Sunday, July 05, 2015

POSSO DAR UMA CANJA... COM UMA CANÇÃO MINHA EM MEU PRÓPRIO DISCO?

Vejam o que é sincronicidade... Justamente quando eu ia fazer a redação final deste texto, concluí a leitura de uma bela fonte para minhas pesquisas sobre MPB e circo e a relação entre religião & rock brasileiro: o livro Aquarelas Do Brasil, coletânea de contos e trechos de romances brasileiros que citam música popular, organizada por Flávio Moreira da Costa. A antologia inclui um conto do próprio FMC, e ele apresenta justificativa que apóio e complemento: o Brasil tem a ideologia da “falsa modéstia”, da “culpa” católica, da inveja fazer-sucesso-é-ofensa-pessoal; portanto, neste país uma pessoa citar a si mesma é “falta de ética”, “auto-referência” como ofensa ou “excesso de ego”, ao passo que nos EUA e Europa, como lembra FMC, a auto-inclusão em antologias é não só autorizada como também esperada – afinal, concluo, uma pessoa que divulga tantas outras tem direito a um pouco de auto-promoção... Isso serve como boa introdução para o tema deste texto: artistas que dão canja autoral em seus próprios discos-tributos ou temáticos, por vaidade, ganância, prazer ou até um pouco de cada, e dos quais este texto é apenas um ligeiro apanhado.

MÚSICA TUA, MAESTRO!

Por exemplo, o maestro e trombonista Ray Conniff variou um pouco a fórmula de seus álbuns dos anos 1960 e 1970, reunindo arranjos suaves para sucessos do momento, incluindo uma ou outra composição própria, e com o lembrete “Composta por Ray”, canções que, se não memoráveis, tampouco ofensivas.


Idem, no Brasil, o maestro e violonista Waltel Blanco, de quem tenho em mãos dois LPs “fantasmas” (lançados com crédito a orquestras e conjuntos “ad hoc” formados por ele e outro pessoal de estúdio) de fins dos anos 1960: Muito Legal - Linha Jovem, creditado a The Song Boys, e Direcional, pelo Conjunto Itam (“Itam” de Itamaraty, nome da gravadora); em cada um destes LPs  Waltel incluiu, ao lado de sucessos do momento, uma composição própria (e instrumental), respectivamente “Inédita” e “Dixie Da Gata”, garantindo assim alguns trocados de direitos autorais. 




(Esses LPs são tão raros e obscuros que já foi difícil conseguir essas reproduções quase virtuais das capas; tentarei obter e trazer melhores, podem me cobrar.)

Outro brasileiro que fez a mesma coisa, só que não como artista e sim como produtor, foi Raul Seixas, que produziu vários LPs da série Lafayette Apresenta Os Sucessos do tecladista Lafayette e, em meio a hits da ocasião, incluía em cada LP uma ou duas de suas composições (“Último Da Lista”, “Nasci Pra Te Amar”).


PEDRAS SOBRE PEDRAS

Obviamente, tal prática não é privilégio do Brasil... A música pop, como toda indústria cultural, exige e forma repertório; o que não falta são álbuns inteiros de artistas os mais diversos, de pop, rock, jazz, samba e até música erudita ligeira, interpretando canções de musicais como My Fair Lady e Hair! e de compositores de sucesso como,por exemplo, ninguém menos que os Rolling Stones, artistas cuja notoriedade inicial foi como intérpretes de outros artistas, como Chuck Berry e Willie Dixon, mas logo perceberam – instados pelo empresário e produtor Andrew Oldham – que a fonte de renda musical em médio e longo prazo era investirem em si mesmos como compositores; no início de 1966 eles já haviam se afirmado como tal, graças a sucessos como “Satisfaction”, “As Tears Go By”, “The Last Time” (embora “baseada” num clássico do gospel) e “19th Nervous Breakdown”. O próprio Oldham não perdeu tempo em lançar em 1966 o álbum The Rolling Stones Songbook, creditado à “Andrew Oldham Orchestra” (na verdade pessoal de estúdio com arranjos e direção musical de David Whittaker) e incluindo dez hits dos Stones, compostos por eles ou não, junto a... isso mesmo, um “Theme For A Rolling Stone” escrito pelo próprio Oldham (embora haja quem conteste dizendo que a autoria seja de Jagger & Richards).


Em 1966 houve ainda outro tributo-com-bônus aos Stones, e de quem menos se esperaria: Joe Pass, um dos melhores guitarristas de jazz, com o álbum The Stones Jazz. É forçoso reconhecer que as melodias dos Stones não eram tão ricas quanto as de Lennon & McCartney, quanto mais as de Gershwin, Porter, Berlin e quetais, mas Pass fez o que pôde – afinal, Dave Brubeck havia gravado um álbum de canções country transformadas em jazz, e em meados dos anos 1960, não obstante o sucesso da bossa nova e da força da natureza que era Louis Armstrong, o que mais vendia não era jazz e sim rock, pop e folk – , e o resultado é um álbum interessante e agradável de jazz-muzak, com direito a uma faixa que garante sua inclusão neste artigo: “Stone Jazz”, composição do próprio Pass.


DAQUI, DALI E DE TODA PARTE (CALMA, AINDA NÃO)

Indústria cultural que se preza é produtiva, e a referida dupla do produtor Andrew Oldham com o maestro David Whittaker não perdia tempo: em 1964 ela havia pegado carona nos dois mais famosos grupos estadunidenses de antes da Invasão Inglesa, os Beach Boys e os Four Seasons, lançando o álbum East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons (sim, os Four Seasons eram da Costa Leste e os BBS da Oeste), incluindo duas canções menos “hits” e menos “famous”, ambas parcerias de Oldham e Whittaker: “The Lonely Beach Boy” e “There Are But Four Seasons To Every Year”.


E matéria-prima de qualidade vem de toda parte, inclusive do Brasil. Voltando ao jazz, merece ser lembrado o álbum Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova, do cantor Jon Hendricks,lançado em 1961 e que, descontando os equívocos do título (para os EUA toda a América que não fosse os EUA e Canadá era “cucaracha” y bastava ya) e da capa (exemplo de machismo suave), é um bom tributo a João Gilberto – e um raríssimo exemplo onde a faixa “bônus-carona” tornou-se o maior sucesso do álbum: “Jive Samba”, parceria de Hendricks com o saxofonista Nat “Cannonball” Adderley.


YEAH, YEAH, YEAH (AGORA SIM, SIM, SIM)

Quem mais, além de mim, deixaria o mais óbvio para mais tarde? Isso mesmo, álbuns-tributo-com-carona aos Beatles. Lembro-me de alguns. Um é da dupla instrumental estadunidense Santo & Johnny, formada pelos irmãos Santo e Johnny Farina (e muitas vezes compondo em parceria com a mana Ann Farina), mais lembrada hoje em dia pela bela balada “Sleepwalk” (podemos citar também “Love Lost”, regravada pelos Clevers/Incríveis) e de muito sucesso na era pré-Invasão Inglesa. Quando esta começou, em 1964, a dupla passou recibo referente a ela com o LP The Beatles Greatest Hits Played By Santo & Johnny, que, ao lado de dez hits dos Fab Four, inclui duas canções do trio Farina, “The Beatle Blues” e “The Beatle Stomp”.


Outra dupla de canções-bônus-caronistas do mesmo ano de 1964 está no LP Dance To The Hits Of The Beatles do grande maestro e compositor Jack Nitzsche: “Ringo” (que o público mais velho ou “careta” não deve ter associado com o baterista dos Beatles e sim com Johnny Ringo, notório e legítimo cowboy-fora-da-lei do século 19; mal sabia Nitzsche que iria trabalhar com nosso Ringo, o Starr, no megahit “Photograph”) e “Beatle-Mania”. 


