Sunday, September 28, 2014

UM TÓPICO REALMENTE ALICIANTE


Aqui vai outra matéria que escrevi para a saudosa revista Metal Massacre em 2001, sem atualizações porém "remixada" e “remasterizada”.


ALICE COOPER

por Ayrton Mugnaini Jr.

“O telefone está tocando/você me pegou na corrida...” É isso mesmo, sou fã de Alice desde aquele dia de 1972 em que um amigo lá em Soroqueibol me apresentou o LP Killer, que acabava de ser lançado no Brasil. Hoje, quase 30 anos depois, reouço a edição em CD e concluo que vale a pena continuar adolescente com discos tão bons quanto este. Mas parte de mim insiste em crescer – calma, gurias, refiro-me desta vez a meu intelecto; após décadas de trabalho como crítico, pesquisador musical e compositor, continuo gostando de boa parte da obra de tia Alice e seus sobrinhos; discos como Killer e School’s Out me soam hoje ainda melhores, em todos os sentidos (só parei de ouvir os LPs quando adquiri as primeiras edições em CD).


"SOU ASSASSINO, SOU PALHAÇO..."

Talvez nenhum roqueiro de qualquer época tenha superado Alice Cooper na musicalização de temas mórbidos e negativos como morte, violência e decadência física, mental e espiritual. Sim, antes de Alice tivemos grupos que se deram bem abordando tais temáticas, como os Doors, os Stones, Lou Reed e o Velvet Underground, os Fugs, Iggy Pop com ou sem os Stooges; na mesma época e depois, surgiram os New York Dolls, o Black Sabbath, o Iron Maiden e o Marilyn Manson, sem falar no Slayer e em todo o death-metal. Mas Alice ainda é o campeão, por saber abordar tais assuntos com profundidade e, ao mesmo tempo, bom humor, já que o bom rock and roll, por definição, quase nunca se leva a sério; sem falar na qualidade musical de boa parte de sua obra – discos como Billion Dollar Babies e os citados Killer e School’s Out passaram no teste do tempo, apreciáveis e apreciados até hoje mesmo por quem não entende patavina de inglês.

“Minha banda é uma adaga no coração da ‘love generation’”, comentou Alice nos anos 1970. De fato, Alice soube e ainda sabe dar à juventude o que ela quer; afinal, quase todo adolescente torce para o Lobo Mau comer os Três Porquinhos – ou, já que Alice gravou na Warner, torca para que o Coiote pegue o Bip-Bip. Bem resumiu Alice: “Os EUA são só sexo, morte e dinheiro”. Alice é trilha sonora ideal para quem gosta dos Três Patetas, Zé do Caixão, filmes B em geral, vaudeville/burlesco baixaria, ou seja, grand-guignol – ou, em bom português, “trash”, por sinal título de um dos discos de Alice. Enfim, o estilo de Alice Cooper foi bem definido pelo saudoso Ezequiel Neves como “teatrinho infantil desbundado”.

FUI APANHADO NUM SONHO

O primeiro grande sucesso de Alice, “I’m Eighteen”, foi descrito como o equivalente ianque de “My Generation” do Who: “Sou menino e sou homem/tenho 18 anos e não sei o que quero/preciso sumir daqui”. Salvo engano, Alice foi o primeiro artista a reverter o rock aos adolescentes que eram seu maior público nos anos 1950. É que nos anos 1960 o rock havia se tornado “adulto” demais, falando de paz e amor, problemas sociais, a decadência do Império Britânico, casamentos e divórcios, encrencas com polícia, ladrões e traficantes, pactos com anjos e demônios, incesto, homossexualismo e outras heranças da literatura “cabeça” de beatniks e existencialistas em geral; até uma máquina de fliperama era pretexto para uma reflexão sobre religiões e lideranças. Foi Alice quem voltou a cantar sobre as crises da adolescência, inclusive sem a pentelhação da censura que vigorara nos anos 1950 e início dos 1960 – e sem preocupações com bobagens como bom gosto ou, como se diz hoje, ser politicamente correto.

Por sinal, o único tabu que Alice Cooper não conseguiu emplacar nos EUA foi a androginia. Afinal, tratava-se de um país cuja maioria era de machões ou mulheronas sem meio termo; quando os homens deixavam crescer o cabelo, precisavam contrabalançar com barbas e bigodes para demonstrar que continuavam machos. Bem resumiu o citado Wayne County (que nos anos 1980 mudou de sexo e de nome, Jayne County): “Alice Cooper precisou parar de usar sapatos de mulher com fivela atrás e cílios postiços e vestidos e se concentrar mais no horror, porque o povo nos EUA conseguia entender horror e sangue e bebês mortos, mas não conseguia entender sexualidade masculina/feminina, androginia, ou... como diziam os rapazinhos estadunidenses, música de viado.”

Talvez por influência do existencialismo à francesa em todo o mundo desde os anos 1940/1950, androginia nunca foi novidade no rock and roll, de Little Richard a Prince, passando por Edgar Winter, David Bowie, Marc Bolan, os Smiths e o Suede. Embora não tenha conseguido vender androginia para os ianques, Alice conseguiu ser o primeiro estadunidense a se dar bem com o glam-rock simples e dançante dos bretões Bowie, T. Rex, Slade e Gary Glitter; Lou Reed e o Kiss foram apenas dois conterrâneos que pegaram carona na fama de Alice e se deram bem.

COMO VOCÊ VAI ME VER AGORA

Ao se tornar artista solo em 1974, Alice Cooper se revelou, tal como os Bee Gees ou o Pink Floyd, mestre em baladas que apenas parecem melosas e românticas: “Only Women Bleed”, “I Never Cry”, “You And Me”, “How You Gonna See Me Now”... O jornalista Jeff Pike reparou que a “balada heavy” é mais uma tradição que se deve a Alice (talvez os únicos antecedentes sejam “Changes” do Sabbath e, forçando um pouco, “Child In Time” e “Mistreated” do Deep Purple); após o sucesso de “Only Women Bleed”, vieram “Beth” do Kiss, “Waiting For A Girl Like You” do Foreigner, “I’ll Be There For You” do Bon Jovi, “Patience” do Guns’n’Roses...

Por sinal, Alice não foi exceção à “teoria do vácuo” no rock. Ao despedir seu grupo e trocar o rocão pelas baladonas (embora mantendo a temática das letras), seu lugar foi tomado por artistas como os já citados Wayne County e Marilyn Manson, os básicos Ramones, Twisted Sister, Iron Maiden, o Aerosmith (que, por sinal, participa do disco Trash de Alice).

ELA PERGUNTOU “POR QUE O CANTOR SE CHAMA ALICE?” EU DISSE “VOCÊ NÃO IA ENTENDER...”

O início da história de Alice (o grupo) não é muito diferente de tantos grupos de garagem que surgiram nos EUA nos anos 60.

Os personagens desta história são Vincent Furnier (nascido a 4/2/1948 em Detroit e criado em Phoenix, no Arizona), os guitarristas Michael Bruce (16/3/1948) e Glen Buxton (10/11/1947), o contrabaixista Dennis Dunaway (9/12/1948) e o baterista Neil Smith (23/9/1947). Todos moram em Phoenix e formam seus grupinhos adolescentes com amigos e colegas de escola, chegando a gravar compactos independentes aqui e ali (tal como Michael Bruce e os Wallpapers). Em 1965 estes cinco companheiros se unem num mesmo grupo, chamado Earwigs. Em 1966 mudam o nome para Spiders, e no ano seguinte gravam um compacto, “Don’t Blow Your Mind”, grande sucesso em Phoenix, mas que com o tempo se torna mosca branca de olhos azuis, ou seja, mais raro que a raridade.



Por esta época, Vincent se torna “eighteen”, e participa de uma sessão espírita, onde recebe uma informação muito interessante: ele é nada menos que a reencarnação de uma feiticeira do século 17, chamada, é isso mesmo, Alice Cooper. Este nome soa bem mais chamativo e roqueiro que Vincent Furnier, e nosso amigo passa a atender por ele.

De ano em ano as coisas vão acontecendo. Em 1968 os Spiders resolvem tentar a sorte em Hollywood, e mudam mais uma vez o nome; agora atendem por The Nazz e gravam mais um disco, “Lay Down And Die, Goodbye” (uma granada punk de dois minutos que se tornará uma viagem de sete minutos e meio no segundo LP do grupo, mas já chegaremos lá).

