967 e com o título “Jedinac Sin”, que significa “Filho Único” em iugoslavo. Detalhe: no selo do disco dos 4M aparece apenas o nome de Riccardo Del Turco, não o de Adoniran.
E o cantor espanhol Erasmo Mochi gravou uma versão em espanhol, "Hijo Único", também em 1967. O próprio Adoniran execrou esta versão, dizendo “Rrrrrruim! Como ele canta mal, e ainda diz ‘vivo em Maringá’!”

Vinte anos depois, o cantor hebraico Matti Caspi gravou um álbum só de canções brasileiras em hebraico, Crazy Pais Tropical, lançado em 1987, e incluindo uma versão de "Trem Das Onze" bem fiel à original, nada de Maringá. O título é “Afilu Daka”, ou seja, “nem mais um minuto”, e a letra diz “nem mesmo mais um minuto posso ficar, já é tarde, não fiques brava comigo, tenho de pegar o último trem desta noite, exatamente às 11 horas, e minha mãe não dorme sem mim”. Realmente, uma versão em hebraico teria de falar em mãe...


Em 1994 a grande dupla gaúcha de humor musical Klaunus & Pletskaia cantou "The Eleven’s Train", uma versão de “Trem das Onze” em inglês macarrônico. E em 2001 foi lançado na Itália o CD Buena Vista Social Ska, com versões em ska de grandes sucessos da música pop italiana. Um deles é justamente “Figlio Unico”, ou seja, “Trem das Onze” em italiano. E esta versão em ska é interpretada pelo grupo Arpioni e cantada no feminino, ou seja, “Figlia Unica”, por uma mulher, Begoña Bang-Matu.
Como toda canção de grande sucesso, “Trem das Onze” inspirou muitas imitações, continuações e paródias. Uma das primeiras foi “Desculpe, Mãe”, composição de Enock Figueiredo, com um grupo chamado Anjos do Sol; até o nome tem alguma semelhança com Demônios da Garoa. E os Quatro Azes e Um Coringa foram um dos grandes grupos vocais brasileiros e um dos mais imitados pelos próprios Demônios. Com o sucesso de “Trem Das Onze”, os Quatro Azes não resistiram a imitar seus imitadores, embora com sutileza, em "Reza Por Mim", composição de Roberto Faissal.
A demolição da estação Jaçanã de trem, para construção da avenida Radial Norte e modernização da Zona Norte de São Paulo, começou a ser planejada em 1964 e foi efetivada em 1966. Começaram a surgir as primeiras composições a aproveitarem o sucesso de “Trem Das Onze” pelo lado nostálgico. A pioneira foi “Adeus, Cantareira”, de Frederico Rossi, lançada pelos Demônios em 1965. Outra das muitas imitações/continuações de “Trem Das Onze” é “Penha-Lapa”, gravada pelos Azes da Melodia em 1965. A composição é de Doca e Ivan Pires, que também chegou a ser integrante dos Demônios da Garoa. Curioso é que o título do samba está creditado no selo do compacto como “Penha-Lapa”, mas o grupo canta “Lapa-Penha”.
Tom Zé, o tropicalista não-paulistano que mais afinidade tem com São Paulo, homenageou Adoniran em várias de suas canções, e uma delas é esta, “A Volta Do Trem Das Onze”, lançado em 2005. E este que vos escreve compôs e gravou em 2000 “O Trem Das 10 (Podia Ser De Qualquer Hora)”, sobre o atraso costumeiro dos trens paulistanos até então (se bem que de lá para cá a situação tem melhorado um pouco).
E quase tudo isso pode ser conferido aqui, dirijam-se para o atalho de embarque e boa viagem!

Friday, February 27, 2015

"ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS..."

Sim, hoje faz exatamente uma década que inaugurei este espaço com toda a pujança e idealismo de um jovem de 47 anos. Mesmo que eu nem sempre tenha comparecido com a assiduidade que eu gostaria, espero ter ajudado a difundir música e cultura - como pretendo continuar fazendo,  com toda a pujança e idealismo de um jovem de 57 anos.

E numa coincidência daquelas que se programadas não dariam certo, ainda ontem uma pessoa amiga e companheira de "mutantologia", Marcus Queiroz, escreveu em seu blog um belo texto a meu respeito:

Ode A Big Mug.

Como Ayrton Mugnaini Jr. consegue por sua cabeça no travesseiro e dormir, sabendo que ele é apenas Ayrton Mugnaini Jr.?

Mal sei, mal sei. Insisto nesta questão até o fim deste relato mal detalhado e sem informações concretas, pois, como pode ser um homem tão versátil, íntegro, sucinto e carregado de um humor ácido e inteligente - cujas pessoas o talvez julguem por meio de ser incoerente, entrão ou qualquer outro adjetivo de mal logradouro. A maioria dos gênios são incompreendidos e/ou subestimados, coisa que acontece também com este homenageado.

Estas pessoas - pobres pessoas, mal conhecem o Professor (Sim, ele também é professor).

Ayrton é uma pessoa única, como qualquer outra pessoa que gosta de música no mundo, que acorda cedo e dorme tarde como qualquer outra pessoa no mundo e que é feliz, como qualquer outra pessoa no mundo. Eu desde cedo conheço ele, sem ter ligado nome a pessoa. Tenho uma biografia do Raul Seixas, herdada do meu pai, que contém seu nome, e quando ouvi pela primeira vez Língua de Trapo aos meus 14 anos, não imaginava sequer que o nome de Ayrton estava envolvido ali, as revistas com matérias épicas e detalhadas de bandas incríveis, resenhas, e links para shows piratas, e gemas "perdidas" de músicas e músicos, teriam seu toque em letras e blogs, e afins. Pensando bem, até você, amigo(a) leitor(a) já deve ter cruzado o caminho do meu amigo Ayrton, mas não deve ter tido noção de que ele era realmente ele.

Além de tudo isso, um bom compositor, letrista, musicista, pesquisador, autor de bons livros, radialista e ainda tem ótimos discos na jogada. Afinal, Como Ayrton consegue por a cabeça no travesseiro sabendo que ele é ele? Como ele se sente sabendo que é tão importante e vital para um pedaço histórico da música, e quiçá de toda uma geração? Seus dados, suas fontes, sua histórias, e todo o resto só podem ser cada vez mais relevantes para quem pesquisa, ou apenas quer conhecer mais e mais sobre o universo.

Dado a última vez que vi Ayrton, pude perceber outra de suas qualidades: Ele simplesmente andou da Móoca até  Belém, para poder me encontrar no Tatuapé(!). Um presente que recebi também foi ter seu autógrafo no meu LP recém-adquirido desta figuraça. E assim sendo Ayrton Mugnaini Jr. me mostrou toda a sua humildade, paciência, amizade e carisma (apesar de encharcado pela chuva de ontem).

Talvez este texto acima seja apenas para dar valor para quem é necessário, antes que seja tarde, ou para que não passe em branco. Afinal, pessoas boas existem, e Ayrton faz parte desse seleto time, com todo louvor.

Sim, ficou bonito. Coisas assim fazem os anos valerem a pena. E o texto pode ser lido também no blog do próprio Marcus Queiroz, digno, por sinal, de ser lido inteiro.

Sunday, February 08, 2015

METENDO O NARIZ PRA TENTAR FAZER SHOW NO CENTRO GUTURAL

Se quem tem boca vai a Roma, quem tem nariz pode ir até mais longe. Assim me faz pensar o grande sucesso de cantores e cantoras cujo timbre vocal é eminentemente anasalado. E este breve “estudo” sobre o assunto que estás começando a ler (e espero que termines) nasceu de conversas minhas sobre o assunto com três amigas cantoras: Vera Mendes, Tereza Miguel e Nadja Bandeira.

A idéia de escrever este texto veio de uma imprecação de Nadja sobre sua pouca simpatia por determinado cantor quase-carnívoro que “pra piorar é fanho”. Lembrei então a ela que isso não era tanto problema, “Jorge Veiga era mais fanho ainda, e Chico Buarque é hors-concours”; ela concordou e lembrou um terceiro de que também sou admirador, Miltinho. A esta conversa juntei informações que me apareceram em outras pesquisas, como o saudoso jornalista e produtor Walter Silva descrevendo na Folha de S. Paulo a então novata Maria Alcina como “uma Maria Bethânia resfriada” e a famosa queixa de um paulista ao ouvir “Chega De Saudade” com João Gilberto: “Por quê gravam cantores resfriados?”

Realmente, essa pergunta puxa outra: por quê tanta gente canta “pelo nariz”? Talvez seja porque dá menos trabalho que emitir a voz corretamente pela boca, ou porque certos idiomas, como o português, o inglês e o francês, têm muitos sons nasais. Comparem, por exemplo, com o idioma italiano, onde falta o fonema “ão”, forçando Gianni Morandi a cantar “brasiliano ‘Joáo’ Gilberto” em seu sucesso “Che Ne Me Faccio Del Latino”. (Mas a relativa ausência de fonemas nasais no idioma italiano não impediu o sucesso do “cantautore” moderno Eros Ramazzotti, com timbre anasalado de fazer honra aos citados Jorge Veiga e Miltinho.)