E se os Stones inspiraram um disco de jazz com bônus deste tipo, os Beatles têm pelo menos um, Beatlejazz!, lançado em 1964 pelo pianista Bob Hammer e incluindo entre vários sucessos do grupo a faixa-título, composta por Hammer em parceria com Bob Thiele.


Lembro-me agora de dois exemplos brasileiros – ou melhor, um e meio.

O, digamos, exemplo inteiro é o CD sem título da banda goiana Bitkids, lançado em 1996. Produzido por Renato Ladeira (sim,d’A Bolha e Herva Doce), este disco merece um estudo em separado por vários motivos. Um: o Bitkids era formado por guris nascidos na virada dos anos 1970 para 1980 e, salvo engano, é o primeiro tributo aos Beatles feito por crianças ou adolescentes em todo o mundo. Dois: o repertório é quase todo de versões em português feitas nos anos 1960, antes de Yoko Ono apertar o cerco e dificilmente liberar novas versões de canções de Lennon & McCartney; além de duas “bônus-carona”, temos versões recentes do repertório Beatle, mas de canções não de autoria do grupo e portanto fora da jurisdição de Yoko-san, como “Twist And Shout” (“Chegue Mais, Baby”) e “Please, Mr. Postman” (“Carteiro”). Três: o grupo teve vida curta, e de lá para cá um dos integrantes faleceu, outro seguiu carreira musical e, segundo algumas fontes, nem todos os Bitkids tocam no disco, substituídos por músicos de estúdio. A saga da banda pode ser decifrada em páginas como esta e mais esta.


O outro tributo-aos-Beatles-com-bônus de que me lembro agora é brasileiro-argentino e quase igualmente obscuro. Trata-se do LP duplo Tributo Aos Beatles, creditado a “The Beetles Group”. O álbum pode ser discutido também como “propaganda quase enganosa”: a capa não tem nenhuma foto deste “Beetles Group”, mas tem muitas e muitas fotos dos Beatles e as palavras “Tributo aos...” e “Interpreted by The Beetles Group” em tamanho pequeno o suficiente para serem despercebidas pelo público mais incauto e ao mesmo tempo grande o suficiente para dizermos “quem mandou não prestar atenção”.  Mais: o disco pega carona também na montagem brasileira do musical Beatlemania – só que este traz canções de toda a carreira dos Beatles, ao passo que o álbum duplo em questão só vai até 1965, embora a única faixa “bônus-carona”, “Forever Beatles”, soe ela mesma Beatles de 1966-69, incluindo citações de canções do grupo e até uma de Macca solo! O disco foi produzido por Billy Bond (que havia incluído citações de “Oh! Darling” e “She Loves You” em suas gravações como vocalista do Joelho de Porco), e este LP tem participações de Mauricio Birabent “Moris”, outro grande roqueiro argentino dos anos 1960 e 1970, e, segundo a página Senhor F, o saudoso Wander Taffo (que havia gravado com Bond no álbum de 1977 do Joelho).


E, para completar/complementar, temos algumas ilustrações sonoras: cada um dos álbuns comentados acima está representado por uma das faixas “bônus caronas” e uma faixa que, digamos, pagou ingresso (ou, pelo menos, ajudou a pagar as contas).

Andrew Oldham Orchestra
The Rolling Stones Songbook
Decca
Inglaterra, 1966
“Heart Of Stone” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Theme For A Rolling Stone” (Andrew Oldham)

Andrew Oldham Orchestra
East Meets West – Famous Hits Of The Beach Boys And The Four Seasons
London/Parrot
EUA, 1964
“I Get Around” (Brian Wilson)
“There Are But Four Seasons For Every Year” (Andrew Oldham/David Whittaker)

Beetles Group
Tributo Aos Beatles
Círculo do Livro/Abertura Records
Brasil, 1979
“Wait” (John Lennon/Paul McCartney)
“Forever Beatles” (Billy Bond/Anthony/Moris/Wanderley Patry)

Bitkids
Bitkids
Polydor
Brasil, 1996
“Chegue Mais, Baby” (“Twist And Shout”) (Bert Russell/Phil Medley/versão: Renato Ladeira)
“Noite Maluca” (Hilton Júnior/Ricardo Júnior))

Bob Hammer
Beatlejazz!
ABC
EUA, 1964
“When I Get Home” (John Lennon/Paul McCartney)
“Beatlejazz” (Bob Hammer/BobThiele)

Conjunto Itam (com Waltel Blanco)
Direcional
Itamaraty
Brasil, c. 1968
“A Chuva Que Cai” (“È La Pioggia Che Va”) (“Remember The Rain”) (Bob Lind/versão em italiano: Mogol/versão em português: Antônio Marcos – o selo do LP diz “A. Marco”)
“Dixie Da Gata” (Waltel Blanco)

Jack Nitzsche
Dance To The Hits Of The Beatles
Reprise
EUA, 1964
“It Won’t Be Long” (John Lennon/Paul McCartney)
“Ringo” (Jack Nitzsche)

Joe Pass
The Stones Jazz
Pacific Jazz
EUA, 1966
“19th Nervous Breakdown” (Mick Jagger/Keith Richards)
“Stone Jazz” (Joe Pass)

Jon Hendricks
!Salud! João Gilberto, Originator Of The Bossa Nova
Reprise
EUA, 1961
“The Duck” (“O Pato”) (Jayme Silva/Neuza Teixeira/versão em inglês: Jon Hendricks)
“Jive Samba” (Jon Hendricks/Nat “Cannonball” Adderley)

Lafayette
Lafayette Apresenta Os Sucessos, Volume 10
CBS/Entré
Brasil, 1970
“Sweet September” (Joey Day/Alan Dischel)
“Nasci Pra Te Amar” (Raulzito)

Ray Conniff
Bridge Over Troubled Waters
Columbia
EUA, 1970
“Leaving On A Jet Plane” (John Denver)
“Someone” (Ray Conniff)

Santo & Johnny
The Beatles Greatest Hits Played By Santo And Johnny
Canadian-American
EUA, 1964
“And I Love Her” (John Lennon/Paul McCartney)
“The Beatle Stomp” (Santo Farina/Johnny Farina/Ann Farina)

Song Boys (com Waltel Blanco)
Muito Legal – Linha Jovem
Spot
Brasil, c. 1968
“Because Of You” (Arthur Hammerstein/Dudley Wilkinson)
“Inédita” (Waltel Blanco)


Confira aqui!

Monday, March 30, 2015

THINK FOR YOUR SHELF: DOIS AMIGOS, DOIS LIVROS

Mais uma daquelas coincidências (para quem acredita) que se fossem programadas não dariam certo. Agora em março saíram quase juntos dois livros sobre duas pessoas que são meus amigos dos mais queridos desde que voltei a Sampa em 1978; conheci ambos no ano seguinte, e desde então compartilhamos muita música e fizemos juntos alguma. Um é o DJ, cantor, radialista, escritor e jornalista Kid Vinil, com quem tive as honras de trabalhar na banda Magazine (fizemos muitos shows e em CD, Na Honestidade) e no programa Digital Session na Brasil 2000 FM; o outro é o arquiteto e ilustrador Claudio Finzi Foà, que editou comigo a emérita publicação alternativa ASAS e participou de algumas gravações minhas, notadamente  o quase-sucesso "Tancredo Neves's Dead". Um dos livros é a biografia autorizada Kid Vinil, Um Herói Do Brasil, escrita pelo músico Duca Belintani em parceria com o jornalista Ricardo Gozzi e lançada pela editora Ideal; o outro é o autobiográfico Memories Of A Shrinked Person, também editado pelo próprio Foà.