Único problema: outro grupo chamado Nazz (igualmente inspirado em “The Nazz Are Blue” dos Yardbirds), liderado por Todd Rundgren, torna-se sucesso nacional com “Hello, It’s Me”. Então o grupo muda de nome ainda uma vez, para Alice Cooper – antecipando a mania dos grupos brasileiros dos anos 80/90 de usarem nome feminino (Garotas Que Erraram, Viúva Velvet, Velhas Virgens e por aí vai).

Alice Cooper, o grupo, vai fazendo shows pela Califórnia. Diz a lenda que eles conseguem esvaziar a casa noturna Cheetah, o que chama a atenção de Shep Gordon, empresário de Frank Zappa, que acha isto muito interessante e resolve chamar o grupo para aumentar sua coleção de artistas bizarros para dois selos que a Warner Bros. lhe confiara para dirigir, Straight e Bizarre, turma esta que já incluía Captain Beefheart, Wild Man Fischer e Girls Together Outrageously (um grupo formado por groupies). Assim Alice lembra como foi a gravação do primeiro LP, Pretties for You, em novembro de 1968: “Por uma semana inteira ficamos no estúdio tocando cada música cinco ou seis vezes com Herb Cohen (gerente comercial de Zappa) e Frank Zappa lidando com os níveis de gravação na sala de controle. A gente pensou que estava só ensaiando, se esquentando pra gravar as bases e experimentar, quando Zappa saiu do aquário e disse “OK, o LP de vocês estará pronto na quinta-feira. Eu disse “Tem alguns erros nesse material. A gente nem estava pronto pra gravar”, mas ele só me deu um tapinha no ombro e disse “Não se preocupe. Não se preocupe. A gente vai dar um jeito em tudo na mixagem.” A gente só foi ver ou ouvir o disco seis meses depois.”

Pretties for You faz sucesso pequeno porém animador para um grupo ainda desconhecido e tão anticomercial. Alice: “Fizemos um show em Glenville, Michigan. Chegamos ao motel, lá não tinha televisão, e no salão só cabiam duzentas pessoas. Eu achei que a noite ia ser uma bela roubada. Então subimos ao palco, e o lugar estava cheio – e comecei a cantar, e TODOS OS GAROTOS NA PRIMEIRA FILA sabiam todas as letras de Pretties For You. Dá pra imaginar qual foi a sensação? EU nem sabia todas as letras do disco, e estes moleques daquela cidadezinha conheciam cada música.”

A crítica não gosta dos dois primeiros discos de Alice, considerando-os garagentos demais, mas os malucos adoram. E a gravadora percebe que falta apenas um bom produtor para desenvolver o potencial do grupo. Entra em cena o canadense Bob Ezrin, que faz de Love It To Death a primeira obra-prima de Alice, incluindo o primeiro grande sucesso nacional, “I’m Eighteen”. A parceria rende vários LPs clássicos do rock, incluindo discos-solo de Alice como Welcome To My Nightmare e Dada.

A imagem do grupo também ajuda, e muito, com Alice satirizando o sadomasoquismo, fingindo matar bonecas e ser guilhotinado em pleno palco, além de repartir o show com uma cobra. “Há muitos anos, quando estive na Jamaica, eu vi uma dança de cobra. Todo mundo na platéia ficou hipnotizado. Quando saíram do show, cada um reagiu de um jeito diferente. Achei que foi a coisa mais engraçada que eu já tinha visto. Uma mulher achou o máximo em sexualidade. Um cara quase morreu de susto, porque tinha medo de cobras. Mas todo mundo REAGIU. Dizem que não dá mais para fazer os jovens reagirem. Mas com a cobra eles REAGEM. Eles riem, se arrepiam de medo, gritam de alegria.”

Não demoram a surgir lendas, como Alice (ou Zappa? Já ouvi estas duas versões) comendo excrementos ou bebendo baldes de cuspe de membros da platéia em pleno palco. E o mito de que Alice mata galinhas nos shows tem origem num fato real: “A gente estava em Londres, ou no Canadá, estávamos tocando com Zappa, e alguém jogou uma galinha no palco. A gente estava tocando do lado de fora, e tinha uma varanda. E eu peguei a galinha, e eu acreditava de todo o coração que galinha voava. Então joguei a galinha para cima, e ela bateu no topo da varanda, e ela caiu na platéia, e foi rasgada em pedacinhos. Depois eu fiquei sabendo que eu tinha aberto o pescoço dela com uma dentada e sugado-lhe o sangue. Se as pessoas gostam e querem acreditar...” Poucos reparam, por exemplo, que, após um show cheio de sangue e violência, Alice impede que outro membro da banda pise numa barata: “NÃO! É uma coisa viva, não faz mal pra nenhum de nós, não há porque matá-la.” Pois é, imagem é tudo...

NA TERRA DE TIA ALICE

Nos anos 70, antes da grande explosão do rock no Brasil (imposta pelas gravadoras multinacionais ou não, isto é outra história), conta-se nos dedos de meia mão os artistas roqueiros ou aparentados que vieram no auge fazer shows em nosso país: Genesis, James Brown, Jackson 5. Sendo o Brasil derrotista por excelência, de repente baixou-se o decreto não-oficial de que, tendo vindo cantar aqui, Alice não prestava mais. Então os discos pararam de vender, Alice virou “várzea” e só foi reabilitado nos anos 1980.

Steve Gaines, jornalista que ajudou Alice a escrever sua autobiografia, Me, Alice, conta: “O manuscrito original começava com uma cena no Brasil onde dezenas de milhares de fãs num concerto foram mesmo esmagadas contra o palco e Alice assistiu horrorizado. Eles me fizeram substituir esta parte com uma história boba de Alice brincando de detetive” Muito mais interessante é quando Alice fica sabendo que é chamado de “Tia Alice” no Brasil: “Tia Alice” “Aunt Alice! It’s very funny!”

ALICE DE CORAÇÃO DURO

O dinheiro sempre foi o grande teste para as pessoas, e Alice acaba não resistindo. Logo o grupo começa a reclamar de que Alice prefere posar para revistas ao lado de atores, atrizes e modelos que seus companheiros, além de “estragar” as melodias dos parceiros com letras “doidonas”. “Eu componho músicas para o primeiro lugar nas paradas, “Never Been Sold Before”, “School’s Out”, “I’m Eighteen””, diz Michael Bruce, “daí Alice põe as letras doidas dele e as músicas não são mais para o primeiro lugar, são apenas músicas que servem para a imagem de palco que construímos.”

O próprio Alice, mestre em brincar de ser sério e levar a sério a brincadeira, diverte-se ao falar de suas letras. Na época do disco Muscle Of Love, ele comenta com um repórter sobre os primeiros versos que acaba de escrever para a faixa-título, a lápis numa folha de caderno: “Joey levou-a para a matinê/disse ‘Deus, ela não parava...’” Alice diz ao repórter: “Você vê como minhas letras são sutis? Está impressionado com a finesse?” O repórter pergunta quanto tempo Alice levou para escrever a música. “A MÚSICA? Eu escrevi as letras do disco inteiro em um dia, assistindo os programas de variedades na televisão. Quero dizer, do que é que se precisa para escrever este tipo de coisa, afinal? O resto da banda me dá os instrumentais, e eu escrevo as letras em algumas horas. Não é exatamente literatura imortal.” E, ao que consta, Alice caprichou nas letras de Muscle Of Love por mais tempo que as do disco anterior, Billion Dollar Babies.

Mais trágico é o destino do guitarrista Glen Buxton, que no início era o melhor músico do grupo, o único que sabia ler partituras e que inclusive ensinou Dennis a tocar contrabaixo. Uma mistura de fama e dinheiro com bebida alcoólica foi fatal, causando-lhe decadência física quase completa, inclusive perdendo quase todo o pâncreas. Não é à toa que desde 1971 ele precisa ser suplementado em discos e shows (por amigos que quase sempre permanecem anônimos como Rick Derringer – na faixa “Under My Wheels” – , Dick Wagner e Steve Hunter) e nem toca em Muscle Of Love. Se Alice queria ser um novo Stones, Glen acabou sendo seu Brian Jones. Após o fim da banda original, Buxton forma a banda Virgin em 1985 doze anos depois participa de um disco, Antbee, reunindo todos os velhos companheiros, exceto Alice. Glen acaba falecendo de enfisema e pneumonia em 19 de outubro de 1997, pouco antes de emplacar 50 anos.