Certamente, emissão nasal é sinônimo de informalidade, amadorismo, o que pode ser até um charme – a chamada “Invasão Britânica” dos anos 1960 foi um triunfo não só hormonal como adenoidal; cantores que cantavam “pela boca”, como Mick Jagger e Paul McCartney, foram (ou pelo menos podem soar como se tivessem sido) minoria perto de John Lennon, Peter Noone, Keith Richards, Peter Townshend, os Bee Gees e Ray Davies. Por sinal, em 1982 o líder dos Kinks deu uma explicação técnica interessante sobre o assunto para a revista Modern Recording & Music: “Usamos muitos microfones Neumann. Tenho um monte de microfones valvulados que comprei da BBC, mas eles vivem explodindo. Eu os uso para os vocais. Minha voz é muito difícil de ser gravada porque tenho uma qualidade nasal. Daí que eu uso um microfone valvulado e um Sennheiser para captar ambas as qualidades, e mixo ambas num canal.”

Falamos de Brasil, da Itália, de britânicos, e não esqueceremos dos EUA. Muitos e muitas de vocês devem ter se lembrado de – quem mais? – Bob Dylan. Mas o país já tinha reputação de voz anasalada desde bem antes, como atesta aquela piada sobre George Washington.  Numa excursão de turismo nos EUA, diante de um retrato de Washington, o guia turístico diz "Dos lábios desse homem jamais saiu uma mentira!" e alguém comenta: "Devia falar pelo nariz, como todo estadunidense." Além de Dylan, podemos lembrar também os grandes cantores country Hank Williams e Willie Nelson, Mike Love dos Beach Boys, “cantautori” como Carole King e James Taylor e, mais para o rock pesado, Axl Rose e Jimi Hendrix – que, como sabemos, começou a cantar motivado pelo sucesso de Bob Dylan, “se ele pode fazer tanto sucesso cantando tão fora do tom, eu também posso”.

Hendrix foi bem definindo por minha mãe como “imitador do personagem Cuém-Cuém de Chico Anysio”. O que nos traz de volta ao Brasil e faz lembrar Juca Chaves (inclusive grande muso de si mesmo com seu "Nasal Sensual"), o emérito Jair Rodrigues e Belchior, que, como Hendrix, tem timbre nasal mais grave e que, para a citada Vera Mendes, que além de cantora é fonoaudióloga, tem timbre mais gutural – ou seja, forçando a garganta – que propriamente anasalado; tal observação pode valer também para a citada Bethânia e Nana Caymmi. Mas ninguém contesta a sonoridade nasal de duas pessoas profissionais da comunicação que ora lembrarei, a apresentadora de televisão Marília Gabriela, que também gravou como cantora, e o jornalista e radialista Leopoldo Rey, meu colega na FM 97 quando a emissora era de rock e que era o primeiro a se divertir quando nosso grande amigo Sidnei Lopes, um dos melhore imitadores que já conheci, desandava a imitar o que o próprio Leopoldo resumia como “eu e minha voz de gripe”. “É brincadeira?!” Por falar em brincadeira,quem quiser imaginar como Wilson Simonal – um dos melhores cantores brasileiros de todos os tempos soaria se pegasse um forte resfriado ou resolvesse imitar Jorge Veiga pode conferir este vídeo de Simoninha

E para este texto lembrei-me também de uma canção que compus de brincadeira em parceria com Tereza Miguel, ela a iniciou e eu a desenvolvi junto com ela; Tereza diz que sua principal inspiração foi uma cantora que não esqueceríamos de mencionar, Sandy Lima – sim, a filha de Xororó. A gravação está aqui e a letra segue abaixo. E termino este estudo desejando a todas e todas um feliz nasal!

CANTOR(A) SEM BOCA
Tereza Miguel
Ayrton Mugnaini Jr.

Eu sou um cantor sem boca
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz


Esta singela canção 

Sim, fui eu mesmo que fiz 

É minha contestação 

Mais fanhoso é quem me diz


Eu sou um cantor sem boca 
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz


Este meu canto é chinfrim
Mas é minha força motriz
Sei que quem gosta de mim
Também escuta pelo nariz

Eu sou um cantor sem boca
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz

Desculpe meu canto fraco
Não nasci assim porque eu quis
Não gosta, não enche o saco
Vai ouvir disco da Elis!

UM ASSUNTO BASTANTE DATADO

Tenho recebido, ouvido e espiado muitos e muitos discos brasileiros independentes, e de tudo: samba, choro, música erudita, caipira/sertanejo, forró, pop, brega, roquinho, rocão e aquela MPB que pode ser um pouco de tudo isso... enfim, de tudo. Mas percebi em quase todos um detalhe que me chamou a atenção e me pareceu digno de reparo – mas que provavelmente ninguém além de mim repara, comenta e muito menos reprova.

Isso mesmo, quase nenhum deles traz a data de lançamento, com ou sem aquele famoso “” (sim, de “publicado” ou “phonogram”/”phonorecord”) e/ou © (de “copyright”) antes dela.

Imagino que muitas das pessoas artistas destes discos serão dignas de discografias no futuro (algumas até já o são). Imaginem vocês agora a trabalheira que terão pessoas pesquisadoras chatas como eu para descobrirem uma informação que deveria estar no próprio disco... Um bom exemplo é o belo disco Os Mestres Mulatos da orquestra Sinfonieta dos Devotos de Nossa Senhora dos Prazeres, dedicada a resgatar os primórdios da música brasileira; o encarte do CD é detalhadíssimo, mas não informa datas de gravação ou lançamento; vasculhei o Google e descobri até que a Sinfonieta tem uma página, muito bem feita mas que esquece de registrar tal informação sobre esse e seus outros discos; tenho a sorte de conhecer pessoas parentes de integrantes da Sinfonieta, que me encaminharam ao próprio regente do disco, Marcelo Antunes Martins, que gentilmente me informou: o CD foi gravado e lançado em 2007. Espero estar dando alguma ajuda em pesquisas futuras sobre este belo trabalho da Sinfonieta, inclusive a quem tiver o prazer de descobri-lo daqui a décadas ou mesmo séculos...

Estou ciente de que em muitos casos a data de lançamento é omitida para que o disco pareça “sempre novo”... Eu soube de gravadoras que omitem tal informação por ceder a queixas de lojistas que dizem que “disco velho encalha”. Sei também de artistas que, embora independentes, sonham em um dia deixar de ser, e relançam o mesmo disco por vários selos, pois “não é interessante” divulgar que se trata de relançamento – típica falsa esperteza, pois sempre tem alguma pessoa chata para descobrir que “ah, esse disco é velho e estão querendo fazer passar por novo”. Sei que muita gente só se interessa pelo que estiver em primeiro lugar nas paradas, mas sempre digo que “velho não é antigo” e “nunca é tarde para discos independentes”. Tudo é novidade para quem acaba de descobrir (como, por exemplo, Noel Rosa, novo para mim em 1970; Robert Johnson, novo para Eric Clapton nos idos de 1964; ou Beethoven, novo para quem começa a respirar), e o que importa é a qualidade. Óbvio? Justamente por ser óbvio, pouca gente percebe... E muita gente que “esconde” tal informação nos discos que manda prensar não deve gostar muito de ser obrigada a creditar neles seu nome completo e o número de seu CPF para quem quiser ver...

E creditar datas de lançamento de discos tornou-se costume tão raro que a maioria das fontes de tipos de letras nem inclui o símbolo ”, que precisei copiar e colar da internet... Por sinal, a frase “disco é cultura” também sumiu dos CDs independentes, mas esta omissão ainda tem a desculpa de a frase ter sido criada na época da ditadura militar e de servir para isentar as gravadoras de imposto de renda por produtos culturais, e disco independente já nasce fora da grande indústria e portanto é pressuposto como cultural...

Não sei se a omissão de datas de lançamento em CDs brasileiros é uma “lei não-escrita” como o limite de 14 faixas, cavalo de batalha de artistas como Ney Matogrosso e o saudoso Johnny Alf e em que insistirei até que ele deixe totalmente de existir... Enfim, é essa minha suave bronca-sugestão: ao lado de créditos como “Fulana usa guitarra marca tal”, “cafezinho servido por Sicrano” e “agradeço a meu cachorro por latir tão bem”, aumentem ainda mais o charme de suas obras informando o ano de lançamento, ou pelo menos créditos como “gravado no outono ou primavera do ano tal” (discos europeus adoram isso). A tão mencionada e lamentada Memória da Música Popular agradece por isso também!