Outras coincidências são Kid e Foà serem "oriundi" (Kid se chama "al secolo" Antônio Carlos Senefonte), nascidos no interior paulista (Kid em Cedral, Foà em Jundiaí), residentes em Sampa desde piazitos e comemorarem aniversário praticamente juntos, ou quase (Kid nasceu em 26 de fevereiro, segundo sua mãe, e 10 de março, diz sua certidão de nascimento; Foà é seguramente de 28 de fevereiro; Kid veio ao mundo em 1955 e Foà no ano seguinte). E, sim, ambos são palmeirenses. (Por sinal, Foà talvez seja a única pessoa judia que conheço pessoalmente que não é corintiana.)


O livro de Foà é uma divertida narrativa de fatos pessoais, principalmente as internações psiquiátricas por que passou - um dos raros tais relatos brasileiros. Sim, Foà é uma versão bem mais "light" de Arnaldo Baptista, de quem, aliás, é amigo - e parceiro em arte: foi ele quem criou o selo do disco Singin' Alone, adotado pela gravadora, a Baratos Afins, para quase todos seus lançamentos em vinil. Foà explica a razão do título: "shrink", "encolher" em inglês, é também gíria ianque para "psiquiatra". Sim, ele, quase tão fluente em inglês quanto em português e italiano, sempre esteve ciente de que o certo seria "shrunk" e não "shrinked" - mas este ato falho acaba sendo mais um charme e uma distinção. Memories Of A Shrinked Person inclui também poemas, letras e ilustrações de Foà; fui honrosamente citado em parcerias com ele, mas o livro não menciona o ASAS nem "Tancredo Neves's Dead" - se bem que Foà promete que este é apenas seu primeiro livro, outros virão. A primeira edição de Shrinked é "encolhida", limitada e com nova edição prevista para breve; pessoas interessadas podem falar com o autor pelo e-mail finzi.foa@terra.com.br .

Ah, sim: ambos estes livros são saborosos, sucintos e enxutos, cada um com menos de 200 páginas que se leem num instante. Felizmente, em minha opinião, eles nada têm de sensacionalismo, exceto, talvez, as narrativas da única vez em que Kid fumou maconha e de quando Foà foi paquerado pelo filósofo francês Michel Foucault quando este veio ao Brasil (sim, filósofo inteligente,  sensível e de bom gosto). Também fui citado no livro sobre Kid como integrante do Magazine, mas há poucos detalhes sobre o grupo; afinal, o livro é sobre Kid, e o Magazine merece outro (mais que apenas um "magazine") só para ele. O único erro que encontrei é a canção "I'm Gonna Get Married", sucesso com a banda Sunday, onde tocou Ted Gaz, guitarrista do Magazine, ter sido citada como parte da trilha da telenovela Beto Rockfeller; na verdade, foi outra novela, Super Plá. (Lembremos que Duca Belintani, co-autor do livro, também foi integrante do Magazine.) Esta biografia de Kid Vinil já deve ter chegado às livrarias; pode-se falar com a editora pela internet, www.edicoesideal.com.br .

Sunday, March 29, 2015

Ê, TREM BÃO, PONTUAL E SEM PARAR HÁ 50 ANOS

Estão se completando 50 anos do grande sucesso do samba "Trem Das Onze", não só a vencedora do carnaval carioca de 1956, mas também uma das canções brasileiras mais conhecidas em todo o mundo. Aqui vai um "estudo" que produzi para o programa Rádio Matraca sobre este samba.
Adoniran compôs “Trem das Onze” em 1961, mas originalmente o samba era muito longo e Adoniran, que tocava apenas algumas notas no violão e flautim, demorou para conseguir ensiná-lo aos Demônios, e isso causava briga em todos os ensaios do grupo. Os Demônios tiveram de fazer um belo trabalho de copidesque e edição no samba (incluindo a famosa frase "pascalingundum", não "faz caringudum" como muita gente ouve), que ficou pronto em 1964. O disco com “Trem das Onze” foi lançado em agosto e fez tanto sucesso que conseguiu duas grandes façanhas. Uma foi ser a composição mais cantada no Rio de Janeiro, justamente no carnaval de Quarto Centenário da cidade, em 1965. A outra foi se tornar uma das composições brasileiras de maior sucesso no exterior, a partir de uma versão em italiano; inclusive, “Trem das Onze” foi uma das cem canções de maior êxito na Itália nos anos de 1960. Muitos cariocas não se conformaram com o sucesso de “Trem Das Onze”, uma canção paulista até a medula. Houve quem comentasse: “Imagine se carioca, quando está com mulher, vai ligar para horário de trem e mãe esperando em casa.” O grande Stanislaw Ponte Preta, apesar de carioca, não se rendeu ao bairrismo de Vinicius de Moraes e outros, inclusive contestando-o (“São Paulo pode ser o túmulo do carnaval, sim, mas do samba não”), e defendeu entusiasticamente a paulistaníssima “Trem das Onze”. Tanto defendeu que acabou plagiando-a sem querer em sua composição “Samba Do Crioulo Doido”, nesse trecho que acabamos de ouvir. Este samba de Stanislaw foi lançado em 1968 pelo Quarteto em Cy e fez grande sucesso. Ao ser lembrado de que cometera um plágio acidental, Stanislaw não se apertou e disse: "A minha música não fala em trem? Fiz de propósito, pra lembrar mesmo."
Na Itália, onde os trens eram muito mais pontuais que no Brasil, a ênfase da letra de “Trem Das Onze” foi transferida para o amor filial, e a versão chamou-se “Figlio Unico”, composta e gravada em 1966 por Riccardo Del Turco, na mesma levada de sambas à italiana como “Meglio Stasera” e “Quando Quando Quando”.


Uma prova do sucesso mundial de "Figlio Unico" está neste anúncio da Billboard de 7 de janeiro de 1967 (leiam a última, mas não menos importante, linha).



“Figlio Unico”, a versão italiana de “Trem Das Onze”, fez tanto sucesso que não demorou ela mesma a inspirar outras versões. Uma delas é do grupo belgradiano 4M, gravada em 1967 e com o título “Jedinac Sin”, que significa “Filho Único” em iugoslavo. Detalhe: no selo do disco dos 4M aparece apenas o nome de Riccardo Del Turco, não o de Adoniran.
E o cantor espanhol Erasmo Mochi gravou uma versão em espanhol, "Hijo Unico", também em 1967. O próprio Adoniran execrou esta versão, dizendo “Rrrrrruim! Como ele canta mal, e ainda diz ‘vivo em Maringá’!”

Vinte anos depois, o cantor hebraico Matti Caspi gravou um álbum só de canções brasileiras em hebraico, Crazy Pais Tropical, lançado em 1987, e incluindo uma versão de "Trem Das Onze" bem fiel à original, nada de Maringá. O título é “Afilu Daka”, ou seja, “nem mais um minuto”, e a letra diz “nem mesmo mais um minuto posso ficar, já é tarde, não fiques brava comigo, tenho de pegar o último trem desta noite, exatamente às 11 horas, e minha mãe não dorme sem mim”. Realmente, uma versão em hebraico teria de falar em mãe...