Por sinal, em 1977 Michael Bruce, Dennis Dunaway e Neal Smith formaram a banda Billion Dollar Babies, gravando um LP, Battle Axe; eles podem continuar bons compositores, mas o carisma de Alice faz falta.

E Alice segue em frente. Seu único grande problema é o alcoolismo, chegando a ser grande acionista da cerveja Budweiser; no fim dos anos 70 ele se livrou do vício, inclusive exorcizando-o em seu disco From The Inside (com muitas letras escritas por Bernie Taupin, o letrista de Elton John; anos depois ele gravará um bom disco new-wavesco, Flush The Fashion, ao lado do mais ilustre guitarrista de Elton, Davey Johnstone). No fim dos anos 70 alguns críticos o chamam de “piada velha” e outros o acusam de tentar seguir novas modas. Mas pelo menos algumas de suas músicas têm traços do velho brilho: “Gail”, “Pain”, “Aspirin Damage”. E Alice virou uma espécie de Vincent Price (que, aliás, participa de Welcome To My Nightmare do xará) do rock, aparecendo em vários filmes – Wayne’s World, A Hora Do Pesadelo Parte 6 (como o pai de Freddie Kruger) e gravando um dueto com Rob Zombie (do grupo White Zombie) para um disco tributo à série Arquivo X. Além disso, Alice mantém um restaurante próprio na cidade em que se criou, Phoenix, no Arizona, Sim, Arlo Guthrie, existe um verdadeiro “Alice’s Restaurant”.

CURIOSIDADES

* Alice, famoso como o maior pseudo-psicopata do rock, encontrou-se com o maior psicopata de verdade, Syd Barrett, do Pink Floyd. Ou melhor, quem conheceu Syd foi Glen Buxton, quando foram vizinhos em Venice, na Califórnia. Assim Glen lembrou o episódio: “Eu não me lembro dele dizendo duas palavras. Não que ele fosse esnobe: ele era uma pessoa muito estranha. Ele nunca falava, mas a gente sentava para jantar e de repente eu pegava o açúcar e passava pra ele e ele dizia “Sim, obrigado”. Era como se eu o ouvisse pedindo “Passe o açúcar” – era como telepatia.”

Um bom livro sobre Alice é Billion Dollar Babe de Bob Greene, escrito como um documentário da gravação do disco Muscle Of Love e os shows da mesma época.

* Alice Cooper ainda não cantou um tema de filme de James Bond, mas bem que tentou. No final de Com 007 Viva E Deixe Morrer vê-se o lembrete de que o próximo seria Man With The Golden Gun. Então Alice não perdeu tempo em compor uma música com esse nome, gravada no disco Muscle Of Love, com canja de Liza Minnelli e tudo. “Já pensou? O filme ainda em produção e já tem uma música com o mesmo título tocando em um milhão de lares”, divertiu-se Alice. “Eles vão ter de usar esta música como tema do filme.”

* Quem cuidava das famosas cobras de Alice era um roadie inglês, Andy Mills. Quando Alice veio ao Brasil, Andy gostou tanto que acabou ficando. Inclusive, ficou amigo de Rita Lee, a ponto de ter com ela um romance rápido e colaborar em seus primeiros discos-solo pós-Mutantes, Atrás Do Porto Tem Uma Cidade e Fruto Proibido. Dizem que é esta a razão de Arnaldo Baptista, ex-marido de Rita, ter cantado “não gosto do Alice Cooper/onde é que está meu rock and roll?”

* Alice Cooper deve ter frequentado, junto com John Lennon e Caetano Veloso, o mesmo Instituto Universal de Auto-Referência. Ainda em sua fase garageira psicodélica, ele homenageou nomes antigos de seu grupo nas faixas “Return Of The Spiders” e “Earwigs To Eternity”, e cita a si mesmo em “Be My Lover” (embora esta seja composição do guitarrista Michael Bruce) e “Hard Hearted Alice”.

* Alice daria um símbolo da Warner Bros. ainda mais engraçado que o Pernalonga – uma de suas gravações se chama justamente “Luney Tune”, alusão às “Looney Tunes” dos desenhos da Warner.

* No rock, assim como na música popular em geral, originalidade não é sinônimo de qualidade. “Alice caga em cima de tudo, plagia tudo”, resumiu a primeira edição brasileira da publicação Rolling Stone. Alguns exemplos: “Billion Dollar Babies” lembra “Tell Me To My Face” dos Hollies, “Be My Lover” aproveita o riff de “Sweet Jane” e “Baba O’Riley”, “Titanic Overture” é uma esculhambação com “Going Out Of My Head” de Teddy Randazzo, a capa de School’s Out é “baseada” em Thinks: School Stinks, de 1970, do grupo inglês Hotlegs (que logo mudaria para 10 CC) “Elected” recicla o riff de “Dolly Dagger” de Jimi Hendrix, o arranjo de partes de Quadrophenia do Who e a melodia inicial de “Reflected” do... próprio Alice, faixa do primeiro disco.

* Alice sempre foi grande fã da música popular norte-americana que não fosse rock and roll. Além de incluir no disco School’s Out temas do musical West Side Story de Leonard Bernstein, nos anos 70 ele declarou que adorava ficar ouvindo Burt Bacharach e que as únicas músicas que gostaria de ter composto eram “My Funny Valentine” e ‘The Lady Is A Tramp”.

* Ciente da importância da imagem, Alice foi também pioneiro do telão em shows de rock. Seus shows de 1973-4 foram os primeiros a incluir câmeras que focalizavam seu rosto em close e o projetavam numa grande tela – sim, um “telão” – logo acima do palco. 

Se existiu alguém altruísta a ponto de literalmente dar a camisa pelo irmão, foi Glen Buxton. Ele contava que uma noite ficou bebendo com Jim Morrison até de manhã, e no dia seguinte. Bem cedinho, Jim precisava tirar uma foto para uma capa de disco dos Doors. Pois bem, de manhã Jim não só estava na maior ressaca, como nem camisa ele tinha. Então Glen lhe emprestou uma camisa roxa que estava usando. Pode conferir: é esta a camisa que Jim está usando na capa do disco Waiting For The Sun dos Doors.

* Bob Ezrin, o George Martin (ou, para quem preferir, o Rogério Duprat) de Alice Cooper, o produtor que soube canalizar o potencial da banda e levá-la ao sucesso, usou uma artimanha curiosa para que este sucesso fosse ainda maior. No Canadá dos anos 1960 para 1970 as emissoras de rádio eram obrigadas por lei a privilegiarem artistas locais; então Ezrin, que é canadense e tocou teclados em algumas faixas de Love It To Death, incluiu na capa do disco o crédito “‘Toronto Bob’ on organ and piano”.

* Fã de Gene Vincent, Alice dedicou ao xará uma faixa de seu segundo LP, “Return Of The Spiders”. Outro ponto em comum entre ambos os roqueiros é que Gene grande “outsider”, talvez o primeiro do rock and roll, sempre de casaco de couro preto e expressão contorcida de dor, devido a uma perna ferida no exército e que nunca sarou de vez.

DISCOGRAFIA

Pretties For You (Straight, março de 1969. CD: Rhino, outubro de 1999)

Titanic Overture/10 Minutes Before The Worm/Sing Low Sweet Cheerio/Today Mueller/Living/Fields Of Regret/No Longer Umpire/Levity Ball/B.B. On Mars/Reflected/Apple Bush/Earwigs To Eternity/Changing, Arranging

Easy Action (Straight, junho de 1970)

Mr. & Misdemeanor/Shoe Salesman/Still No Air/Below Your Means/Return Of The Spiders/Laughing At Me/Refrigerator Heaven/Beautiful Flyaway/Lay Down And Die, Goodbye

Love It To Death (WB, março de 1971)

Caught In A Dream/Eighteen/Long Way To Go/Black Ju Ju/Is It My Body?”Halloweed Be My Name/Second Coming/Ballad Of Dwight Fry/Sun Arise

Killer (WB, novembro de 1971. CD: setembro de 1989)

Under My Wheels/Be My Lover/Halo OF Flies/Desperado/You Drive Me Nervous/Yeah, Yeah, Yeah/Dead Babies/Killer

School’s Out (WB, junho de 1972. CD: junho de 1989)

School’s Out/Luney Tune/Gutter Cat Vs. The Jets/Street Fight/Blue Turk/My Stars/Public Animal Number 9/Alma Mater/Grande Finale