Sunday, January 11, 2015

BARATOS QUE DERAM JINGLE QUE DÁ BARATOS

Boa a inciativa da loja Baratos Afins de colocar no Youtube - e num belo toca-discos - um vídeo (clique aqui para ver) do "jingle-punk" que fiz para ela (espontaneamente, não a seu pedido) em 1979.


Trata-se de um compacto de acetato em 45 RPM, e o outro lado foi outro "jingle-punk", para outra loja de discos novos e usados, a Woodstock. Este foi meu primeiro lançamento totalmente paulistano, na concepção, ambiente (composto e gravado quando voltei a morar em São Paulo, em 1979, após dez anos morando em Sorocaba) e temática: dois sebos da cidade. E parece que estes "jingles-punk" deram sorte, pois estas lojas são duas das pouquíssimas a sobreviverem desde os anos 1970 até hoje... A tiragem foi de nada menos que duas cópias, e Luiz Calanca digitalizou a dele; neste vídeo foi incluído o encarte original. 

Este compacto teve meu último resquício de sorocabismo: compus e gravei as duas faixas já morando em Sampa, mas até o fim de 1979 ainda fiz algumas viagens a Sorocaba, uma delas para gravar estes acetatos, na firma N. N. Publicidade, onde ficavam o primeiro estúdio de gravação e primeira máquina de corte de acetato que vi na vida. Gravei as faixas em estéreo bem primitivo (eu usava dois gravadores cassete, um mono e um estéreo), mas a N. N. só cortava acetatos em mono; tenho ainda as matrizes, e para meu primeiro "LP" - ou seja, lançamento com mais de duas cópias - , a fita cassete Brega's Banquet, em 1984, aproveitei "Woodstock" (que pode ser ouvida aqui) mas regravei "Baratos Afins" (esta nova gravação pode ser conferida aqui). 

E este compacto foi meu segundo nessa linha; em 1978 eu, ainda morando em Sorocaba mas tentando cursar Engenharia em São Paulo no Mackenzie, fiz, ainda como integrante da banda Trânsito Maluco de Marte (uma longa história que ainda contarei aqui), também sobre dois sebos paulistanos (o Wop-Bop e o Grilo Falante) e do qual também foram feitas apenas duas cópias, uma em meu poder e a outra com Marco Zappa, também integrante do TMM.

Tuesday, January 06, 2015

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA PESSOAL 2014

Realmente, uma boa hora para se iniciar uma retrospectiva de 2014 é o anoitecer do primeiro dia de 2015, bem longe daquela pressa de sair publicando retrospectiva quando novembro mal ou nem acabou. E precisei de cinco dias para escrever, pois 2014 foi um ano bom e produtivo, geralmente fazendo jus aos votos de “feliz ano novo” que ouvimos. Vejamos:

RETRATO DO ARTISTA QUANDO VELHO

Em dezembro de 1984, durante meu afastamento do Língua de Trapo, lancei oficialmente minha carreira-solo, com a fita cassete Brega’s Banquet; o quase-sucesso veio em 1985-6, com mais fitas (Brega Segundo Brega, Sexo, Leite & Brega; O Melhor Que Péssimo De Ayrton Mugnaini Jr.) e composições minhas em shows e/ou discos do Língua, O Espírito Da Coisa, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui e outros. Desde então faço ocasionais shows-solo, preferencialmente com banda, e agora em 2014 fiz dois, um no sarau Sopa de Letrinhas em agosto (aqui vai uma breve amostra em vídeoe outro no Boa Breja (belo restaurante-bar-espaço-para-música-ao-vivo na Mooca, vale conhecer) em dezembro. Como se diz, só quem sabe obedecer aprende a comandar, e após anos como “sideman” mereço ter momentos como “band-leader” além de músico e arranjador. Em 2015 tem mais.


Meus primeiros shows solo com banda foram lá em 1992, e a formação incluiu Kim Kehl na guitarra, Jovaldo Guimarães ao saxofone e, à bateria, Serginho Gambale e, mais tarde, Vande Mano. A formação atual inclui Marcos Mamuth na guitarra e Laércio Muniz na bateria (também integrante da ARBanda). E novamente agi como o Sócrates filósofo “corruptor da juventude”: Mamuth, assim como Kehl, chegou, graças a mim, a ir além do rock e blues onde se notabilizou e tocar também samba, xote, valsa e outros ritmos e gêneros de que nem imaginava ser capaz...

A VIDA SÃO VÁRIAS CANÇÕES CURTAS (pedindo licença a Ian Anderson)

De mim Chrissie Hynde não poderia reclamar em 2014. Para quem não entendeu: um diz Jim Kerr perguntou a ela “o quê tu compuseste hoje?” e ela, pega de surpresa, respondeu “eu nada, por quê?” e ele esclareceu “É que vi no teu passaporte ‘profissão: compositora’...” Pois bem, eu, compositor de carteirinha da AMAR e membro da diretoria do Caiubi, compus perto de 60 canções este ano, a maioria delas lançada na internet, em minha página do Caiubi ou pelo Soundcloud, e algumas aparecerão em discos meus ou de outros artistas, inclusive os próximos lançamentos de Vera Mendes e Soul Demetrio.

Quase famoso como compositor satírico, arrisquei-me um pouco a canções mais sérias; passei a virada de ano gravando uma toada em homenagem à grande Inezita Barroso, além de lançar em canjas e saraus um samba-choro bem bonitinho e objetivo sobre, vejam só , "Hidratação", com a grande amiga e parceira Vera Mendes. Também musiquei uma letra de Guca "Um Dos Criadores Do Língua De Trapo" Domenico, "São Paulo Que Não Acaba Mais". Mas não perdi o bom humor desgarrado pelo que sou quase famoso, como atestam cançonetas como "A Flautista Estudante" e "Tintureiro Apaixonado".

E minha amiga Fabiana Viana até se diverte ao contar que tem 5 mil almas amigas no Facebook mas, tendo concorrido a deputada federal, conseguiu apenas cerca de 1300 votos. Quero crer que alguns se devam a um jingle que fiz para ela... 

"LIVROS ÀS MANCHEIAS" (INCLUINDO NOVA DUPLA DE ESCRITORES PAI E FILHO)

Como escritor, participei do livro 1973, O Ano Que Reinventou A MPB, lançado no início de 2014 e que teve eventos por todo o Brasil, inclusive na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em Sampa, com várias outras pessoas participantes do livro, radicadas ou não em Sampa, como Emilio Pacheco, Marcelo Fróes, Mona Gadelha e Tavito.


E em 2014 realizei uma ambição de décadas, graças a Deus e à editora Nova Alexandria: meu primeiro livro sobre nosso rock, intitulado justamente Breve História Do Rock Brasileiro e mais uma façanha relacionada ao Arquivo do Rock Brasileiro, projeto multimeios do qual sou o curador. Em 2014 saíram muitos outros livros sobre o assunto, mas o meu foi um dos poucos a focarem nas origens do gênero, inclusive quando “o rock ainda não era rock”, ou seja, já existia, pelo menos em forma prototípica, antes de receber esse nome – lá eu conto que até Carmen Miranda gravou um proto-rock, e quem não concordar ou tiver curiosidade pode tirar a cisma aqui. Um dos eventos de divulgação do livro foi uma participação (que pode ser conferida aqui) no programa Em Cartaz, da TV Aberta, onde aproveitei para acompanhar ao violão o apresentador Atílio Bari – o segundo apresentador de televisão que transformei em cantor, tendo o primeiro sido Heródoto Barbeiro, a quem acompanhei no cavaquinho quando ele me entrevistou sobre Adoniran Barbosa há alguns anos.

Meu filho Ivo, também grande fã de leitura, tem me acompanhado em todas as Bienais do Livro desde os oito anos de idade. E até a Bienal do ano passado ele não pagava ingresso devido à idade; desta vez ele não pagou por ter se tornado escritor! É que nesse meio tempo a escola em que ele estudava fez um acordo com Ziraldo e ele liberou alguns de seus desenhos para as crianças inventarem histórias baseadas neles, daí cada criança ganhava um livro da história que criou, embora exemplar único. De modo que Ivo pode dizer que se tornou escritor publicado antes de mim, eu comecei aos 35 anos e ele aos dez... (E Mug pai e filho estivemos também ao evento anual Anime Friends, como em todos os anos.)


Continuei pesquisando e garimpando música popular; projetos meus em andamento incluem livros sobre música brasileira e circo, rock brasileiro e religião e rock brasileiro gravado por artistas não do rock até 1965; um de meus achados foi este LP do saudoso roqueiro capixaba Aprigio Lyrio. 


E aqui vai uma imagem de quando dois fãs da música dos Rolling Stones se encontram, no caso Ayrton "Richards" (apelido de quando voltei a morar em Sampa em 1978) e Mauricio "Watts", numa das lojas da rede do famoso Manoel Jorge Dias (aquele que só perde para Zero Freitas em quantidade de LPs amealhados).


O PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL

Em 2014 tive a honra de tocar pela primeira vez com pessoas que admiro há tempos, como Fábio Stella, Gereba, Gerson Conrad e Pedro Lua, acompanhando os três primeiros ao contrabaixo e o quarto ao cajón – por sinal, a primeira vez em que toquei tal instrumento num show inteiro. Igualmente histórica (ao menos para mim, claro) foi minha canja numa jam comandada por Kim Kehl, em que dividi a cena com Luiz Domingues – sim, o “ex-Tigueis” de grupos como Língua de Trapo e Chave do Sol; eu e Domingues fizemos parte do Língua em momentos diferentes e fomos nos reunir num palco agora, nesta jam que citei no espaço Magnólia; aí está uma pose, sei que o evento foi filmado e quero rever!


Os outros encontros que acima mencionei deram-se no velho e bom Julinho Clube (passe lá: Rua Mourato Coelho, 585, meio Pinheiros, meio Vila Madalena), onde sempre estou com o Clube Caiubi de Compositores, nos saraus de segunda-feira e no evento bimestral Sopa de Letrinhas, e onde tive também o prazer de tocar com o próprio Julinho Camargo (proprietário do Julinho Clube), o guitarrista Palhinha Cruz do Vale e os bateristas Paulinho Andrade e Véio Drumis, além das pessoas companheiras de sempre, incluindo Aika Shimada, Alvaro Cueva, Bia Clamente, Bráu Mendonça, Célia Demezio, Cris Gambale, Di Melo, Ibis Maceioh, Kana de Brasil, Márcio Policastro, Marcos Mamuth, Nando Távora, Ozi Stafuzza,  Raquel Martins,  Renata Pizi, Sonekka, Suzzy Mellody. Tato Fischer e Vlado Lima. Sem falar na “invasão caiubista” no clube literário Hussardos, quando o letrista e meu parceiro Léo Nogueira lançou seu primeiro romance, Filho Da Preta, e convidou a caiubada para a parte musical; lá fomos eu e uma turma que incluiu boa parte das pessoas citadas acima e Adolar Marin, Daniel & Lu, Elio Camalle (radicado na França e de passagem pelo Brasil), Fernando Cavalieri e Kleber Albuquerque.

Tive também o prazer de tocar em outros locais além do Caiubi e eventos parentes ou amigos como o Sarau da Maria (realizado no bairro de Vila Maria) e O Autor na Praça. Além de tocar pela primeira vez neste milênio com o velho amigo, irmão e parceiro Kim Kehl, na jam de blues que citei acima, foi igualmente bom voltar a gravar com o velho e bom Trinkão, no novo disco do amigo Demetrio, a sair em 2015. Outra pessoa amiga, irmã e parceira que reapareceu foi a cantora e multi-instrumentista Edria Barbieri, com quem participei de um show do projeto O Autor Na Praça em homenagem a Elis Regina – Edria me confiou a missão de conseguir uma aproximação da linha de baixo de Luizão Maia em “Conversando No Bar”, e consegui.


Outro belo reencontro foi com a amiga e cantora Graziela Sanchez e seu mano Rodrigo num sarau de samba e choro semanal num bar na esquina da Fortunato com a Frederico Abranches, perto do Largo de Santa Cecília.

Além do cajón, mostrei minha veia de percussionista em minha primeira participação no Bloco Da Mata Que Resta, bloco carnavalesco de rua que se reúne todos os anos em Cotia; participei junto com meu filho e a mãe dele, que moram na região. Nesta foto não estou muito difícil de se ver, com direito a coroa de rei providenciada por meu filho - que aparece mais para o meio da foto, de roupa preta, com a mãe, de camiseta branca. (Uma opinião interessante e abalizada sobre esta foto veio da amiga e colega do Caiubi Hilda Borges, emérita percussionista de maracatu: "Sua intimidade com a caixa é 'amazing', 'astonishing'!"



Participei também de eventos promovidos pelo Centro de Memória do Circo, onde, ao violão, toquei pela primeira vez com a acordeonista Lívia Mattos, o cantor de boleros argentino radicado no Brasil Turibio Fortes (!muy bueno!) e, vejam só, a coordenadora de tais eventos, Verônica Tamaoki, que cantou um pedacinho de “O Circo” de Sidney Miller (“vai, vai, vai começar a brincadeira”) e mostrou muito potencial como cantora.


Outra honra foi participar de um evento promovido pela Associação Comercial de São Paulo, a convite de André Furkin e da já quase famosa Vera Mendes, a quem acompanhei; um instante desse momento está na foto abaixo. Nesse mesmo evento dei uma canja com a cantora Rubi Lins, acompanhando-a em “Ando Meio Desligado” – essa Mauricio Ruella perdeu, rerrê. 



Lembrarei também BigNel Manoel Corrêa, agora morando em Olinda e que em 2014 acompanhei num de seus raros shows em Sampa. E, além da honra de colaborar com o Conjunto João Rubinato na pesquisa e resgate da obra de Adoniran Barbosa, produzi algumas de suas gravações – nada menos que as primeiras do grupo! – e ainda participei de uma de suas apresentações (foi no belo Espaço Cachuêra, no bairro das Perdizes - ficou parecendo verso de Adoniran), “intruso bem-vindo” ao contrabaixo elétrico e também num divertido debate sobre o Bardo do Bixiga com Sergio Rubinato, sobrinho de Adoniran e assessor em muitos de seus shows, e Celso de Campos Jr., autor de Adoniran, Uma Biografia, livro que faz uma bela dupla com meu Adoniran: Dá Licença De Contar.


Não esquecerei de registrar um show da ARBanda, a banda do Arquivo do Rock Brasileiro (e que lidero além do quase famoso TONQ e minha carreira-solo), no lançamento do já citado livro, Breve História Do Rock Brasileiro.

Por falar em rock brasileiro, neste milênio tenho aparecido por aí tocando principalmente violão e contrabaixo (usando meu cavaquinho “walkman” dos anos 1990 somente em gravações), mas em 2014 voltei ao instrumento com que comecei a tocar em bandas: guitarra-base, num belo show de anos 1960/1970 que reuniu nada menos que metade da lendária banda The Beatniks: o guitarrista-solo Bogô (com quem tenho tocado em outros grupos desde os anos 1980) e o contrabaixista Cláudio Morgado, além da cantora Cecilia Ramadas, o cantor José Gaspar Ramos e o baterista Batata da Vila Mariana (que conheci em seu estúdio quando fui visitar um ensaio de Tom Zé nos anos 1980 e com quem eu mal sabia que iria tocar numa festa no milênio seguinte).


FALA QUE ALGUÉM TE ESCUTA

Sim, este ano teve para mim uma relativa novidade. Famoso por muita coisa boa exceto falar em público, fui convidado a participar de alguns debates-palestras, “desafios”que encarei falando o mais pausadamente que me foi possível, e me saí bem. Tais eventos incluíram dois debates sobre rock brasileiro na Faculdade Belas Artes, ao lado de (ver foto abaixo) Guilherme Bryan, Silvio Essinger, Regina Echeverria e o mencionado Gerson Conrad, além de Toni C. e Alex Antunes; o debate sobre Adoniran que mencionei mais acima; e uma palestra sobre música e circo, junto à também mencionada Verônica Tamaoki, no Centro de Memória do Circo.


Tem mais: em 2013 eu, também poeta, já havia feito minha “estréia mundial” como recitador, nos saraus Poemas À Flor Da Pele e o Sopa de Letrinhas do Caiubi, mas sempre paralelamente às funções de compositor e músico; agora em 2014 compareci apenas como poeta num dos saraus da Casa das Rosas, além de recitar mais alguns versos no Caiubi de sempre.

Em 2014 falei também por intermédio de gravatas berrantes. Sim, no meio do ano iniciei uma segunda fase engravatada (a primeira foi nos anos 1990), numa brincadeira-a-sério que parece estar fazendo sucesso – e nunca pensei que um dia eu iria arrematar tantas gravatas e camisas sociais quanto discos e livros numa mesma compra de brechó...

COMO É QUE É O NEGÓCIO?

Desde já esquentando as turbinas e microfones para as comemorações de seu trigésimo aniversário agora em 2015, o Rádio Matraca (programa de humor, música e informação produzido e apresentado por mim, Laert Sarrumor e Alcione Sanna, todo sábado às 17h na USP FM, 93,7 MHz ou na internet, para quem ainda não sabia) recebeu em 2014 personalidades convidadas ilustres como Fábio Stella (na foto abaixo), o já mencionado Guilherme Bryan (co-autor de Teletema, primeiro e belo livro sobre as trilhas musicais das telenovelas brasílicas), Pedro Mariano, Anelis Assumpção e a banda Cracker Blues, além de apresentar programas especiais sobre artistas que merecem a melhor atenção como Carole King, Sergio Endrigo, Victor Young e temas como os palhaços cantores brasileiros e os 50 anos da canção “O Calhambeque”.