Em 1994 a grande dupla gaúcha de humor musical Klaunus & Pletskaia cantou "The Eleven’s Train", uma versão de “Trem das Onze” em inglês macarrônico. E em 2001 foi lançado na Itália o CD Buena Vista Social Ska, com versões em ska de grandes sucessos da música pop italiana. Um deles é justamente “Figlio Unico”, ou seja, “Trem das Onze” em italiano. E esta versão em ska é interpretada pelo grupo Arpioni e cantada no feminino, ou seja, “Figlia Unica”, por uma mulher, Begoña Bang-Matu.
Como toda canção de grande sucesso, “Trem das Onze” inspirou muitas imitações, continuações e paródias. Uma das primeiras foi “Desculpe, Mãe”, composição de Enock Figueiredo, com um grupo chamado Anjos do Sol; até o nome tem alguma semelhança com Demônios da Garoa. E os Quatro Azes e Um Coringa foram um dos grandes grupos vocais brasileiros e um dos mais imitados pelos próprios Demônios. Com o sucesso de “Trem Das Onze”, os Quatro Azes não resistiram a imitar seus imitadores, embora com sutileza, em "Reza Por Mim", composição de Roberto Faissal.
A demolição da estação Jaçanã de trem, para construção da avenida Radial Norte e modernização da Zona Norte de São Paulo, começou a ser planejada em 1964 e foi efetivada em 1966. Começaram a surgir as primeiras composições a aproveitarem o sucesso de “Trem Das Onze” pelo lado nostálgico. A pioneira foi “Adeus, Cantareira”, de Frederico Rossi, lançada pelos Demônios em 1965. Outra das muitas imitações/continuações de “Trem Das Onze” é “Penha-Lapa”, gravada pelos Azes da Melodia em 1965. A composição é de Doca e Ivan Pires, que também chegou a ser integrante dos Demônios da Garoa. Curioso é que o título do samba está creditado no selo do compacto como “Penha-Lapa”, mas o grupo canta “Lapa-Penha”.
Tom Zé, o tropicalista não-paulistano que mais afinidade tem com São Paulo, homenageou Adoniran em várias de suas canções, e uma delas é esta, “A Volta Do Trem Das Onze”, lançado em 2005. E este que vos escreve compôs e gravou em 2000 “O Trem Das 10 (Podia Ser De Qualquer Hora)”, sobre o atraso costumeiro dos trens paulistanos até então (se bem que de lá para cá a situação tem melhorado um pouco).
E quase tudo isso pode ser conferido aqui, dirijam-se para o atalho de embarque e boa viagem!

Friday, February 27, 2015

"ASSIM SE PASSARAM DEZ ANOS..."

Sim, hoje faz exatamente uma década que inaugurei este espaço com toda a pujança e idealismo de um jovem de 47 anos. Mesmo que eu nem sempre tenha comparecido com a assiduidade que eu gostaria, espero ter ajudado a difundir música e cultura - como pretendo continuar fazendo,  com toda a pujança e idealismo de um jovem de 57 anos.

E numa coincidência daquelas que se programadas não dariam certo, ainda ontem uma pessoa amiga e companheira de "mutantologia", Marcus Queiroz, escreveu em seu blog um belo texto a meu respeito:

Ode A Big Mug.

Como Ayrton Mugnaini Jr. consegue por sua cabeça no travesseiro e dormir, sabendo que ele é apenas Ayrton Mugnaini Jr.?

Mal sei, mal sei. Insisto nesta questão até o fim deste relato mal detalhado e sem informações concretas, pois, como pode ser um homem tão versátil, íntegro, sucinto e carregado de um humor ácido e inteligente - cujas pessoas o talvez julguem por meio de ser incoerente, entrão ou qualquer outro adjetivo de mal logradouro. A maioria dos gênios são incompreendidos e/ou subestimados, coisa que acontece também com este homenageado.

Estas pessoas - pobres pessoas, mal conhecem o Professor (Sim, ele também é professor).

Ayrton é uma pessoa única, como qualquer outra pessoa que gosta de música no mundo, que acorda cedo e dorme tarde como qualquer outra pessoa no mundo e que é feliz, como qualquer outra pessoa no mundo. Eu desde cedo conheço ele, sem ter ligado nome a pessoa. Tenho uma biografia do Raul Seixas, herdada do meu pai, que contém seu nome, e quando ouvi pela primeira vez Língua de Trapo aos meus 14 anos, não imaginava sequer que o nome de Ayrton estava envolvido ali, as revistas com matérias épicas e detalhadas de bandas incríveis, resenhas, e links para shows piratas, e gemas "perdidas" de músicas e músicos, teriam seu toque em letras e blogs, e afins. Pensando bem, até você, amigo(a) leitor(a) já deve ter cruzado o caminho do meu amigo Ayrton, mas não deve ter tido noção de que ele era realmente ele.

Além de tudo isso, um bom compositor, letrista, musicista, pesquisador, autor de bons livros, radialista e ainda tem ótimos discos na jogada. Afinal, Como Ayrton consegue por a cabeça no travesseiro sabendo que ele é ele? Como ele se sente sabendo que é tão importante e vital para um pedaço histórico da música, e quiçá de toda uma geração? Seus dados, suas fontes, sua histórias, e todo o resto só podem ser cada vez mais relevantes para quem pesquisa, ou apenas quer conhecer mais e mais sobre o universo.

Dado a última vez que vi Ayrton, pude perceber outra de suas qualidades: Ele simplesmente andou da Móoca até  Belém, para poder me encontrar no Tatuapé(!). Um presente que recebi também foi ter seu autógrafo no meu LP recém-adquirido desta figuraça. E assim sendo Ayrton Mugnaini Jr. me mostrou toda a sua humildade, paciência, amizade e carisma (apesar de encharcado pela chuva de ontem).

Talvez este texto acima seja apenas para dar valor para quem é necessário, antes que seja tarde, ou para que não passe em branco. Afinal, pessoas boas existem, e Ayrton faz parte desse seleto time, com todo louvor.

Sim, ficou bonito. Coisas assim fazem os anos valerem a pena. E o texto pode ser lido também no blog do próprio Marcus Queiroz, digno, por sinal, de ser lido inteiro.

Sunday, February 08, 2015

METENDO O NARIZ PRA TENTAR FAZER SHOW NO CENTRO GUTURAL

Se quem tem boca vai a Roma, quem tem nariz pode ir até mais longe. Assim me faz pensar o grande sucesso de cantores e cantoras cujo timbre vocal é eminentemente anasalado. E este breve “estudo” sobre o assunto que estás começando a ler (e espero que termines) nasceu de conversas minhas sobre o assunto com três amigas cantoras: Vera Mendes, Tereza Miguel e Nadja Bandeira.

A idéia de escrever este texto veio de uma imprecação de Nadja sobre sua pouca simpatia por determinado cantor quase-carnívoro que “pra piorar é fanho”. Lembrei então a ela que isso não era tanto problema, “Jorge Veiga era mais fanho ainda, e Chico Buarque é hors-concours”; ela concordou e lembrou um terceiro de que também sou admirador, Miltinho. A esta conversa juntei informações que me apareceram em outras pesquisas, como o saudoso jornalista e produtor Walter Silva descrevendo na Folha de S. Paulo a então novata Maria Alcina como “uma Maria Bethânia resfriada” e a famosa queixa de um paulista ao ouvir “Chega De Saudade” com João Gilberto: “Por quê gravam cantores resfriados?”

Realmente, essa pergunta puxa outra: por quê tanta gente canta “pelo nariz”? Talvez seja porque dá menos trabalho que emitir a voz corretamente pela boca, ou porque certos idiomas, como o português, o inglês e o francês, têm muitos sons nasais. Comparem, por exemplo, com o idioma italiano, onde falta o fonema “ão”, forçando Gianni Morandi a cantar “brasiliano ‘Joáo’ Gilberto” em seu sucesso “Che Ne Me Faccio Del Latino”. (Mas a relativa ausência de fonemas nasais no idioma italiano não impediu o sucesso do “cantautore” moderno Eros Ramazzotti, com timbre anasalado de fazer honra aos citados Jorge Veiga e Miltinho.)