Billion Dollar Babies (WB, janeiro de 1973)

Hello! Hooray!/Raped And Freezin’/Elected/Billion Dollar Babies/Unfinished Sweet/No More Mr. Nice Guy/Generation Landslide/Sick Things/Mary Ann/I Love The Dead

Muscle Of Love (WB, novembro de 1973)

Big Apple Dreamin’ (Hippo)/Never Been Sold Before/Hard Hearted Alice/Crazy Little Child/Working Up A Sweat/Muscle Of Love/Man With The Golden Gun/Teenage Lament ‘74/Woman Machine

Live At The Whiskey A- Go-Go, 1969 (Edsel, março de 1992)

No Longer Umpire/Today Mueller/10 Minutes Before The Worm/Levity Ball/Nobody Likes Me/B.B. On Mars/sing Low Sweet Cheerio/Changing, Arranging

Alice Cooper Solo:

Welcome To My Nightmare (WB, março de 1975. CD: novembro de 1987)

Welcome To My Nightmare/Devil's Food/The Black Widow/Some Folks/Only Women Bleed/Department Of Youth/Cold Ethyl/Years Ago/Steven/The Awakening/Escape

Alice Cooper Goes To Hell (WB, julho de 1976)

Go To Hell/You Gotta Dance/I'm The Coolest/Didn't We Meet/I Never Cry/Give The Kid A Break/Guilty/Wake Me Gently/Wish You Were Here/I'm Always Chasing Rainbows/Going Home

LACE AND WHISKEY (WB, de 1977)
It's Hot Tonight/Lace & Whiskey/Road Rats/Damned If You Do/You And Me/King of the Silver Screen/Ubangi Stomp/(No More) Love At Your Convenience/I Never Wrote Those Songs/My God

THE ALICE COOPER SHOW (WB, de 1977)
Under My Wheels/I'm Eighteen/Only Women Bleed/Sick Things/Is It My Body/I Never Cry/Billion Dollar Babies/Devil's Food/The Black Widow/You And Me/I Love The Dead/
Go To Hell/Wish You Were Here/School's Out

From The Inside (WB, dezembro de 1978)

Flush The Fashion (WB, maio de 1980)

Talk Talk/Clones (We’re All)/Pain/Leather Boots/Aspirin Damage/Nuclear Infected/Grim Facts/Model Citizen/Dance Yourself To Death/Headlines

Special Forces (WB, de 1981)

Who Do You Think We Are/Seven & Seven Is/Prettiest Cop On The Bloc/Don't Talk Old To Me/Generation Landslide '81/Skeletons In The Closet/You Want It, You Got It/You Look Good In Rags/You're A Movie/Vicious Rumours

Zipper Catches Skin (WB, de 1982)

Zorro's Ascent/Make That Money Scrooge's/I Am The Future/No Baloney Homosapiens/Adaptable Anything For Yo/I Like Girls/Remarkably Insincere/Tag, You're It/I Better Be Good/I'm Alive

Dada (WB, 1983)

Da Da/Enough's Enough/Former Lee Warmer/No Man's Land/Dyslexia/Scarlet and Sheba/I Love America/Fresh Blood/Pass The Gun Around

Constrictor (MCA, outubro de 1986) 

Teenage Frankenstein/Give It Up/Thrill My Gorilla/Life And Death Of The Party/Simple Disobedience/The World Needs Guts/Trick Bag/Crawlin'/Great American Success Story/He's Back (The Man Behind The Mask)

Raise Your Fist And Yell (MCA, 1987)

Lock Me Up/Give The Radio Back/Freedom/Step On You/Not The Kind Of Love/Prince Of Darkness/Time To Kill/Chop, Chop, Chop/Gail/Roses On White Face

Trash (Epic, agosto de 1989)

Poison/Speak In The Dark/House OF Fire/Why Trust You/Only My Heart Talkin’/Bed Of Nails/This Maniac’s In Love With You/Trash/Hell Is Living Without You/I’m Your Gun

Hey Stoopid (Epic, 1991. CD: junho de 1992)

Hey Stopid/Love’s A Loaded Gun/Snakebite/Burning Our Bed/Dangerous Tonight/Might As Well Be On Mars/Feed My Frankenstein/Hurricane Years/Little By Little/Die For You/Dirty Dreams/Wind-Up Toys

The Last Temptation Of Alice (Epic, 1994)

Brutal Planet (abril de 2000)

Brutal Planet/Sanctuary/Wicked Young Man/Gimme/Blow Me A Kiss/Cold Machines/Take It Like A Woman/It’s The Little Things/Pessi-Mystic/Eat Some More/Pick Up The Bones

Há ainda um disco semi-oficial gravado ao vivo em Toronto em 1969 e com dezenas de reedições econômicas em CD. As faixas estão todas com títulos inventados (são quase todas do primeiro LP); uma faixa, “Ain’t It Just Like A Woman”, nem é Alice Cooper, e sim outro artista – pois é, trata-se do equivalente cooperiano dos Beatles In Hamburg da vida (uma ou outra faixa do álbum duplo Live at The Star-Club 1962 não é com os Beatles e sim outros grupos que se apresentaram no mesmo local e época).

Menção honrosa também para duas faixas que só saíram em discos flexis promocionais, “Nobody Likes Me” (1971), distribuído durante shows do disco Killer, e “Slick Black Limousine” (1973), brinde do jornal inglês New Musical Express – e que apareceu em alguns LPs piratas do Led Zeppelin!





Para terminar, más e boas notícias. Uma página na Internet supimpa sobre Alice Cooper que lá em 2001 serviu de fonte para esta matéria parece ter saído do ar. As boas notícias são duas. Primeira: uma edição da revista Poeira Zine lançou uma bela reportagem sobre a vinda de Alice ao Brasil em 1974. Segunda: não vou trazer para cá as gravações normais de Alice, todas em catálogo, mas sim uma coletaneazinha de regravações por artistas fantasmas - tem até uma que inclui Lilian Knapp e o pessoal do futuro Roupa Nova.

Wednesday, September 24, 2014

BANDA NACIONAL: FINALMENTE O MUNDO PODE OUVIR

Pois é, foi em maio de 2014 que o compositor e guitarrista Lizoel Costa tornou-se o primeiro integrante do Língua de Trapo a virar História. Ele foi também um dos fundadores do programa Rádio Matraca, e obviamente o homenageamos com uma edição especial. O que pouca gente se lembra é o assunto deste tópico: o supergrupo que ele integrou logo após o fim do Língua original em no começo de 1987. Sim, a Banda Nacional, ao lado de outro ex-membro de grupo importante, o cantor, compositor e violonista Gerson Conrad, dos Secos & Molhados. A formação da Banda Nacional era Lizoel na guitarra-solo, Gerson na guitarra-base, André Bedurê (na época se assinando André Sampaio) ao contrabaixo e Paulinho Valença na bateria.

A Banda Nacional infelizmente durou pouco, mas felizmente pelo menos um de seus shows, no igualmente saudoso Espaço Mambembe (no bairro paulistano do Paraíso), em novembro de 1987, foi gravado e pode ser ouvido aqui.



O repertório deste show, preservado nesta fita (perdoem as falhas na qualidade sonora), é:

“Saltando De Banda” (Gerson Conrad)
“Cobra De Vidro” (André Bedurê)
“Pelo Menos Essa Noite” (Paulinho Valença)
“Delírio” (Gerson Conrad/Paulinho Mendonça)
“Paulista Paulista” (?)
“Teias” (Gerson Conrad/Pedro Levitch)
“Caroline Demoníaca” (Lizoel Costa/Ayrton Mugnaini Jr.)
“Modelo” (Gerson Conrad/Francisco Blanco)
“Via Varig” (Gerson Conrad/Francisco Blanco)
“Rosa de Hiroshima” (Gerson Conrad/Vinicius de Moraes)

Sim, temos aqui composições novas de Gerson Conrad ao lado de dois de seus clássicos lançados pelos Secos & Molhados.

A caligrafia no rótulo da fita é do próprio Lizoel, e a fita está em poder de Gerson, que gentilmente ma emprestou (falei bonito, né?) para digitalizar e divulgar aqui. E me orgulho também de ter uma pequena parte na história da Banda Nacional, pois, como vocês devem ter notado, uma das canções do repertório (e também um dos maiores sucessos dos shows), "Caroline Demoníaca", é uma das minhas parcerias com Lizoel da época do Língua, parte do repertório de uma de minhas bandas dos anos 1980, a quase famosa Galileu, e vinte anos depois regravada por outra banda minha, TONQ, mas com letra modificada, e que pode ser conferida aquiE neste show da Banda Nacional ouvimos Lizoel dizer que para tocar "Caroline" usou uma guitarra brasileira em minha homenagem...