VITROLA, MINHA VITROLA

Em 2014 conheci algums/algumas artistas novas para mim, como as cantoras Anelis Assumpção, Cecilia Arellano e Ilana Volcov e o rapper Gaspar Z’África Brasil, além de receber uma bela pilha de discos independentes. Quem disse que a música brasileira acabou ou se resume só ao que toca nas grandes emissoras de rádio e TV? E recebi tantos discos independentes bons desse ano que resolvi fazer algumas micro-resenhas neste blog. Os nomes, além dos citados, incluem Givly Simons, Ligiana Costa, Luciana d’Ávila, Os Marchistas, Marlene Souza Lima, Meno Del Picchia, Novanguarda, Pedrão Neto, Pitomba, Rodrigo Bragança, Os Sertões e Trio Improvisado, além de celebridades veteranaças como os mencionados Gereba e Guca Domenico, Leticia Coura e Tavito. E não tem problema se um ou outro destes CDs saiu até dois ou três anos antes, pois, como sempre digo, nunca é tarde para independentes. (Mas bem que a maioria dos e das artistas poderia ajudar um pouco mencionando data de lançamento, ou pelo menos gravação, nos CDs e/ou embalagens...)

CANÇÕES DE ETERNAS DESPEDIDAS

Em 2014 a Parca se serviu sem moderação; as baixas musicais incluem Bobby Womack, Charlie Haden, Don Everly, Ian McLagan, Jack Bruce, Joe Cocker, Johnny Winter, Manitas de Plata, Paco De Lucia, Pete Seeger, Riz Ortolani, Roy Cicala e, no Brasil, Clemilda, Dino Franco, Hélcio Milito, Jair Rodrigues, Marcio dos Vips, Marly Marley, Miltinho, Nelson Ned, Nonato Buzar e Vange Leonel. E houve perdas que senti mais por estarem mais perto: o tradutor Frank Barbosa (nosso querido "Frank, Mr. Shank"), o guitarrista Hélcio Aguirra (mestre do hard rock e integrante das bandas Golpe de Estado e Harppia), o radialista, guitarrista e compositor Lizoel Costa (primeira baixa do Língua de Trapo), a cantora, compositora e jornalista Lúcia Helena Corrêa (de cuja banda fui integrante e cujo único disco saiu em 2013), o cantor e compositor Madan (um dos precursores do que se tornaria o Clube Caiubi) e o artista plástico e compositor Roberto Campadello (nos anos 1980 e 1990 proprietário do Espaço Persona, onde trabalhei como músico, produtor e professor de violão, enfim, praticamente morei lá durante cinco anos).

Pena foi também a vida curta do bar Confraria, bela tentativa de ser um Caiubi moocano mas que mal teve tempo de acolher pessoas como eu e Tato Fischer em shows e canjas; segue abaixo um flagrante, ao lado de Silvio Zuccolato e Juliano Mendes (um deles com meu famoso contrabaixo "Pingo").


Lembremos ainda o lamentável e desnecessário fechamento do Orkut, cuja praticidade de armazenamento e pesquisa está longe de ser igualada pelo Facebook - menos mal que eu participe de bons grupos facebookianos como Empoeirados Do Rock e Brazil By Music.

...E ADEUS, ANO ETERNO

Mas, tirando esse último item, 2014 foi, como dizia Rod McKuen via Sinatra, um ano muito bom, e meu único motivo de queixa quanto ao número 14 é o limite de faixas nos CDs que muitas grandes gravadoras brasileiras ainda insistem em praticar... E vamos lá, que este ano Quinze seja de fazer honra a Raquel de Queiroz!

(Sim, tudo isso aconteceu em Sampa, em 2014 fui mais "árvore" do que nunca e não saí da Grande São Paulo, mas este ano pretendo viajar mais fora de casa, já estou pronto com violão e mochila cheia de gravatas.)

Sunday, September 28, 2014

UM TÓPICO REALMENTE ALICIANTE


Aqui vai outra matéria que escrevi para a saudosa revista Metal Massacre em 2001, sem atualizações porém "remixada" e “remasterizada”.


ALICE COOPER

por Ayrton Mugnaini Jr.

“O telefone está tocando/você me pegou na corrida...” É isso mesmo, sou fã de Alice desde aquele dia de 1972 em que um amigo lá em Soroqueibol me apresentou o LP Killer, que acabava de ser lançado no Brasil. Hoje, quase 30 anos depois, reouço a edição em CD e concluo que vale a pena continuar adolescente com discos tão bons quanto este. Mas parte de mim insiste em crescer – calma, gurias, refiro-me desta vez a meu intelecto; após décadas de trabalho como crítico, pesquisador musical e compositor, continuo gostando de boa parte da obra de tia Alice e seus sobrinhos; discos como Killer e School’s Out me soam hoje ainda melhores, em todos os sentidos (só parei de ouvir os LPs quando adquiri as primeiras edições em CD).


"SOU ASSASSINO, SOU PALHAÇO..."

Talvez nenhum roqueiro de qualquer época tenha superado Alice Cooper na musicalização de temas mórbidos e negativos como morte, violência e decadência física, mental e espiritual. Sim, antes de Alice tivemos grupos que se deram bem abordando tais temáticas, como os Doors, os Stones, Lou Reed e o Velvet Underground, os Fugs, Iggy Pop com ou sem os Stooges; na mesma época e depois, surgiram os New York Dolls, o Black Sabbath, o Iron Maiden e o Marilyn Manson, sem falar no Slayer e em todo o death-metal. Mas Alice ainda é o campeão, por saber abordar tais assuntos com profundidade e, ao mesmo tempo, bom humor, já que o bom rock and roll, por definição, quase nunca se leva a sério; sem falar na qualidade musical de boa parte de sua obra – discos como Billion Dollar Babies e os citados Killer e School’s Out passaram no teste do tempo, apreciáveis e apreciados até hoje mesmo por quem não entende patavina de inglês.

“Minha banda é uma adaga no coração da ‘love generation’”, comentou Alice nos anos 1970. De fato, Alice soube e ainda sabe dar à juventude o que ela quer; afinal, quase todo adolescente torce para o Lobo Mau comer os Três Porquinhos – ou, já que Alice gravou na Warner, torca para que o Coiote pegue o Bip-Bip. Bem resumiu Alice: “Os EUA são só sexo, morte e dinheiro”. Alice é trilha sonora ideal para quem gosta dos Três Patetas, Zé do Caixão, filmes B em geral, vaudeville/burlesco baixaria, ou seja, grand-guignol – ou, em bom português, “trash”, por sinal título de um dos discos de Alice. Enfim, o estilo de Alice Cooper foi bem definido pelo saudoso Ezequiel Neves como “teatrinho infantil desbundado”.

FUI APANHADO NUM SONHO

O primeiro grande sucesso de Alice, “I’m Eighteen”, foi descrito como o equivalente ianque de “My Generation” do Who: “Sou menino e sou homem/tenho 18 anos e não sei o que quero/preciso sumir daqui”. Salvo engano, Alice foi o primeiro artista a reverter o rock aos adolescentes que eram seu maior público nos anos 1950. É que nos anos 1960 o rock havia se tornado “adulto” demais, falando de paz e amor, problemas sociais, a decadência do Império Britânico, casamentos e divórcios, encrencas com polícia, ladrões e traficantes, pactos com anjos e demônios, incesto, homossexualismo e outras heranças da literatura “cabeça” de beatniks e existencialistas em geral; até uma máquina de fliperama era pretexto para uma reflexão sobre religiões e lideranças. Foi Alice quem voltou a cantar sobre as crises da adolescência, inclusive sem a pentelhação da censura que vigorara nos anos 1950 e início dos 1960 – e sem preocupações com bobagens como bom gosto ou, como se diz hoje, ser politicamente correto.

Por sinal, o único tabu que Alice Cooper não conseguiu emplacar nos EUA foi a androginia. Afinal, tratava-se de um país cuja maioria era de machões ou mulheronas sem meio termo; quando os homens deixavam crescer o cabelo, precisavam contrabalançar com barbas e bigodes para demonstrar que continuavam machos. Bem resumiu o citado Wayne County (que nos anos 1980 mudou de sexo e de nome, Jayne County): “Alice Cooper precisou parar de usar sapatos de mulher com fivela atrás e cílios postiços e vestidos e se concentrar mais no horror, porque o povo nos EUA conseguia entender horror e sangue e bebês mortos, mas não conseguia entender sexualidade masculina/feminina, androginia, ou... como diziam os rapazinhos estadunidenses, música de viado.”