Certamente, emissão nasal é sinônimo de informalidade, amadorismo, o que pode ser até um charme – a chamada “Invasão Britânica” dos anos 1960 foi um triunfo não só hormonal como adenoidal; cantores que cantavam “pela boca”, como Mick Jagger e Paul McCartney, foram (ou pelo menos podem soar como se tivessem sido) minoria perto de John Lennon, Peter Noone, Keith Richards, Peter Townshend, os Bee Gees e Ray Davies. Por sinal, em 1982 o líder dos Kinks deu uma explicação técnica interessante sobre o assunto para a revista Modern Recording & Music: “Usamos muitos microfones Neumann. Tenho um monte de microfones valvulados que comprei da BBC, mas eles vivem explodindo. Eu os uso para os vocais. Minha voz é muito difícil de ser gravada porque tenho uma qualidade nasal. Daí que eu uso um microfone valvulado e um Sennheiser para captar ambas as qualidades, e mixo ambas num canal.”

Falamos de Brasil, da Itália, de britânicos, e não esqueceremos dos EUA. Muitos e muitas de vocês devem ter se lembrado de – quem mais? – Bob Dylan. Mas o país já tinha reputação de voz anasalada desde bem antes, como atesta aquela piada sobre George Washington.  Numa excursão de turismo nos EUA, diante de um retrato de Washington, o guia turístico diz "Dos lábios desse homem jamais saiu uma mentira!" e alguém comenta: "Devia falar pelo nariz, como todo estadunidense." Além de Dylan, podemos lembrar também os grandes cantores country Hank Williams e Willie Nelson, Mike Love dos Beach Boys, “cantautori” como Carole King e James Taylor e, mais para o rock pesado, Axl Rose e Jimi Hendrix – que, como sabemos, começou a cantar motivado pelo sucesso de Bob Dylan, “se ele pode fazer tanto sucesso cantando tão fora do tom, eu também posso”.

Hendrix foi bem definindo por minha mãe como “imitador do personagem Cuém-Cuém de Chico Anysio”. O que nos traz de volta ao Brasil e faz lembrar Juca Chaves (inclusive grande muso de si mesmo com seu "Nasal Sensual"), o emérito Jair Rodrigues e Belchior, que, como Hendrix, tem timbre nasal mais grave e que, para a citada Vera Mendes, que além de cantora é fonoaudióloga, tem timbre mais gutural – ou seja, forçando a garganta – que propriamente anasalado; tal observação pode valer também para a citada Bethânia e Nana Caymmi. Mas ninguém contesta a sonoridade nasal de duas pessoas profissionais da comunicação que ora lembrarei, a apresentadora de televisão Marília Gabriela, que também gravou como cantora, e o jornalista e radialista Leopoldo Rey, meu colega na FM 97 quando a emissora era de rock e que era o primeiro a se divertir quando nosso grande amigo Sidnei Lopes, um dos melhore imitadores que já conheci, desandava a imitar o que o próprio Leopoldo resumia como “eu e minha voz de gripe”. “É brincadeira?!” Por falar em brincadeira,quem quiser imaginar como Wilson Simonal – um dos melhores cantores brasileiros de todos os tempos soaria se pegasse um forte resfriado ou resolvesse imitar Jorge Veiga pode conferir este vídeo de Simoninha

E para este texto lembrei-me também de uma canção que compus de brincadeira em parceria com Tereza Miguel, ela a iniciou e eu a desenvolvi junto com ela; Tereza diz que sua principal inspiração foi uma cantora que não esqueceríamos de mencionar, Sandy Lima – sim, a filha de Xororó. A gravação está aqui e a letra segue abaixo. E termino este estudo desejando a todas e todas um feliz nasal!

CANTOR(A) SEM BOCA
Tereza Miguel
Ayrton Mugnaini Jr.

Eu sou um cantor sem boca
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz


Esta singela canção 

Sim, fui eu mesmo que fiz 

É minha contestação 

Mais fanhoso é quem me diz


Eu sou um cantor sem boca 
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz


Este meu canto é chinfrim
Mas é minha força motriz
Sei que quem gosta de mim
Também escuta pelo nariz

Eu sou um cantor sem boca
Eu canto pelo nariz
Eu não preciso de boca
Eu canto pelo nariz

Desculpe meu canto fraco
Não nasci assim porque eu quis
Não gosta, não enche o saco
Vai ouvir disco da Elis!

UM ASSUNTO BASTANTE DATADO

Tenho recebido, ouvido e espiado muitos e muitos discos brasileiros independentes, e de tudo: samba, choro, música erudita, caipira/sertanejo, forró, pop, brega, roquinho, rocão e aquela MPB que pode ser um pouco de tudo isso... enfim, de tudo. Mas percebi em quase todos um detalhe que me chamou a atenção e me pareceu digno de reparo – mas que provavelmente ninguém além de mim repara, comenta e muito menos reprova.

Isso mesmo, quase nenhum deles traz a data de lançamento, com ou sem aquele famoso “” (sim, de “publicado” ou “phonogram”/”phonorecord”) e/ou © (de “copyright”) antes dela.

Imagino que muitas das pessoas artistas destes discos serão dignas de discografias no futuro (algumas até já o são). Imaginem vocês agora a trabalheira que terão pessoas pesquisadoras chatas como eu para descobrirem uma informação que deveria estar no próprio disco... Um bom exemplo é o belo disco Os Mestres Mulatos da orquestra Sinfonieta dos Devotos de Nossa Senhora dos Prazeres, dedicada a resgatar os primórdios da música brasileira; o encarte do CD é detalhadíssimo, mas não informa datas de gravação ou lançamento; vasculhei o Google e descobri até que a Sinfonieta tem uma página, muito bem feita mas que esquece de registrar tal informação sobre esse e seus outros discos; tenho a sorte de conhecer pessoas parentes de integrantes da Sinfonieta, que me encaminharam ao próprio regente do disco, Marcelo Antunes Martins, que gentilmente me informou: o CD foi gravado e lançado em 2007. Espero estar dando alguma ajuda em pesquisas futuras sobre este belo trabalho da Sinfonieta, inclusive a quem tiver o prazer de descobri-lo daqui a décadas ou mesmo séculos...

Estou ciente de que em muitos casos a data de lançamento é omitida para que o disco pareça “sempre novo”... Eu soube de gravadoras que omitem tal informação por ceder a queixas de lojistas que dizem que “disco velho encalha”. Sei também de artistas que, embora independentes, sonham em um dia deixar de ser, e relançam o mesmo disco por vários selos, pois “não é interessante” divulgar que se trata de relançamento – típica falsa esperteza, pois sempre tem alguma pessoa chata para descobrir que “ah, esse disco é velho e estão querendo fazer passar por novo”. Sei que muita gente só se interessa pelo que estiver em primeiro lugar nas paradas, mas sempre digo que “velho não é antigo” e “nunca é tarde para discos independentes”. Tudo é novidade para quem acaba de descobrir (como, por exemplo, Noel Rosa, novo para mim em 1970; Robert Johnson, novo para Eric Clapton nos idos de 1964; ou Beethoven, novo para quem começa a respirar), e o que importa é a qualidade. Óbvio? Justamente por ser óbvio, pouca gente percebe... E muita gente que “esconde” tal informação nos discos que manda prensar não deve gostar muito de ser obrigada a creditar neles seu nome completo e o número de seu CPF para quem quiser ver...