SLADE: NÓIS É NOIZE

Atendendo a vários pedidos - não meus, e sim de pessoas fãs de rock dos anos 1970 - , trago para cá uma matéria que escrevi na revista Metal Massacre em 2001 (vale lembrar que o editor era o emérito René Ferri) sobre a banda inglesa Slade, uma de minhas preferidas desde então até hoje.

Não atualizei o texto, mas o "remasterizei" e "remixei" corrigindo alguns errinhos.

Como fundo musical, e para mais curiosidade, não incluí gravações originais do Slade, em catálogo em lojas físicas ou virtuais, mas sim uma coletaneazinha de regravações raras e curiosas, a maioria "covers" fantasmas do tipo Top Of The Pops (quase sempre muito bem feitas, exceto detalhes como a guitarra em "Gudbuy T'Jane" e o vocal em "Take Me Bak'Ome"), e até uma versão brasileira.

(Ah, sim: o Slade marca presença em minha pesquisa sobre música e circo graças à capa do álbum Nobody's Fools.)

SLADE

por Ayrton Mugnaini Jr.

Um dia, se me deixarem, lanço um livro sobre todos os artistas de que gosto desde a juventude, pouco me importando se o mundo em volta os odiasse. Por enquanto, graças a Deus e à Metal Massacre, vou apresentando tal livro em doses homeopáticas, um ou dois artistas por número da revista. E quantos discordarão de que o Slade havia de ser um dos primeiros?

Na época de maior sucesso do Slade, a primeira metade dos anos 1970, ele parecia ser apenas mais um expoente do “glam-rock”, uma evolução do bubblegum, com ritmos pulsantes, guitarras altas e distorcidas e melodias pegajosas, estilo este que fez a glória de artistas como Suzi Quatro, Gary Glitter, Mud, Sweet e os mais sofisticados David Bowie, Roxy Music e Mott The Hoople. Mas o velho e bom distanciamento histórico nos permite ver e ouvir que o Slade não só foi um dos melhores grupos dos anos 1970, como também dos mais influentes. Basta prestar atenção e, como diz o próprio Slade, sentir o barulho: ouça “We’ll Bring The House Down” para ver de onde o Kiss tirou o “ê-ê-ê-ê, êêêê!” de “I Love It Loud”, e imagine como seriam as carreiras de Bon Jovi, David “Whitesnake” Coverdale e outros mestres da balada pesada se o Slade não houvesse gravado “Everyday”, “She Did It To Me”, “My Oh My”... Sem falar no Quiet Riot, cujos dois maiores hits foram justamente “Cum On Feel The Noize” e “Mama Weer All Crazee Now”, covers você já sabe de qual banda. E quem disse que o Oasis é um Beatles frustrado? É também um Slade frustrado, já que gravaram “Cum On Feel The Noize” e Noel Gallagher acaba de regravar “Merry Xmas Everybody” (hino natalino roqueiro que rivaliza com “Happy Xmas” de John Lennon). De fato, muito antes do Sonic Youth e outros se tornarem populares com o rótulo “noise”, o Slade já cantava “come on feel the noize” – com “z”, para soar ainda mais “errado”, informal, e barulhento

Por falar em Beatles, o Slade foi louvado como o Beatles dos anos 1970, por vários bons motivos: mesma formação instrumental (duas guitarras sem muito virtuosimo mas bem arranjadas, contrabaixo virtuosístico e bateria simples e segura), compunham quase todos seu próprio repertório e seus raros covers soavam tão pessoais que pareciam músicas próprias (como, por sinal, todo bom cover que se preze, na minha opinião) – dois exemplos são “Hear Me Calling” do Ten Years After (o próprio Alvin Lee agradeceu ao grupo pela pequena montanha em direitos autorais que a regravação no álbum Slade Alive! lhe rendeu) e “Move Over” de Janis Joplin (pelo menos em minha opinião ficou bem melhor com o Slade, já que a Full Tilt Boogie Band tocava muito bem, mas com pouca garra). Mais exatamente, o Slade lembra não os Beatles comportadinhos de “I Want To Hold Your Hand” e “Yesterday”, mas os Beatles barulhentos e descompromissados do “Álbum Branco” (disco que voltará muitas vezes à nossa conversa). O próprio John Lennon era fã do grupo, não obstante o que a imprensa brasílica noticiou na época. Em seu primeiro LP (ainda com o nome Ambrose Slade), o Slade regravou “Martha My Dear”, do (olha ele aí) “Álbum Branco”. E, tal como Lennon, Jim Lea, contrabaixista, principal compositor, líder e arranjador do Slade, é mestre do plágio inspirado. Um exemplo é “Take Me Bak’Ome”, um dos primeiros hits do Slade, admitido pelo próprio Jim Lea: “Afanei um trecho ou dois de ‘Everybody’s Got Something To Hide’ [do “Álbum Branco”, estão vendo só] e ninguém percebeu”. (Por sinal, nenhum artista está imune a semelhanças e “coincidências; ainda no caso do Slade, compare, por exemplo, “Everyday” e “Disney Girls (1957)”, sucesso dos Beach Boys, e “I’m Mee, I’m Now And That’s Orl” – lado-B de “Cum On” – com “The Spider And The Fly” - outro ilustre lado-B, de “Satisfaction” dos Stones - ou “My Oh My” com (escolha) “Theme For Young Lovers” dos Shadows ou o tema do seriado de TV Laramie.)

QUANDO EU TÔ DANÇANDO EU NÃO TÔ BRIGANDO

Duas das grandes distinções e qualidades do Slade são o senso de humor e a ausência de pretensões que não fossem as de fazer dançar e divertir a si mesmos e aos fãs. Interessante é lembrar, quase trinta anos depois, Carlos “Pop” Gouvêa esculhambando o Slade na Folha de S. Paulo por sua “musicalidade vazia” e “letras que não dizem nada”, enquanto elogiava o Made In Brazil pelos mesmos motivos... Afinal, o próprio rock and roll remete à frase do cineasta Samuel Goldwyn, que me permito atualizar: quem quiser passar alguma mensagem, dirija-se à Empresa de Correios e Telégrafos ou mande um e-mail! Outro jornalista (cujo nome me escapa no momento), a meu ver, resumiu melhor o Slade: “Sua música é nada imaginativa, formulaica e monótona, e nos ensina coisa alguma. Mas como soa bem! Batida pesada, ritmo pulsante, letras falando de beber, dançar ou absolutamente nada.” E durante a primeira metade dos anos 1970 o Slade fez questão de ser antiprogressivo e o menos “cabeça” possível até nos títulos de suas músicas, quase todos escritos com uma incorreção gramatical que faz Carla Perez parecer Zélia Gattai e de que Adoniran Barbosa se orgulharia: “Skweeze Me Pleeze Me”, “Gudbuy T’Jane”, “Cuz I Luv You”...

Audições mais atentas mostram que o Slade ia além do mero rock and roll; como bons ingleses, também são fãs de music-hall e jazz tradicional, como denotam “Cuz I Luv You”, “In For A Penny” e a mais obscura “Kill’em At The Hot Club Tonite”. Fãs dos Kinks notam ter o Slade muita influência deles, pela mistura peso+melodia e comunicação com a platéia (mas, ao que sabemos, o único encontro entre ambos os grupos resultou em Ray Davies despejando cerveja em cima de Noddy Holder, com intenções não muito amigáveis). E em 1974 um jornalista inglês disse, de brincadeira, que só faltava sair um disco chamado Symphonic Slade. Imagino qual terá sido ou seria sua reação, quase trinta anos depois, ao ouvir Julian Kershaw, grande autor de trilhas de filmes, e seu arranjo para quarteto de cordas de “Merry Xmas Everybody”...