Talvez por influência do existencialismo à francesa em todo o mundo desde os anos 1940/1950, androginia nunca foi novidade no rock and roll, de Little Richard a Prince, passando por Edgar Winter, David Bowie, Marc Bolan, os Smiths e o Suede. Embora não tenha conseguido vender androginia para os ianques, Alice conseguiu ser o primeiro estadunidense a se dar bem com o glam-rock simples e dançante dos bretões Bowie, T. Rex, Slade e Gary Glitter; Lou Reed e o Kiss foram apenas dois conterrâneos que pegaram carona na fama de Alice e se deram bem.

COMO VOCÊ VAI ME VER AGORA

Ao se tornar artista solo em 1974, Alice Cooper se revelou, tal como os Bee Gees ou o Pink Floyd, mestre em baladas que apenas parecem melosas e românticas: “Only Women Bleed”, “I Never Cry”, “You And Me”, “How You Gonna See Me Now”... O jornalista Jeff Pike reparou que a “balada heavy” é mais uma tradição que se deve a Alice (talvez os únicos antecedentes sejam “Changes” do Sabbath e, forçando um pouco, “Child In Time” e “Mistreated” do Deep Purple); após o sucesso de “Only Women Bleed”, vieram “Beth” do Kiss, “Waiting For A Girl Like You” do Foreigner, “I’ll Be There For You” do Bon Jovi, “Patience” do Guns’n’Roses...

Por sinal, Alice não foi exceção à “teoria do vácuo” no rock. Ao despedir seu grupo e trocar o rocão pelas baladonas (embora mantendo a temática das letras), seu lugar foi tomado por artistas como os já citados Wayne County e Marilyn Manson, os básicos Ramones, Twisted Sister, Iron Maiden, o Aerosmith (que, por sinal, participa do disco Trash de Alice).

ELA PERGUNTOU “POR QUE O CANTOR SE CHAMA ALICE?” EU DISSE “VOCÊ NÃO IA ENTENDER...”

O início da história de Alice (o grupo) não é muito diferente de tantos grupos de garagem que surgiram nos EUA nos anos 60.

Os personagens desta história são Vincent Furnier (nascido a 4/2/1948 em Detroit e criado em Phoenix, no Arizona), os guitarristas Michael Bruce (16/3/1948) e Glen Buxton (10/11/1947), o contrabaixista Dennis Dunaway (9/12/1948) e o baterista Neil Smith (23/9/1947). Todos moram em Phoenix e formam seus grupinhos adolescentes com amigos e colegas de escola, chegando a gravar compactos independentes aqui e ali (tal como Michael Bruce e os Wallpapers). Em 1965 estes cinco companheiros se unem num mesmo grupo, chamado Earwigs. Em 1966 mudam o nome para Spiders, e no ano seguinte gravam um compacto, “Don’t Blow Your Mind”, grande sucesso em Phoenix, mas que com o tempo se torna mosca branca de olhos azuis, ou seja, mais raro que a raridade.



Por esta época, Vincent se torna “eighteen”, e participa de uma sessão espírita, onde recebe uma informação muito interessante: ele é nada menos que a reencarnação de uma feiticeira do século 17, chamada, é isso mesmo, Alice Cooper. Este nome soa bem mais chamativo e roqueiro que Vincent Furnier, e nosso amigo passa a atender por ele.

De ano em ano as coisas vão acontecendo. Em 1968 os Spiders resolvem tentar a sorte em Hollywood, e mudam mais uma vez o nome; agora atendem por The Nazz e gravam mais um disco, “Lay Down And Die, Goodbye” (uma granada punk de dois minutos que se tornará uma viagem de sete minutos e meio no segundo LP do grupo, mas já chegaremos lá).

Único problema: outro grupo chamado Nazz (igualmente inspirado em “The Nazz Are Blue” dos Yardbirds), liderado por Todd Rundgren, torna-se sucesso nacional com “Hello, It’s Me”. Então o grupo muda de nome ainda uma vez, para Alice Cooper – antecipando a mania dos grupos brasileiros dos anos 80/90 de usarem nome feminino (Garotas Que Erraram, Viúva Velvet, Velhas Virgens e por aí vai).

Alice Cooper, o grupo, vai fazendo shows pela Califórnia. Diz a lenda que eles conseguem esvaziar a casa noturna Cheetah, o que chama a atenção de Shep Gordon, empresário de Frank Zappa, que acha isto muito interessante e resolve chamar o grupo para aumentar sua coleção de artistas bizarros para dois selos que a Warner Bros. lhe confiara para dirigir, Straight e Bizarre, turma esta que já incluía Captain Beefheart, Wild Man Fischer e Girls Together Outrageously (um grupo formado por groupies). Assim Alice lembra como foi a gravação do primeiro LP, Pretties for You, em novembro de 1968: “Por uma semana inteira ficamos no estúdio tocando cada música cinco ou seis vezes com Herb Cohen (gerente comercial de Zappa) e Frank Zappa lidando com os níveis de gravação na sala de controle. A gente pensou que estava só ensaiando, se esquentando pra gravar as bases e experimentar, quando Zappa saiu do aquário e disse “OK, o LP de vocês estará pronto na quinta-feira. Eu disse “Tem alguns erros nesse material. A gente nem estava pronto pra gravar”, mas ele só me deu um tapinha no ombro e disse “Não se preocupe. Não se preocupe. A gente vai dar um jeito em tudo na mixagem.” A gente só foi ver ou ouvir o disco seis meses depois.”

Pretties for You faz sucesso pequeno porém animador para um grupo ainda desconhecido e tão anticomercial. Alice: “Fizemos um show em Glenville, Michigan. Chegamos ao motel, lá não tinha televisão, e no salão só cabiam duzentas pessoas. Eu achei que a noite ia ser uma bela roubada. Então subimos ao palco, e o lugar estava cheio – e comecei a cantar, e TODOS OS GAROTOS NA PRIMEIRA FILA sabiam todas as letras de Pretties For You. Dá pra imaginar qual foi a sensação? EU nem sabia todas as letras do disco, e estes moleques daquela cidadezinha conheciam cada música.”

A crítica não gosta dos dois primeiros discos de Alice, considerando-os garagentos demais, mas os malucos adoram. E a gravadora percebe que falta apenas um bom produtor para desenvolver o potencial do grupo. Entra em cena o canadense Bob Ezrin, que faz de Love It To Death a primeira obra-prima de Alice, incluindo o primeiro grande sucesso nacional, “I’m Eighteen”. A parceria rende vários LPs clássicos do rock, incluindo discos-solo de Alice como Welcome To My Nightmare e Dada.

A imagem do grupo também ajuda, e muito, com Alice satirizando o sadomasoquismo, fingindo matar bonecas e ser guilhotinado em pleno palco, além de repartir o show com uma cobra. “Há muitos anos, quando estive na Jamaica, eu vi uma dança de cobra. Todo mundo na platéia ficou hipnotizado. Quando saíram do show, cada um reagiu de um jeito diferente. Achei que foi a coisa mais engraçada que eu já tinha visto. Uma mulher achou o máximo em sexualidade. Um cara quase morreu de susto, porque tinha medo de cobras. Mas todo mundo REAGIU. Dizem que não dá mais para fazer os jovens reagirem. Mas com a cobra eles REAGEM. Eles riem, se arrepiam de medo, gritam de alegria.”

Não demoram a surgir lendas, como Alice (ou Zappa? Já ouvi estas duas versões) comendo excrementos ou bebendo baldes de cuspe de membros da platéia em pleno palco. E o mito de que Alice mata galinhas nos shows tem origem num fato real: “A gente estava em Londres, ou no Canadá, estávamos tocando com Zappa, e alguém jogou uma galinha no palco. A gente estava tocando do lado de fora, e tinha uma varanda. E eu peguei a galinha, e eu acreditava de todo o coração que galinha voava. Então joguei a galinha para cima, e ela bateu no topo da varanda, e ela caiu na platéia, e foi rasgada em pedacinhos. Depois eu fiquei sabendo que eu tinha aberto o pescoço dela com uma dentada e sugado-lhe o sangue. Se as pessoas gostam e querem acreditar...” Poucos reparam, por exemplo, que, após um show cheio de sangue e violência, Alice impede que outro membro da banda pise numa barata: “NÃO! É uma coisa viva, não faz mal pra nenhum de nós, não há porque matá-la.” Pois é, imagem é tudo...

NA TERRA DE TIA ALICE

Nos anos 70, antes da grande explosão do rock no Brasil (imposta pelas gravadoras multinacionais ou não, isto é outra história), conta-se nos dedos de meia mão os artistas roqueiros ou aparentados que vieram no auge fazer shows em nosso país: Genesis, James Brown, Jackson 5. Sendo o Brasil derrotista por excelência, de repente baixou-se o decreto não-oficial de que, tendo vindo cantar aqui, Alice não prestava mais. Então os discos pararam de vender, Alice virou “várzea” e só foi reabilitado nos anos 1980.