E creditar datas de lançamento de discos tornou-se costume tão raro que a maioria das fontes de tipos de letras nem inclui o símbolo ”, que precisei copiar e colar da internet... Por sinal, a frase “disco é cultura” também sumiu dos CDs independentes, mas esta omissão ainda tem a desculpa de a frase ter sido criada na época da ditadura militar e de servir para isentar as gravadoras de imposto de renda por produtos culturais, e disco independente já nasce fora da grande indústria e portanto é pressuposto como cultural...

Não sei se a omissão de datas de lançamento em CDs brasileiros é uma “lei não-escrita” como o limite de 14 faixas, cavalo de batalha de artistas como Ney Matogrosso e o saudoso Johnny Alf e em que insistirei até que ele deixe totalmente de existir... Enfim, é essa minha suave bronca-sugestão: ao lado de créditos como “Fulana usa guitarra marca tal”, “cafezinho servido por Sicrano” e “agradeço a meu cachorro por latir tão bem”, aumentem ainda mais o charme de suas obras informando o ano de lançamento, ou pelo menos créditos como “gravado no outono ou primavera do ano tal” (discos europeus adoram isso). A tão mencionada e lamentada Memória da Música Popular agradece por isso também!

Sunday, January 11, 2015

BARATOS QUE DERAM JINGLE QUE DÁ BARATOS

Boa a inciativa da loja Baratos Afins de colocar no Youtube - e num belo toca-discos - um vídeo (clique aqui para ver) do "jingle-punk" que fiz para ela (espontaneamente, não a seu pedido) em 1979.


Trata-se de um compacto de acetato em 45 RPM, e o outro lado foi outro "jingle-punk", para outra loja de discos novos e usados, a Woodstock. Este foi meu primeiro lançamento totalmente paulistano, na concepção, ambiente (composto e gravado quando voltei a morar em São Paulo, em 1979, após dez anos morando em Sorocaba) e temática: dois sebos da cidade. E parece que estes "jingles-punk" deram sorte, pois estas lojas são duas das pouquíssimas a sobreviverem desde os anos 1970 até hoje... A tiragem foi de nada menos que duas cópias, e Luiz Calanca digitalizou a dele; neste vídeo foi incluído o encarte original. 

Este compacto teve meu último resquício de sorocabismo: compus e gravei as duas faixas já morando em Sampa, mas até o fim de 1979 ainda fiz algumas viagens a Sorocaba, uma delas para gravar estes acetatos, na firma N. N. Publicidade, onde ficavam o primeiro estúdio de gravação e primeira máquina de corte de acetato que vi na vida. Gravei as faixas em estéreo bem primitivo (eu usava dois gravadores cassete, um mono e um estéreo), mas a N. N. só cortava acetatos em mono; tenho ainda as matrizes, e para meu primeiro "LP" - ou seja, lançamento com mais de duas cópias - , a fita cassete Brega's Banquet, em 1984, aproveitei "Woodstock" (que pode ser ouvida aqui) mas regravei "Baratos Afins" (esta nova gravação pode ser conferida aqui). 

E este compacto foi meu segundo nessa linha; em 1978 eu, ainda morando em Sorocaba mas tentando cursar Engenharia em São Paulo no Mackenzie, fiz, ainda como integrante da banda Trânsito Maluco de Marte (uma longa história que ainda contarei aqui), também sobre dois sebos paulistanos (o Wop-Bop e o Grilo Falante) e do qual também foram feitas apenas duas cópias, uma em meu poder e a outra com Marco Zappa, também integrante do TMM.

Tuesday, January 06, 2015

AUTO-REFERÊNCIA AQUI EU POSSO: RETROSPECTIVA PESSOAL 2014

Realmente, uma boa hora para se iniciar uma retrospectiva de 2014 é o anoitecer do primeiro dia de 2015, bem longe daquela pressa de sair publicando retrospectiva quando novembro mal ou nem acabou. E precisei de cinco dias para escrever, pois 2014 foi um ano bom e produtivo, geralmente fazendo jus aos votos de “feliz ano novo” que ouvimos. Vejamos:

RETRATO DO ARTISTA QUANDO VELHO

Em dezembro de 1984, durante meu afastamento do Língua de Trapo, lancei oficialmente minha carreira-solo, com a fita cassete Brega’s Banquet; o quase-sucesso veio em 1985-6, com mais fitas (Brega Segundo Brega, Sexo, Leite & Brega; O Melhor Que Péssimo De Ayrton Mugnaini Jr.) e composições minhas em shows e/ou discos do Língua, O Espírito Da Coisa, Maria Angélica Não Mora Mais Aqui e outros. Desde então faço ocasionais shows-solo, preferencialmente com banda, e agora em 2014 fiz dois, um no sarau Sopa de Letrinhas em agosto (aqui vai uma breve amostra em vídeoe outro no Boa Breja (belo restaurante-bar-espaço-para-música-ao-vivo na Mooca, vale conhecer) em dezembro. Como se diz, só quem sabe obedecer aprende a comandar, e após anos como “sideman” mereço ter momentos como “band-leader” além de músico e arranjador. Em 2015 tem mais.


Meus primeiros shows solo com banda foram lá em 1992, e a formação incluiu Kim Kehl na guitarra, Jovaldo Guimarães ao saxofone e, à bateria, Serginho Gambale e, mais tarde, Vande Mano. A formação atual inclui Marcos Mamuth na guitarra e Laércio Muniz na bateria (também integrante da ARBanda). E novamente agi como o Sócrates filósofo “corruptor da juventude”: Mamuth, assim como Kehl, chegou, graças a mim, a ir além do rock e blues onde se notabilizou e tocar também samba, xote, valsa e outros ritmos e gêneros de que nem imaginava ser capaz...

A VIDA SÃO VÁRIAS CANÇÕES CURTAS (pedindo licença a Ian Anderson)

De mim Chrissie Hynde não poderia reclamar em 2014. Para quem não entendeu: um diz Jim Kerr perguntou a ela “o quê tu compuseste hoje?” e ela, pega de surpresa, respondeu “eu nada, por quê?” e ele esclareceu “É que vi no teu passaporte ‘profissão: compositora’...” Pois bem, eu, compositor de carteirinha da AMAR e membro da diretoria do Caiubi, compus perto de 60 canções este ano, a maioria delas lançada na internet, em minha página do Caiubi ou pelo Soundcloud, e algumas aparecerão em discos meus ou de outros artistas, inclusive os próximos lançamentos de Vera Mendes e Soul Demetrio.

Quase famoso como compositor satírico, arrisquei-me um pouco a canções mais sérias; passei a virada de ano gravando uma toada em homenagem à grande Inezita Barroso, além de lançar em canjas e saraus um samba-choro bem bonitinho e objetivo sobre, vejam só , "Hidratação", com a grande amiga e parceira Vera Mendes. Também musiquei uma letra de Guca "Um Dos Criadores Do Língua De Trapo" Domenico, "São Paulo Que Não Acaba Mais". Mas não perdi o bom humor desgarrado pelo que sou quase famoso, como atestam cançonetas como "A Flautista Estudante" e "Tintureiro Apaixonado".

E minha amiga Fabiana Viana até se diverte ao contar que tem 5 mil almas amigas no Facebook mas, tendo concorrido a deputada federal, conseguiu apenas cerca de 1300 votos. Quero crer que alguns se devam a um jingle que fiz para ela... 

"LIVROS ÀS MANCHEIAS" (INCLUINDO NOVA DUPLA DE ESCRITORES PAI E FILHO)

Como escritor, participei do livro 1973, O Ano Que Reinventou A MPB, lançado no início de 2014 e que teve eventos por todo o Brasil, inclusive na Livraria Cultura do Conjunto Nacional em Sampa, com várias outras pessoas participantes do livro, radicadas ou não em Sampa, como Emilio Pacheco, Marcelo Fróes, Mona Gadelha e Tavito.