Como grupo, o Slade também é (ou pelo menos era) imbatível, o típico resultado-maior-que-a-soma-das-partes. O vocalista e guitarrista-base Noddy Holder (nascido em 1946) chamava atenção não só por sua voz, uma das melhores e mais potentes de todo o rock, mas também por sua presença de palco e domínio da platéia – “uma versão mais amigável do Diabo da Tasmânia”, segundo o jornalista Ken Sharp. Suas principais influências como cantor são Al Jolson (um dos maiores cantores pop pré-rock) e Little Richard (o maior de todos os gritadores do rock). Dave Hill (nascido em 1946), guitarra-solo, compensa o fato de ser nanico usando roupas e guitarras as mais gritantes (em ambos os sentidos, no caso do instrumento). Jim Lea (nascido em 1949), virtuose do contrabaixo e ainda versátil o bastante no violino e teclados, tem talento especial para melodias simples e grudentas – como resumiu um crítico inglês, “o Slade não tenta compor sucessos, sabe que os está compondo”. E vejam só, crianças, como as aparências enganam: o baterista Don Powell (nascido em 1946), geralmente o membro do Slade menos lembrado, foi nada menos que o responsável pela formação e união do grupo. Mais um detalhe: a exemplo dos Beatles com Liverpool e os Animals com Newcastle, foi o Slade que colocou no mapa do rock a grande cidadezinha de Wolverhampton, famosa por suas indústrias de engenharia e metalurgia (bem apropriada, portanto, para um grupo de metal) e que hoje tem cerca de 300 mil habitantes.

VENTOS BRAVIOS ESTÃO SOPRANDO

O Slade é um caso raro (ao lado do Creedence, Elton John, David Bowie e outros) de artista que batalhou anos até chegar ao estrelato, mas mantém o pique e a jovialidade, quando finalmente estoura, e todo mundo pensa que é “novo talento”. O Slade nasceu da confluência de duas bandas, Steve Brett & The Mavericks (da qual veio Noddy Holder) e The Vendors (onde tocavam Dave Hill e Don Powell), que surgiram em 1964, gravaram alguns compactos ou demos. Em 1965 Dave Hill e Don Powell formam outra banda, The ‘N Betweens, que grava algumas faixas, produzidas por Bobby Graham (um dos maiores bateristas de estúdio da Inglaterra, aquele que tocou nas primeiras gravações dos Kinks e em muitas do Dave Clark Five) mas que , veja só, lançadas apenas na França); no ano seguinte os ‘N Betweens mudam de formação e se tornam um quarteto, com Jim Lea e Noddy Holder – isso mesmo, o Slade com outro nome, e que grava mais um compacto, um cover de “You Better Run” dos Rascals – desta vez o produtor é o estadunidense malucão Kim Fowley (cujo currículo inclui Gene Vincent, Soft Machine, John Cale, as Runaways e muitos outros). Todas estas gravações pré-Slade foram reunidas, e ainda por cima com faixas inéditas, num CD indispensável para pessoas fãs e pesquisadoras, The Genesis Of Slade, lançado em 1996.

Em 1969, após uma infinidade de shows, os ‘N Betweens chamam a atenção da gravadora Philips, que os contrata e sugere que mudem de nome. Uma das sugestões é Nicky Nacky Noo (que tal?), mas logo surge uma melhor: Ambrose Slade, inspirada na secretária de um alto funcionário da Philips, a qual tem o costume de dar nomes a tudo: Ambrose era sua bolsa e Slade seus sapatos. Com tudo em cima, o Ambrose Slade grava o primeiro LP, Beginnings, que não chega a ver a cara das paradas, mas chama atenção para o grupo – especialmente Chas Chandler, ex-contrabaixista dos Animals e um dos melhores empresários de todos os tempos, que poucos anos antes guindara Jimi Hendrix ao megaestrelato. Ao ver um show do Ambrose Slade, Chandler resolve se tornar seu empresário e produtor; sendo grandes admiradores de Chandler, os rapazes sobem pelas paredes. Uma das primeiras providências de Chandler é encurtar o nome do grupo, para Slade. E um de seus raros erros como empresário – na verdade idéia de Keith Altman, assessor de imprensa do Slade – é promover o grupo como “skinhead”, cabeças raspadas e tudo – só que, ontem como hoje, os skinheads de verdade (não contando os mais radicais, adeptos da violência) se distinguem por serem fãs de música jamaicana, e a experiência dura pouco, para alívio de todos, como resume Jim Lea ao recordar o primeiro show do grupo como “skinheads” de butique: “Havia um espelho na outra ponta do salão e podíamos nos ver enquanto tocávamos. Parecíamos horrendos.”

DESCE E ARRASA!

Em 1970 Chandler transfere o Slade da Philips para a Polydor, o que na prática dá no mesmo, já que ambas as gravadoras pertencem à PolyGram, mas a Polydor anda mais presente nas paradas de sucesso. Neste ano sai Play It Loud, primeiro LP do grupo com o nome Slade, que chama atenção por boas músicas do próprio grupo (“Know Who You Are”, “Pouk Hill”) e regravações aparentemente díspares, mas que se revelam adequadas: “The Shape Of Things To Come” (dos norte-americanos Max Frost & The Troopers, composição da dupla Mann & Weil e sucesso na trilha do filme Wild In The Streets, em português O Grito Da Liberdade) e “Could I”, veja só, do Bread (banda tida como muita gente boa como apenas “melosa”). Em 1971, o Slade finalmente conquista as paradas (pois é, nem aqui escapamos dos aniversários redondos, 30 anos de sucesso – e, para completar, dez anos dos primeiros CDs do Slade!), com “Get Down And Get With It”, de Bobby Marchan, sucesso de Little Richard e que se torna uma das mais emblemáticas do repertório do grupo. Incentivados por Chandler a dependerem cada vez menos de músicas alheias, começam a se aventurar compondo; logo descobrem que Jim Lea e Noddy Holder são os mais fluentes e inspirados para compor, nascendo assim a dupla Lea & Holder, os legítimos Lennon & McCartney dos anos 1970. (Tudo bem, não pretendo brigar com quem preferir Page & Plant, os Lennon & McCartney do heavy, vá lá que seja.) Então o Slade emplaca hit atrás de hit, e inclusive os LPs fazem sucesso: Slade Alive! (1972), um dos melhores discos ao vivo de todos os tempos; Slayed? (1973), com “Gudbuy T’Jane” e “Mama Weer All Crazee Now” (curiosidade: compare “I Don’ Mind” com a homônima do posterior Wonderworld do Uriah Heep); Old, New, Borrowed And Blue (1974), onde se destacam “My Friend Stan” e a balada “Everyday”.

Tamanha é a boa sorte do Slade neste período que nem mesmo um grave acidente automobilístico estraga a festa. Em 1973 o carro de Don Powell esborracha-se contra um muro; sua namorada, Angela Morris, morre, e ele escapa da morte por pouco, mas perde olfato e paladar e passa a ter lapsos de memória permanentes. Seus colegas de grupo provam ser realmente amigos leais, dando-lhe a maior força. Os fãs também ajudam muito com votos de restabelecimento; um deles, percebendo que o carro de Powell derrubou um muro defronte à sua escola, escreve: “Da próxima vez, vê se derruba a escola, não só o muro!”

Em 1974 o Slade foi convidado para estrelar um filme; o resultado foi Flame, espécie de autobiografia disfarçada, com o grupo no papel de outro grupo, chamado justamente Flame; o filme (não lançado comercialmente no Brasil) tornou-se objeto de culto e mais tarde foi reconhecido como bom filme de rock. Enquanto isso, o disco da trilha sonora, Slade In Flame (1974), manteve o grupo nas paradas, puxado pela balada folkosa “Far Far Away” e a “progressiva” “How Does It Feel” – resumida por um fã como “o ‘Álbum Branco’ [não falei?] numa faixa só, com metais e tudo”. (A edição ianque do LP tirou duas faixas e incluiu outras duas, sucessos na Inglaterra em compactos, “Bangin’ Man” e “Thanks For The Memory”.)