Steve Gaines, jornalista que ajudou Alice a escrever sua autobiografia, Me, Alice, conta: “O manuscrito original começava com uma cena no Brasil onde dezenas de milhares de fãs num concerto foram mesmo esmagadas contra o palco e Alice assistiu horrorizado. Eles me fizeram substituir esta parte com uma história boba de Alice brincando de detetive” Muito mais interessante é quando Alice fica sabendo que é chamado de “Tia Alice” no Brasil: “Tia Alice” “Aunt Alice! It’s very funny!”

ALICE DE CORAÇÃO DURO

O dinheiro sempre foi o grande teste para as pessoas, e Alice acaba não resistindo. Logo o grupo começa a reclamar de que Alice prefere posar para revistas ao lado de atores, atrizes e modelos que seus companheiros, além de “estragar” as melodias dos parceiros com letras “doidonas”. “Eu componho músicas para o primeiro lugar nas paradas, “Never Been Sold Before”, “School’s Out”, “I’m Eighteen””, diz Michael Bruce, “daí Alice põe as letras doidas dele e as músicas não são mais para o primeiro lugar, são apenas músicas que servem para a imagem de palco que construímos.”

O próprio Alice, mestre em brincar de ser sério e levar a sério a brincadeira, diverte-se ao falar de suas letras. Na época do disco Muscle Of Love, ele comenta com um repórter sobre os primeiros versos que acaba de escrever para a faixa-título, a lápis numa folha de caderno: “Joey levou-a para a matinê/disse ‘Deus, ela não parava...’” Alice diz ao repórter: “Você vê como minhas letras são sutis? Está impressionado com a finesse?” O repórter pergunta quanto tempo Alice levou para escrever a música. “A MÚSICA? Eu escrevi as letras do disco inteiro em um dia, assistindo os programas de variedades na televisão. Quero dizer, do que é que se precisa para escrever este tipo de coisa, afinal? O resto da banda me dá os instrumentais, e eu escrevo as letras em algumas horas. Não é exatamente literatura imortal.” E, ao que consta, Alice caprichou nas letras de Muscle Of Love por mais tempo que as do disco anterior, Billion Dollar Babies.

Mais trágico é o destino do guitarrista Glen Buxton, que no início era o melhor músico do grupo, o único que sabia ler partituras e que inclusive ensinou Dennis a tocar contrabaixo. Uma mistura de fama e dinheiro com bebida alcoólica foi fatal, causando-lhe decadência física quase completa, inclusive perdendo quase todo o pâncreas. Não é à toa que desde 1971 ele precisa ser suplementado em discos e shows (por amigos que quase sempre permanecem anônimos como Rick Derringer – na faixa “Under My Wheels” – , Dick Wagner e Steve Hunter) e nem toca em Muscle Of Love. Se Alice queria ser um novo Stones, Glen acabou sendo seu Brian Jones. Após o fim da banda original, Buxton forma a banda Virgin em 1985 doze anos depois participa de um disco, Antbee, reunindo todos os velhos companheiros, exceto Alice. Glen acaba falecendo de enfisema e pneumonia em 19 de outubro de 1997, pouco antes de emplacar 50 anos.

Por sinal, em 1977 Michael Bruce, Dennis Dunaway e Neal Smith formaram a banda Billion Dollar Babies, gravando um LP, Battle Axe; eles podem continuar bons compositores, mas o carisma de Alice faz falta.

E Alice segue em frente. Seu único grande problema é o alcoolismo, chegando a ser grande acionista da cerveja Budweiser; no fim dos anos 70 ele se livrou do vício, inclusive exorcizando-o em seu disco From The Inside (com muitas letras escritas por Bernie Taupin, o letrista de Elton John; anos depois ele gravará um bom disco new-wavesco, Flush The Fashion, ao lado do mais ilustre guitarrista de Elton, Davey Johnstone). No fim dos anos 70 alguns críticos o chamam de “piada velha” e outros o acusam de tentar seguir novas modas. Mas pelo menos algumas de suas músicas têm traços do velho brilho: “Gail”, “Pain”, “Aspirin Damage”. E Alice virou uma espécie de Vincent Price (que, aliás, participa de Welcome To My Nightmare do xará) do rock, aparecendo em vários filmes – Wayne’s World, A Hora Do Pesadelo Parte 6 (como o pai de Freddie Kruger) e gravando um dueto com Rob Zombie (do grupo White Zombie) para um disco tributo à série Arquivo X. Além disso, Alice mantém um restaurante próprio na cidade em que se criou, Phoenix, no Arizona, Sim, Arlo Guthrie, existe um verdadeiro “Alice’s Restaurant”.

CURIOSIDADES

* Alice, famoso como o maior pseudo-psicopata do rock, encontrou-se com o maior psicopata de verdade, Syd Barrett, do Pink Floyd. Ou melhor, quem conheceu Syd foi Glen Buxton, quando foram vizinhos em Venice, na Califórnia. Assim Glen lembrou o episódio: “Eu não me lembro dele dizendo duas palavras. Não que ele fosse esnobe: ele era uma pessoa muito estranha. Ele nunca falava, mas a gente sentava para jantar e de repente eu pegava o açúcar e passava pra ele e ele dizia “Sim, obrigado”. Era como se eu o ouvisse pedindo “Passe o açúcar” – era como telepatia.”

Um bom livro sobre Alice é Billion Dollar Babe de Bob Greene, escrito como um documentário da gravação do disco Muscle Of Love e os shows da mesma época.

* Alice Cooper ainda não cantou um tema de filme de James Bond, mas bem que tentou. No final de Com 007 Viva E Deixe Morrer vê-se o lembrete de que o próximo seria Man With The Golden Gun. Então Alice não perdeu tempo em compor uma música com esse nome, gravada no disco Muscle Of Love, com canja de Liza Minnelli e tudo. “Já pensou? O filme ainda em produção e já tem uma música com o mesmo título tocando em um milhão de lares”, divertiu-se Alice. “Eles vão ter de usar esta música como tema do filme.”

* Quem cuidava das famosas cobras de Alice era um roadie inglês, Andy Mills. Quando Alice veio ao Brasil, Andy gostou tanto que acabou ficando. Inclusive, ficou amigo de Rita Lee, a ponto de ter com ela um romance rápido e colaborar em seus primeiros discos-solo pós-Mutantes, Atrás Do Porto Tem Uma Cidade e Fruto Proibido. Dizem que é esta a razão de Arnaldo Baptista, ex-marido de Rita, ter cantado “não gosto do Alice Cooper/onde é que está meu rock and roll?”

* Alice Cooper deve ter frequentado, junto com John Lennon e Caetano Veloso, o mesmo Instituto Universal de Auto-Referência. Ainda em sua fase garageira psicodélica, ele homenageou nomes antigos de seu grupo nas faixas “Return Of The Spiders” e “Earwigs To Eternity”, e cita a si mesmo em “Be My Lover” (embora esta seja composição do guitarrista Michael Bruce) e “Hard Hearted Alice”.

* Alice daria um símbolo da Warner Bros. ainda mais engraçado que o Pernalonga – uma de suas gravações se chama justamente “Luney Tune”, alusão às “Looney Tunes” dos desenhos da Warner.

* No rock, assim como na música popular em geral, originalidade não é sinônimo de qualidade. “Alice caga em cima de tudo, plagia tudo”, resumiu a primeira edição brasileira da publicação Rolling Stone. Alguns exemplos: “Billion Dollar Babies” lembra “Tell Me To My Face” dos Hollies, “Be My Lover” aproveita o riff de “Sweet Jane” e “Baba O’Riley”, “Titanic Overture” é uma esculhambação com “Going Out Of My Head” de Teddy Randazzo, a capa de School’s Out é “baseada” em Thinks: School Stinks, de 1970, do grupo inglês Hotlegs (que logo mudaria para 10 CC) “Elected” recicla o riff de “Dolly Dagger” de Jimi Hendrix, o arranjo de partes de Quadrophenia do Who e a melodia inicial de “Reflected” do... próprio Alice, faixa do primeiro disco.

* Alice sempre foi grande fã da música popular norte-americana que não fosse rock and roll. Além de incluir no disco School’s Out temas do musical West Side Story de Leonard Bernstein, nos anos 70 ele declarou que adorava ficar ouvindo Burt Bacharach e que as únicas músicas que gostaria de ter composto eram “My Funny Valentine” e ‘The Lady Is A Tramp”.

* Ciente da importância da imagem, Alice foi também pioneiro do telão em shows de rock. Seus shows de 1973-4 foram os primeiros a incluir câmeras que focalizavam seu rosto em close e o projetavam numa grande tela – sim, um “telão” – logo acima do palco. 