E em 2014 realizei uma ambição de décadas, graças a Deus e à editora Nova Alexandria: meu primeiro livro sobre nosso rock, intitulado justamente Breve História Do Rock Brasileiro e mais uma façanha relacionada ao Arquivo do Rock Brasileiro, projeto multimeios do qual sou o curador. Em 2014 saíram muitos outros livros sobre o assunto, mas o meu foi um dos poucos a focarem nas origens do gênero, inclusive quando “o rock ainda não era rock”, ou seja, já existia, pelo menos em forma prototípica, antes de receber esse nome – lá eu conto que até Carmen Miranda gravou um proto-rock, e quem não concordar ou tiver curiosidade pode tirar a cisma aqui. Um dos eventos de divulgação do livro foi uma participação (que pode ser conferida aqui) no programa Em Cartaz, da TV Aberta, onde aproveitei para acompanhar ao violão o apresentador Atílio Bari – o segundo apresentador de televisão que transformei em cantor, tendo o primeiro sido Heródoto Barbeiro, a quem acompanhei no cavaquinho quando ele me entrevistou sobre Adoniran Barbosa há alguns anos.

Meu filho Ivo, também grande fã de leitura, tem me acompanhado em todas as Bienais do Livro desde os oito anos de idade. E até a Bienal do ano passado ele não pagava ingresso devido à idade; desta vez ele não pagou por ter se tornado escritor! É que nesse meio tempo a escola em que ele estudava fez um acordo com Ziraldo e ele liberou alguns de seus desenhos para as crianças inventarem histórias baseadas neles, daí cada criança ganhava um livro da história que criou, embora exemplar único. De modo que Ivo pode dizer que se tornou escritor publicado antes de mim, eu comecei aos 35 anos e ele aos dez... (E Mug pai e filho estivemos também ao evento anual Anime Friends, como em todos os anos.)


Continuei pesquisando e garimpando música popular; projetos meus em andamento incluem livros sobre música brasileira e circo, rock brasileiro e religião e rock brasileiro gravado por artistas não do rock até 1965; um de meus achados foi este LP do saudoso roqueiro capixaba Aprigio Lyrio. 


E aqui vai uma imagem de quando dois fãs da música dos Rolling Stones se encontram, no caso Ayrton "Richards" (apelido de quando voltei a morar em Sampa em 1978) e Mauricio "Watts", numa das lojas da rede do famoso Manoel Jorge Dias (aquele que só perde para Zero Freitas em quantidade de LPs amealhados).


O PERSEGUIDOR IMPLACÁVEL

Em 2014 tive a honra de tocar pela primeira vez com pessoas que admiro há tempos, como Fábio Stella, Gereba, Gerson Conrad e Pedro Lua, acompanhando os três primeiros ao contrabaixo e o quarto ao cajón – por sinal, a primeira vez em que toquei tal instrumento num show inteiro. Igualmente histórica (ao menos para mim, claro) foi minha canja numa jam comandada por Kim Kehl, em que dividi a cena com Luiz Domingues – sim, o “ex-Tigueis” de grupos como Língua de Trapo e Chave do Sol; eu e Domingues fizemos parte do Língua em momentos diferentes e fomos nos reunir num palco agora, nesta jam que citei no espaço Magnólia; aí está uma pose, sei que o evento foi filmado e quero rever!


Os outros encontros que acima mencionei deram-se no velho e bom Julinho Clube (passe lá: Rua Mourato Coelho, 585, meio Pinheiros, meio Vila Madalena), onde sempre estou com o Clube Caiubi de Compositores, nos saraus de segunda-feira e no evento bimestral Sopa de Letrinhas, e onde tive também o prazer de tocar com o próprio Julinho Camargo (proprietário do Julinho Clube), o guitarrista Palhinha Cruz do Vale e os bateristas Paulinho Andrade e Véio Drumis, além das pessoas companheiras de sempre, incluindo Aika Shimada, Alvaro Cueva, Bia Clamente, Bráu Mendonça, Célia Demezio, Cris Gambale, Di Melo, Ibis Maceioh, Kana de Brasil, Márcio Policastro, Marcos Mamuth, Nando Távora, Ozi Stafuzza,  Raquel Martins,  Renata Pizi, Sonekka, Suzzy Mellody. Tato Fischer e Vlado Lima. Sem falar na “invasão caiubista” no clube literário Hussardos, quando o letrista e meu parceiro Léo Nogueira lançou seu primeiro romance, Filho Da Preta, e convidou a caiubada para a parte musical; lá fomos eu e uma turma que incluiu boa parte das pessoas citadas acima e Adolar Marin, Daniel & Lu, Elio Camalle (radicado na França e de passagem pelo Brasil), Fernando Cavalieri e Kleber Albuquerque.

Tive também o prazer de tocar em outros locais além do Caiubi e eventos parentes ou amigos como o Sarau da Maria (realizado no bairro de Vila Maria) e O Autor na Praça. Além de tocar pela primeira vez neste milênio com o velho amigo, irmão e parceiro Kim Kehl, na jam de blues que citei acima, foi igualmente bom voltar a gravar com o velho e bom Trinkão, no novo disco do amigo Demetrio, a sair em 2015. Outra pessoa amiga, irmã e parceira que reapareceu foi a cantora e multi-instrumentista Edria Barbieri, com quem participei de um show do projeto O Autor Na Praça em homenagem a Elis Regina – Edria me confiou a missão de conseguir uma aproximação da linha de baixo de Luizão Maia em “Conversando No Bar”, e consegui.


Outro belo reencontro foi com a amiga e cantora Graziela Sanchez e seu mano Rodrigo num sarau de samba e choro semanal num bar na esquina da Fortunato com a Frederico Abranches, perto do Largo de Santa Cecília.

Além do cajón, mostrei minha veia de percussionista em minha primeira participação no Bloco Da Mata Que Resta, bloco carnavalesco de rua que se reúne todos os anos em Cotia; participei junto com meu filho e a mãe dele, que moram na região. Nesta foto não estou muito difícil de se ver, com direito a coroa de rei providenciada por meu filho - que aparece mais para o meio da foto, de roupa preta, com a mãe, de camiseta branca. (Uma opinião interessante e abalizada sobre esta foto veio da amiga e colega do Caiubi Hilda Borges, emérita percussionista de maracatu: "Sua intimidade com a caixa é 'amazing', 'astonishing'!"



Participei também de eventos promovidos pelo Centro de Memória do Circo, onde, ao violão, toquei pela primeira vez com a acordeonista Lívia Mattos, o cantor de boleros argentino radicado no Brasil Turibio Fortes (!muy bueno!) e, vejam só, a coordenadora de tais eventos, Verônica Tamaoki, que cantou um pedacinho de “O Circo” de Sidney Miller (“vai, vai, vai começar a brincadeira”) e mostrou muito potencial como cantora.


Outra honra foi participar de um evento promovido pela Associação Comercial de São Paulo, a convite de André Furkin e da já quase famosa Vera Mendes, a quem acompanhei; um instante desse momento está na foto abaixo. Nesse mesmo evento dei uma canja com a cantora Rubi Lins, acompanhando-a em “Ando Meio Desligado” – essa Mauricio Ruella perdeu, rerrê. 