VEJAM O QUE VOCÊS FIZERAM

Infelizmente, o Slade, a exemplo de outros artistas ingleses como T. Rex, Sweet e Oasis, não conseguiu repetir nos EUA – o maior e mais poderoso mercado fonográfico do mundo – o mesmo sucesso que emplacou em casa e em outros países. Embora a crítica ianque elogiasse o Slade, o grande público não o recebeu tão bem, talvez por considerá-lo britânico demais (inclusive, em algumas cidades dos EUA o filme Flame teve de ser legendado!). De modo que o Slade desperdiçou energia e atenção com um público que não o queria (e que talvez nem merecesse coisa melhor), chegando a fixar residência nos EUA e conseqüentemente descuidando da velha e boa Inglaterra. De modo que em casa os discos começaram a vender menos, o que é uma pena, pois ainda têm seus bons momentos. Vejamos:

Nodoby’s Fools (1976), gravado quase todo nos EUA e com influências locais, inclusive vocais femininos e um pouco de reggae e r&b (à moda do Slade, é claro) inclui dois hits, a balada lennonesca “In For A Penny” e “Let’s Call It Quits”, imitação de “Play Something Sweet”, do mestre do r&b Allen Toussaint. Whatever Happened To Slade (1977) ironiza o sumiço do grupo das paradas já a partir do título (“o que quer que tenha acontecido com o Slade”), e apenas uma faixa fez sucesso, “Gypsy Road Hog”. Slade Alive Vol. 2 (1978) repetiu a fórmula do primeiro volume, mas não o sucesso. Return To Base (1978), apesar de incluir muitas boas faixas (“Wheels Ain’t Coming Down”, “I’m A Rocker”), vende quase nada.

A esta altura, o Slade está quase totalmente desanimado, e só não está na pior graças a muitos shows em barzinhos e aos direitos autorais de suas gravações mais antigas, que ainda vendem muito bem. Até que, em 1980, o Slade é convidado para tocar (preencher uma vaga, na verdade) no Reading Rock Festival. A princípio, o grupo recusa, mas Chas Chandler (em uma de suas últimas atuações como empresário do grupo, antes de deixar o posto amigavelmente) os convence com um excelente argumento: “Se o grupo tiver de acabar, que seja em grande estilo”. Resultado: esta edição do Reading passou à História como aquela em que o Slade roubou o show, sendo a única atração do evento não recebida com latadas ou garrafadas. Então o grupo cria alma nova, inclusive nas paradas de sucesso.

VAMOS BOTAR A CASA ABAIXO

No LP We’ll Bring The House Down (1981, que inclui algumas gravações de Return To Base) a faixa-título é o grande destaque; o álbum seguinte, Till Def Do Us Part (1981, mais conhecido no Brasil não pelo trocadilho do título, mas sim pela capa, o “Slade da orelha”), também vende bem, puxado pela faixa “Lock Up Your Daughters”. 1982 traz o terceiro (e muito bom) disco ao vivo, Slade On Stage; em 1983 é a vez de The Amazing Kamikaze Syndrome (retitulado nos EUA com o nome de outra faixa, Keep Your Hands Off My Power Supply), que traz outros megasucessos, “My Oh My” e “Run Runaway” (que se torna grande sucesso até nos EUA e foi usada por nosso amigo Leopoldo Rey como tema de abertura de seu programa Momento Do Rock na FM 97, algum aí se lembra?). Rogues Gallery (1985) é quase uma coletânea de sucessos: “All Join Hands”, “Little Sheila”, “Seven Year Bitch”, “Mysterious Myster Jones”. E quem inspirou o título do disco seguinte, You Boys Make Big Noize (“vocês, rapazes, fazem barulhão”, 1987), foi Betty, a moça (ou senhora) que servia o chá no estúdio Wessex, onde o Slade gravou o disco, cujo hit foi “Still The Same” (não é a mesma do Bob Seger, mas uma baladona igualmente boa).

Em 1989 o Slade passa por mudanças. Dave Hill grava um disco-solo; Don Powell assume uma loja de antigüidades; Jim Lea passa a produzir discos de bandas heavy; Noddy se torna apresentador numa emissora de rádio em Manchester e da emissora de TV Granada (lamentável desperdício de uma das melhores vozes do rock, segundo alguns fãs), começa a gravar muitos jingles e sai amigavelmente do grupo. “Eu sinto falta das duas horas no palco, mas não do resto – as viagens, quartos de hotel, camarins, ficar enfiado em aeroportos. É preciso lembrar que o dia tem 22 horas além das duas no palco”, disse Noddy à revista Record Collector. “Após 25 anos com os mesmos caras, eu não via para onde mais poderíamos ir, não tínhamos mais assunto, mais músicas para compor que soassem novas e frescas. Os outros não perceberam isso, mas eu percebi.” Jim Lea sai praticamente em seguida: “Sem Noddy é forçar a barra, é ridículo”, justifica.

Mas, mesmo com mudanças, a vida continua. Dave Hill e Don Powell seguem em frente como Slade II, incluindo novo vocalista (Steve Whalley); em 1993 lançam um disco, Emergency! (saiu aqui pelo selo Spider), e continuam por aí fazendo muitos shows e gravando de quando em vez.

E a troca de milênio também traz novidades. Jim Lea lança seu primeiro compacto-solo, “I’ll Be John, You Be Yoko” (e viva o “Álbum Branco”!). Sai Who’s Crazee Now?, autobiografia de Noddy Holder. Temos também o primeiro disco-tributo, Slade Remade, com participações de Chris Farlowe e (esta é para pensar) Rick Wakeman.

Para terminar, uma bela frase, ou melhor, um conselho de Noddy para aspirantes a músicos: “Só prossigam na carreira se gostarem dela cem por cento... e mantenham o senso de humor, porque irão encontrar muita tristeza no caminho!”

Sunday, September 14, 2014

GENTE QUE FAZ MESMO NÃO FAZENDO: ARTISTAS BRASILEIROS NÃO ROQUEIROS QUE GRAVARAM ROCK

O quê os LPs abaixo têm em comum? São parte de uma de minhas pesquisas-manias-obsessões atuais: discos de artistas brasílicos (ou radicados no Brasil) não-roqueiros que gravaram algum rock de 1955 a 1965. Pretendo reunir todos e lançar em livro, à maneira de um similar, Rock Brasileiro: Trajetória, Personagens E Discografia, do amigo e colega Albert Pavão.
Esta empreitada é bem mais modesta que as de Zezo Freitas, o magnata dos transportes que quer ter todos os discos do mundo, ou de Jorge do Feirão Um Milhão de Discos, o engenheiro que se contenta com todos os LPs de 10 polegadas, jingles publicitários e assuntos específicos como festivais. Numa estimativa que espero não ser muito imprecisa, todos os discos (LPs de 10 e 12", compactos, 78 RPM, de grandes gravadoras ou independentes) que atendem a esta pesquisa - rock (rock and roll, rock-balada, hully-gully, twist, calipso e fusões como samba-rock e rock-baião) gravado por artistas (cantores e cantoras, solistas, conjuntos, orquestras de baile, humoristas, palhaços, atores/atrizes) não de rock - totalizam uns 4 mil lançamentos. Já tenho em mãos uma décima parte; pretendo reunir todos, como afirmei, e ir anotando os dados (incluindo datas e micro-biografias dos artistas). Alguns são pau-de-sebo (Sylvio Mazzucca, os Velhinhos Transviados, Pocho), outros são mais raros (Gordurinha, Luiz Wanderley, Viva A Brotolândia de Elis; o Louco Por Friboi eu tenho em CD-R e já serve assim mesmo). Sei que é uma obra um pouco faraônica e que exige a paciência e atenção de sempre, mas acho que termino e lanço o livro daqui a uns cinco anos.
Aceito colaborações, doações e vendas a preço justo. Ah, sim: pretendo vender todo ou quase todo este lote ao concluir o livro, mas por ora não adianta vir pedindo "me vende esse ou aquele"...






UM TERÇO INTEIRO EM 1974

Do já famoso arquivo de fitas cassete que "herdei" de um fã de rock que gravava programas de rádio nos anos 1970, acervo este sobre o qual já falei neste blog, aqui vai mais uma amostra: uma entrevista de Sérgio Hinds, guitarrista e líder da banda O Terço, para o programa Pop Time, transmitido em 17 de março de 1974 - sim, o ano que inspiraria uma das canções do lado progressivo da banda. Aqui vai o encarte da fita conforme anotado por esse fã, e o programa pode ser ouvido aqui.


Friday, July 04, 2014

CEM ANOS DE CHARME CHULO CIRCENSE

Um de meus orgulhos – sei que já lembrei isso neste espaço, mas, como dizia Nelson Rodrigues, “tudo que se publica uma única vez continua inédito” – é ser autor da primeira grande pesquisa sobre música e circo em nível mundial, a pedido do Centro de Memória do Circo, primeiro órgão governamental brasileiro (pertence à Prefeitura de São Paulo) a recolher e preservar os chamados saberes circenses, localizado na Galeria Olido, bem em frente ao Largo do Payssandu. Tal pesquisa pode ser conferida no próprio CMC e, parcialmente, na bela exposição multimeios Circo Da Gente, em cartaz no SESC Santo André até 2 de novembro (detalhes aqui). E aqui vai uma parte desta pesquisa, interessante não só para fãs de circo, mas também de folclore musical.