Se existiu alguém altruísta a ponto de literalmente dar a camisa pelo irmão, foi Glen Buxton. Ele contava que uma noite ficou bebendo com Jim Morrison até de manhã, e no dia seguinte. Bem cedinho, Jim precisava tirar uma foto para uma capa de disco dos Doors. Pois bem, de manhã Jim não só estava na maior ressaca, como nem camisa ele tinha. Então Glen lhe emprestou uma camisa roxa que estava usando. Pode conferir: é esta a camisa que Jim está usando na capa do disco Waiting For The Sun dos Doors.

* Bob Ezrin, o George Martin (ou, para quem preferir, o Rogério Duprat) de Alice Cooper, o produtor que soube canalizar o potencial da banda e levá-la ao sucesso, usou uma artimanha curiosa para que este sucesso fosse ainda maior. No Canadá dos anos 1960 para 1970 as emissoras de rádio eram obrigadas por lei a privilegiarem artistas locais; então Ezrin, que é canadense e tocou teclados em algumas faixas de Love It To Death, incluiu na capa do disco o crédito “‘Toronto Bob’ on organ and piano”.

* Fã de Gene Vincent, Alice dedicou ao xará uma faixa de seu segundo LP, “Return Of The Spiders”. Outro ponto em comum entre ambos os roqueiros é que Gene grande “outsider”, talvez o primeiro do rock and roll, sempre de casaco de couro preto e expressão contorcida de dor, devido a uma perna ferida no exército e que nunca sarou de vez.

DISCOGRAFIA

Pretties For You (Straight, março de 1969. CD: Rhino, outubro de 1999)

Titanic Overture/10 Minutes Before The Worm/Sing Low Sweet Cheerio/Today Mueller/Living/Fields Of Regret/No Longer Umpire/Levity Ball/B.B. On Mars/Reflected/Apple Bush/Earwigs To Eternity/Changing, Arranging

Easy Action (Straight, junho de 1970)

Mr. & Misdemeanor/Shoe Salesman/Still No Air/Below Your Means/Return Of The Spiders/Laughing At Me/Refrigerator Heaven/Beautiful Flyaway/Lay Down And Die, Goodbye

Love It To Death (WB, março de 1971)

Caught In A Dream/Eighteen/Long Way To Go/Black Ju Ju/Is It My Body?”Halloweed Be My Name/Second Coming/Ballad Of Dwight Fry/Sun Arise

Killer (WB, novembro de 1971. CD: setembro de 1989)

Under My Wheels/Be My Lover/Halo OF Flies/Desperado/You Drive Me Nervous/Yeah, Yeah, Yeah/Dead Babies/Killer

School’s Out (WB, junho de 1972. CD: junho de 1989)

School’s Out/Luney Tune/Gutter Cat Vs. The Jets/Street Fight/Blue Turk/My Stars/Public Animal Number 9/Alma Mater/Grande Finale

Billion Dollar Babies (WB, janeiro de 1973)

Hello! Hooray!/Raped And Freezin’/Elected/Billion Dollar Babies/Unfinished Sweet/No More Mr. Nice Guy/Generation Landslide/Sick Things/Mary Ann/I Love The Dead

Muscle Of Love (WB, novembro de 1973)

Big Apple Dreamin’ (Hippo)/Never Been Sold Before/Hard Hearted Alice/Crazy Little Child/Working Up A Sweat/Muscle Of Love/Man With The Golden Gun/Teenage Lament ‘74/Woman Machine

Live At The Whiskey A- Go-Go, 1969 (Edsel, março de 1992)

No Longer Umpire/Today Mueller/10 Minutes Before The Worm/Levity Ball/Nobody Likes Me/B.B. On Mars/sing Low Sweet Cheerio/Changing, Arranging

Alice Cooper Solo:

Welcome To My Nightmare (WB, março de 1975. CD: novembro de 1987)

Welcome To My Nightmare/Devil's Food/The Black Widow/Some Folks/Only Women Bleed/Department Of Youth/Cold Ethyl/Years Ago/Steven/The Awakening/Escape

Alice Cooper Goes To Hell (WB, julho de 1976)

Go To Hell/You Gotta Dance/I'm The Coolest/Didn't We Meet/I Never Cry/Give The Kid A Break/Guilty/Wake Me Gently/Wish You Were Here/I'm Always Chasing Rainbows/Going Home

LACE AND WHISKEY (WB, de 1977)
It's Hot Tonight/Lace & Whiskey/Road Rats/Damned If You Do/You And Me/King of the Silver Screen/Ubangi Stomp/(No More) Love At Your Convenience/I Never Wrote Those Songs/My God

THE ALICE COOPER SHOW (WB, de 1977)
Under My Wheels/I'm Eighteen/Only Women Bleed/Sick Things/Is It My Body/I Never Cry/Billion Dollar Babies/Devil's Food/The Black Widow/You And Me/I Love The Dead/
Go To Hell/Wish You Were Here/School's Out

From The Inside (WB, dezembro de 1978)

Flush The Fashion (WB, maio de 1980)

Talk Talk/Clones (We’re All)/Pain/Leather Boots/Aspirin Damage/Nuclear Infected/Grim Facts/Model Citizen/Dance Yourself To Death/Headlines

Special Forces (WB, de 1981)

Who Do You Think We Are/Seven & Seven Is/Prettiest Cop On The Bloc/Don't Talk Old To Me/Generation Landslide '81/Skeletons In The Closet/You Want It, You Got It/You Look Good In Rags/You're A Movie/Vicious Rumours

Zipper Catches Skin (WB, de 1982)

Zorro's Ascent/Make That Money Scrooge's/I Am The Future/No Baloney Homosapiens/Adaptable Anything For Yo/I Like Girls/Remarkably Insincere/Tag, You're It/I Better Be Good/I'm Alive

Dada (WB, 1983)

Da Da/Enough's Enough/Former Lee Warmer/No Man's Land/Dyslexia/Scarlet and Sheba/I Love America/Fresh Blood/Pass The Gun Around

Constrictor (MCA, outubro de 1986) 

Teenage Frankenstein/Give It Up/Thrill My Gorilla/Life And Death Of The Party/Simple Disobedience/The World Needs Guts/Trick Bag/Crawlin'/Great American Success Story/He's Back (The Man Behind The Mask)

Raise Your Fist And Yell (MCA, 1987)

Lock Me Up/Give The Radio Back/Freedom/Step On You/Not The Kind Of Love/Prince Of Darkness/Time To Kill/Chop, Chop, Chop/Gail/Roses On White Face

Trash (Epic, agosto de 1989)

Poison/Speak In The Dark/House OF Fire/Why Trust You/Only My Heart Talkin’/Bed Of Nails/This Maniac’s In Love With You/Trash/Hell Is Living Without You/I’m Your Gun

Hey Stoopid (Epic, 1991. CD: junho de 1992)

Hey Stopid/Love’s A Loaded Gun/Snakebite/Burning Our Bed/Dangerous Tonight/Might As Well Be On Mars/Feed My Frankenstein/Hurricane Years/Little By Little/Die For You/Dirty Dreams/Wind-Up Toys

The Last Temptation Of Alice (Epic, 1994)

Brutal Planet (abril de 2000)

Brutal Planet/Sanctuary/Wicked Young Man/Gimme/Blow Me A Kiss/Cold Machines/Take It Like A Woman/It’s The Little Things/Pessi-Mystic/Eat Some More/Pick Up The Bones

Há ainda um disco semi-oficial gravado ao vivo em Toronto em 1969 e com dezenas de reedições econômicas em CD. As faixas estão todas com títulos inventados (são quase todas do primeiro LP); uma faixa, “Ain’t It Just Like A Woman”, nem é Alice Cooper, e sim outro artista – pois é, trata-se do equivalente cooperiano dos Beatles In Hamburg da vida (uma ou outra faixa do álbum duplo Live at The Star-Club 1962 não é com os Beatles e sim outros grupos que se apresentaram no mesmo local e época).

Menção honrosa também para duas faixas que só saíram em discos flexis promocionais, “Nobody Likes Me” (1971), distribuído durante shows do disco Killer, e “Slick Black Limousine” (1973), brinde do jornal inglês New Musical Express – e que apareceu em alguns LPs piratas do Led Zeppelin!





Para terminar, más e boas notícias. Uma página na Internet supimpa sobre Alice Cooper que lá em 2001 serviu de fonte para esta matéria parece ter saído do ar. As boas notícias são duas. Primeira: uma edição da revista Poeira Zine lançou uma bela reportagem sobre a vinda de Alice ao Brasil em 1974. Segunda: não vou trazer para cá as gravações normais de Alice, todas em catálogo, mas sim uma coletaneazinha de regravações por artistas fantasmas - tem até uma que inclui Lilian Knapp e o pessoal do futuro Roupa Nova.