Lembrarei também BigNel Manoel Corrêa, agora morando em Olinda e que em 2014 acompanhei num de seus raros shows em Sampa. E, além da honra de colaborar com o Conjunto João Rubinato na pesquisa e resgate da obra de Adoniran Barbosa, produzi algumas de suas gravações – nada menos que as primeiras do grupo! – e ainda participei de uma de suas apresentações (foi no belo Espaço Cachuêra, no bairro das Perdizes - ficou parecendo verso de Adoniran), “intruso bem-vindo” ao contrabaixo elétrico e também num divertido debate sobre o Bardo do Bixiga com Sergio Rubinato, sobrinho de Adoniran e assessor em muitos de seus shows, e Celso de Campos Jr., autor de Adoniran, Uma Biografia, livro que faz uma bela dupla com meu Adoniran: Dá Licença De Contar.


Não esquecerei de registrar um show da ARBanda, a banda do Arquivo do Rock Brasileiro (e que lidero além do quase famoso TONQ e minha carreira-solo), no lançamento do já citado livro, Breve História Do Rock Brasileiro.

Por falar em rock brasileiro, neste milênio tenho aparecido por aí tocando principalmente violão e contrabaixo (usando meu cavaquinho “walkman” dos anos 1990 somente em gravações), mas em 2014 voltei ao instrumento com que comecei a tocar em bandas: guitarra-base, num belo show de anos 1960/1970 que reuniu nada menos que metade da lendária banda The Beatniks: o guitarrista-solo Bogô (com quem tenho tocado em outros grupos desde os anos 1980) e o contrabaixista Cláudio Morgado, além da cantora Cecilia Ramadas, o cantor José Gaspar Ramos e o baterista Batata da Vila Mariana (que conheci em seu estúdio quando fui visitar um ensaio de Tom Zé nos anos 1980 e com quem eu mal sabia que iria tocar numa festa no milênio seguinte).


FALA QUE ALGUÉM TE ESCUTA

Sim, este ano teve para mim uma relativa novidade. Famoso por muita coisa boa exceto falar em público, fui convidado a participar de alguns debates-palestras, “desafios”que encarei falando o mais pausadamente que me foi possível, e me saí bem. Tais eventos incluíram dois debates sobre rock brasileiro na Faculdade Belas Artes, ao lado de (ver foto abaixo) Guilherme Bryan, Silvio Essinger, Regina Echeverria e o mencionado Gerson Conrad, além de Toni C. e Alex Antunes; o debate sobre Adoniran que mencionei mais acima; e uma palestra sobre música e circo, junto à também mencionada Verônica Tamaoki, no Centro de Memória do Circo.


Tem mais: em 2013 eu, também poeta, já havia feito minha “estréia mundial” como recitador, nos saraus Poemas À Flor Da Pele e o Sopa de Letrinhas do Caiubi, mas sempre paralelamente às funções de compositor e músico; agora em 2014 compareci apenas como poeta num dos saraus da Casa das Rosas, além de recitar mais alguns versos no Caiubi de sempre.

Em 2014 falei também por intermédio de gravatas berrantes. Sim, no meio do ano iniciei uma segunda fase engravatada (a primeira foi nos anos 1990), numa brincadeira-a-sério que parece estar fazendo sucesso – e nunca pensei que um dia eu iria arrematar tantas gravatas e camisas sociais quanto discos e livros numa mesma compra de brechó...

COMO É QUE É O NEGÓCIO?

Desde já esquentando as turbinas e microfones para as comemorações de seu trigésimo aniversário agora em 2015, o Rádio Matraca (programa de humor, música e informação produzido e apresentado por mim, Laert Sarrumor e Alcione Sanna, todo sábado às 17h na USP FM, 93,7 MHz ou na internet, para quem ainda não sabia) recebeu em 2014 personalidades convidadas ilustres como Fábio Stella (na foto abaixo), o já mencionado Guilherme Bryan (co-autor de Teletema, primeiro e belo livro sobre as trilhas musicais das telenovelas brasílicas), Pedro Mariano, Anelis Assumpção e a banda Cracker Blues, além de apresentar programas especiais sobre artistas que merecem a melhor atenção como Carole King, Sergio Endrigo, Victor Young e temas como os palhaços cantores brasileiros e os 50 anos da canção “O Calhambeque”.


VITROLA, MINHA VITROLA

Em 2014 conheci algums/algumas artistas novas para mim, como as cantoras Anelis Assumpção, Cecilia Arellano e Ilana Volcov e o rapper Gaspar Z’África Brasil, além de receber uma bela pilha de discos independentes. Quem disse que a música brasileira acabou ou se resume só ao que toca nas grandes emissoras de rádio e TV? E recebi tantos discos independentes bons desse ano que resolvi fazer algumas micro-resenhas neste blog. Os nomes, além dos citados, incluem Givly Simons, Ligiana Costa, Luciana d’Ávila, Os Marchistas, Marlene Souza Lima, Meno Del Picchia, Novanguarda, Pedrão Neto, Pitomba, Rodrigo Bragança, Os Sertões e Trio Improvisado, além de celebridades veteranaças como os mencionados Gereba e Guca Domenico, Leticia Coura e Tavito. E não tem problema se um ou outro destes CDs saiu até dois ou três anos antes, pois, como sempre digo, nunca é tarde para independentes. (Mas bem que a maioria dos e das artistas poderia ajudar um pouco mencionando data de lançamento, ou pelo menos gravação, nos CDs e/ou embalagens...)

CANÇÕES DE ETERNAS DESPEDIDAS

Em 2014 a Parca se serviu sem moderação; as baixas musicais incluem Bobby Womack, Charlie Haden, Don Everly, Ian McLagan, Jack Bruce, Joe Cocker, Johnny Winter, Manitas de Plata, Paco De Lucia, Pete Seeger, Riz Ortolani, Roy Cicala e, no Brasil, Clemilda, Dino Franco, Hélcio Milito, Jair Rodrigues, Marcio dos Vips, Marly Marley, Miltinho, Nelson Ned, Nonato Buzar e Vange Leonel. E houve perdas que senti mais por estarem mais perto: o tradutor Frank Barbosa (nosso querido "Frank, Mr. Shank"), o guitarrista Hélcio Aguirra (mestre do hard rock e integrante das bandas Golpe de Estado e Harppia), o radialista, guitarrista e compositor Lizoel Costa (primeira baixa do Língua de Trapo), a cantora, compositora e jornalista Lúcia Helena Corrêa (de cuja banda fui integrante e cujo único disco saiu em 2013), o cantor e compositor Madan (um dos precursores do que se tornaria o Clube Caiubi) e o artista plástico e compositor Roberto Campadello (nos anos 1980 e 1990 proprietário do Espaço Persona, onde trabalhei como músico, produtor e professor de violão, enfim, praticamente morei lá durante cinco anos).

Pena foi também a vida curta do bar Confraria, bela tentativa de ser um Caiubi moocano mas que mal teve tempo de acolher pessoas como eu e Tato Fischer em shows e canjas; segue abaixo um flagrante, ao lado de Silvio Zuccolato e Juliano Mendes (um deles com meu famoso contrabaixo "Pingo").


Lembremos ainda o lamentável e desnecessário fechamento do Orkut, cuja praticidade de armazenamento e pesquisa está longe de ser igualada pelo Facebook - menos mal que eu participe de bons grupos facebookianos como Empoeirados Do Rock e Brazil By Music.

...E ADEUS, ANO ETERNO

Mas, tirando esse último item, 2014 foi, como dizia Rod McKuen via Sinatra, um ano muito bom, e meu único motivo de queixa quanto ao número 14 é o limite de faixas nos CDs que muitas grandes gravadoras brasileiras ainda insistem em praticar... E vamos lá, que este ano Quinze seja de fazer honra a Raquel de Queiroz!

(Sim, tudo isso aconteceu em Sampa, em 2014 fui mais "árvore" do que nunca e não saí da Grande São Paulo, mas este ano pretendo viajar mais fora de casa, já estou pronto com violão e mochila cheia de gravatas.)