"Chula" é palavra que, além de significar coisa reles ou sem valor, designa qualquer verso cantado e é o nome de um ritmo e de uma dança muito animadas e bem marcadas com zabumba, chocalho e triângulo, com harmonia e melodia tocadas com viola (antecessora de nossa viola caipira), sanfona e rabeca. A marcação da chula é parte da origem de quase todos os ritmos nordestinos e também aclimatou-se no Sul do Brasil, especialmente Rio Grande do Sul e Santa Catarina, fundindo-se ao lundu, ritmo ancestral do samba; esta fusão foi entusiasticamente adotada pelo circo brasileiro, surgindo as chamadas chulas-de-palhaço – a mais famosa é a muito cantada, citada e plagiada “Ó Raio, Ó Sol” (pelo menos é o nome que eu suponho ser).

“Ó raio, ó Sol! Suspende a Lua!
Bravos ao palhaço que está na rua!
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim, senhor!
Hoje tem marmelada?
Tem, sim, senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem, sim, senhor!
E o palhaço, o que é?
É ladrão de mulher!”

“Ó Raio, Ó Sol” é uma espécie de “Rock Around The Clock” ou “Pelo Telefone” da música circense brasileira, espécie de marco zero ou pedra de toque de um gênero e grande sucesso desde sempre, inclusive em gravações, e que ajudou muito a definir e promover a música brasileira de circo. De “Ó Raio, Ó Sol” não sabemos a autoria, mas temos a data de seu surgimento, o ano de 1882, e a gravação mais antiga que descobri até agora é de 1912 – um ano antes do nascimento do grande cantor Carlos Galhardo, que gravou a citação mais famosa dessa chula, incluída na marchinha “O Palhaço, O Que É?”, clássico do carnaval brasileiro.

Como muitas canções populares, folclóricas ou não, “Ó Raio, Ó Sol” tem tido muitas variantes, intencionais ou não, por intenção paródica ou falha ao entender a letra original. Consta que a versão original diz

“Ó raio, ó Sol
Que esplende a Lua
Olha o palhaço
No meio da rua”

Carlos Galhardo cantou:

“Ó raio, ó Sol
Que eu sei da Lua
Traz o palhaço
Pro meio da rua”

Na bela história musicada infantil O Circo Cheio De Lua, lançada pela Editora Abril em 1982, temos esta versão simples, objetiva e conciliatória:

“Ôi, viva o Sol, ôi, viva a Lua!
Viva o palhaço no meio da rua...”

Esta é a versão usada em “Viva O Palhaço”, marcha de Haroldo Lobo e Milton de Oliveira gravada por Dircinha Baptista em 1954. Treze anos depois, sua mana Linda Baptista soou bem menos conciliatória quando participou do Segundo Concurso de Músicas de Carnaval (promovido em 1967-68 pela TV Excelsior com a Secretaria de Turismo do então Estado da Guanabara) defendendo o samba-batucada “Palhaço”, de Getúlio Macedo e Jonas Garrett. O samba, uma das 36 canções selecionadas entre quase 3 mil, cita o palhaço no adjetivo (“você me fez de palhaço”) e começa assim:

“Eu vi o Sol
Brigar com a Lua
Olha o palhaço
No meio da rua”

Pois é, Linda e sua irmã Dircinha Baptista fizeram sucesso cantando em dupla e separadas – e cada uma gravou uma canção diferente que cita “Ó Raio, Ó Sol”.

Seria a expressão “suspende a Lua” uma alusão a iluminação artificial (a velas e lamparinas antes da energia elétrica) para a atuação noturna do palhaço? Certamente, outras paródias e versões incluíram “bravos ao velho que está na rua” e, alusão às reformas urbanísticas de Francisco Pereira Passos, prefeito carioca de 1902 e 1906, “bravos ao velho que alarga a rua”; realmente, Passos não era do tipo adepto a mudar tudo sem mexer em nada.

Há muitas outras variações da chula “Ó Raio, Ó Sol” conforme a época e a região do país, de pelo menos uma de suas três frases mais famosas: a introdução (“ó raio, ó Sol” etc.), “hoje tem espetáculo? Tem, sim, senhor” e “o palhaço, o que é? É ladrão de mulher”. Muitas destas variações são adaptações profissionais que se “esquecem” (com ou sem aspas) de dar crédito ao folclore ou usam a chula sem muita imaginação. Temos também citações criativas como “O Circo Chegou” de Jorge Ben Jor e “Sonhos De Um Palhaço” de Antônio Marcos.

E aqui vai minha primeira coletânea de gravações que citam a chula “Ó Raio, Ó Sol”, não só como aperitivo para a exposição Circo Da Gente no SESC Santo André, mas também minha pesquisa para o Centro de Memória do Circo e o livro que estou escrevendo sobre o circo e a música brasileira, previsto para o ano que vem ou o seguinte (vai ter detalhes e histórias sobre canções, artistas e sobre gravações, selos e capas de discos, cartazes de circo, fotos e muito mais, aguardem!).

Além de Linda e Dircinha Baptista gravando adaptações diferentes da chula “Ó Raio, Ó Sol”, temos nesta coletânea outras curiosidades como Ivon Cury e Claudia gravando arranjos diferentes da mesma adaptação, Pedro Celestino soando quase tão trágico quanto seu irmão Vicente, um registro do (ao menos para mim) misterioso palhaço (pernambucano?) Relin, uma marcha hoje obscura cantada por Mauro Rosas que é um protesto sutil contra a ditadura militar (“só na esperança de ver/o leão comendo o domador”) e uma prata da casa, composta por este que vos escreve agora em 2014 – completando e ultrapassando, assim, cem anos de presença da mais famosa chula de palhaços na MPB.

“Circo De Cavalinhos Na Roça” (autoria desconhecida) – artista desconhecido da Casa Faulhaber – 1912

“O Palhaço, O Que É?”(Alcebíades Barcelos “Bide”/Paulo Barbosa) – Carlos Galhardo – 1936

“História de Circo” (Edgar Barroso e Paulo McDowell) – Pedro Celestino – 1941

“O Circo Chegou” (Antonio Almeida/João de Barro/Alberto Ribeiro) – Sylvio Caldas – 1949

“Viva O Palhaço” (Haroldo Lobo/Milton de Oliveira) – Dircinha Baptista – 1949

“O Circo (Pregão Circense)” (Zé Dantas) – Ivon Cury – 1958

“O Palhaço, O Que É?” (Luiz Caetano/Luiz Queiroga/Relin) – Relin – 1960

“Palhaço” (Getúlio Macedo/Jonas Garret) – Linda Baptista – 1967

“O Circo (Pregão Circense)” (Zé Dantas) – Claudia – 1973

“Por Quê Choras, Palhaço?” (Expedito Batista) – Tião Motorista – 1978

“Sonhos De Um Palhaço” (Sérgio Sá e Antônio Marcos) – Vanusa – 1974

“Hoje Tem Marmelada” – samba-enredo da Portela para o Carnaval de 1980 – 1979

“Ó Viva O Sol, Ó Viva A Lua” (folclore) – elenco da história musicada O Circo Cheio De Lua – 1982

“Pão e Circo” (folclore) – Maracatu Nação Pernambuco – 1993

“Canções De Palhaço” (folclore) – Companhia Carroça de Mamulengos – 1996

“Hoje Tem Espetáculo?” (folclore) – Parlapatões, Patifes e Paspalhões – 1999

“O Grande Circo Místico” (Beto Corrêa/Dico da Viola/Jefinho/Marquinho Índio) – samba-enredo da escola de samba Mocidade Independente de Padre Miguel para o Carnaval de 2002
Gravação: 2001

“O Circo” (adaptação de Tito Rolenberg) – Tito Rolenberg e Xote de Viola – c. 2006

“Meia Lua – Chula Dos Palhaços” (folclore) - Os Mensageiros Dos Santos Reis – 2010

“O Circo Chegou” (Luiz de França/Vargas Jr./Álvaro Mattos) Mauro Rosas –  1973


“Serenata Chula” (Ayrton Mugnaini Jr.) Ayrton Mugnaini Jr. – 2014