Wednesday, April 17, 2013

VOS AMO, ESPAÑOLAS: SARITA MONTIEL E "LA VIOLETERA"


Em 8 de abril faleceu aos 85 anos a atriz e cantora espanhola María Antonia Alejandra Vicenta Elpidia Isidora Aurelia Esther Dolores Abad Fernández, bem mais conhecida como Sarita Montiel. De carreira longa e grande sucesso como símbolo do charme e sensualidade hispânicas, seu carro-chefe (pelo menos no Brasil) é a brejeira canção "La Violetera", composta por José Padilla (1889/1960, autor de outros clássicos da canção como "El Relicario" e "Valencia").

Neste blog já comentei que "La Violetera" tem, ao menos para meus ouvidos, um trecho da melodia ("cómpreme usted este ramito") parecido com outro de "Manolita" ("alza, alza, Manolita"), outro sucesso mundial de inspiração hispânica (embora composto por pessoa não espanhola, o francês Leo Daniderff) sobre o qual fiz uma pesquisa; esta eu apresentei aqui mesmo no blog, e agora chegou a vez de "La Violetera", que já havia se tornado clássico da canção popular mundial antes da interpretação de Sarita Montiel de 1958, inclusive num filme desse nome. Nem no cinema a canção era inédita, bastando lembrar o filme Luzes Da Cidade de Charlie Chaplin, de 1931 (com arranjo de Arthur Johnston).

Até onde sei a primeira gravação de "La Violetera" foi feita pela cantora espanhola Raquel Meller em 1918. Outras gravações que descobri incluem as da cantora Lucrezia Bori (1928), a francesa Emma Liebel (1924) um arranjo que defino como "tango-punk" gravado por Carlos Gardel em 1927, além das interpretações de Dalida, Gigliola Cinquetti, Connie Francis, Dinah Shore ("Who'll Buy My Violets"), Nana Mouskouri, Ângela Maria ("A Violeteira"), a polonesa Lucyna Szczepanska ("Kwieciarka"), Cauby Peixoto, o ator e humorista francês Dranem (a paródia "La Cacahuettera"), as xarás cantoras e atrizes xarás Maria Dolores Pradera e Maria Pillar Sevilha, a atriz e cantora espanhola dos anos 1960/70 Encarnita Polo e versões instrumentais pelas big bands de Tommy Dorsey ("Buy My Violets") e Ray Conniff, as orquestras de Stanley Black e Paul Mauriat, o grupo Borrah Minevitch and His Harmonica Rascals e o moderno grupo franco-argentino The Gotan Project. Tudo isso e mais pode ser conferido neste nosso primeiro "festival de 'La Violetera'", que dá para enfeitar uma bela "Avenida Ramalhete".

Uma curiosidade sobre a gravação de Tommy Dorsey, feita em 1937. Na era das Big Bands raramente os maestros faziam os arranjos eles mesmos, e "Buy My Violets" foi um destes casos. Dorsey idealizou as partes de cada instrumento e mostrou a Dick Jones, mais experiente como arranjador, que comentou "cada parte sozinha soa bonita, o problema é como todas soarão juntas". Pois bem, Dorsey foi em frente e, ao se ouvir o resultado, todo mundo, inclusive ele, quase rolou no chão de rir; Jones fez os ajustes necessários e recebeu metade do crédito como arranjador. Sim, Dorsey provou ser bom de vender violetas, desde que deixasse os arranjos florais a outros.

Friday, March 29, 2013

ELES TAMBÉM GRAVARAM ROCK (OU NÃO?)


Em 23 de março produzi para o programa Rádio Matraca o especial "Eles Também Gravaram Rock", reunindo gravações de rock por artistas não especificamente roqueiros. Incluímos rock and roll de raiz, baladas-rock daquelas em 12/8 do tipo de "The Great Pretender", rocks lentos na linha de “Something”, sambas-rock, disco-music e outras variantes. Houve quem elogiasse a qualidade musical mas fazendo uma ressalva: quase nada do que tocamos podia se chamado de “rock”.

Pois bem, apresento minha defesa. Para o DJ e jornalista Big Boy, James Brown é rock; para Jimmy Page (segundo declarou nos anos 1970), o Pink Floyd não é rock. Pessoalmente, sigo o raciocínio “se parece rock é rock”, seja rock and roll, pop-rock, country-rock, funk & soul, pós-pré-rock ou o que for. Mas há uns 20 anos a indústria vende pop-rock suave, funk suave e reggae suave como sendo "a moderna música popular brasileira". Para mim, dizer que isso não é rock é como incluir presunto e toucinho em dieta vegetariana dizendo que não são carne. E por quê as Irmãs Galvão cantando” Tente Outra Vez” de Raul Seixas é rock e Tom Jobim cantando “O Trem Azul” de Lô Borges não é?

Enfim, penso que Juca Chaves resumiu tudo em um de seus discos dos anos 1970 ao mencionar “um show de moderna música popular brasileira, rock and roll”. E tem uma canção minha sobre isso, "Eu Adoro MPB (Seja Lá Isso O Que For)".

Para quem quiser conferir e tirar conclusão própria, aqui vão o repertório que tocamos, na segunda meia hora do programa, e o atalho para ouvi-lo.
 Nora Ney - Rock Around The Clock (Jimmy Freedman/Max DeKnight) 1955 (primeira gravação de rock feita no Brasil)
 Marisa Gata Mansa - Rock Around The Clock (Jimmy Freedman/Max DeKnight) 1956 (gravação feita para concorrer com a de Nora Ney)
 Agostinho dos Santos - Até Logo, Jacaré (Robert Guidry/versão: Júlio Nagib) 1957
 Os Cariocas - Silhouettes (Frank Slay Jr./Bob Crewe) 1958
 Ângela Maria - Quando a Noite Vem (Waldir Rocha/Mirabeau) 1961
 Dolores Duran - Love Me Forever (Beverly Guthrie/Gary Lynes) 1958
• Sérgio Ricardo - Aleluia (Sérgio Ricardo) 1968
• Toquinho e Vinicius - Blues Para Emmett (Toquinho/Vinicius) de 1972
 Tom Jobim - O Trem Azul (Lô Borges/Ronaldo Bastos) 1989
 Egberto Gismonti - Janela de Ouro (Egberto Gismonti) 1970
 Caçula e Marinheiro - Quero Que Vá Tudo Pro Inferno (Roberto Carlos/Erasmo Carlos) 1966
 Irmãs Galvão - Tente Outra Vez (Raul Seixas/Paulo Coelho) 1992
 Célia e Celma - Vem Quente Que Eu Estou Fervendo (Eduardo Araújo/Carlos Imperial) 1978
 Jorge Goulart - Não Me Prenda, Não (Bob Nelson) 1965
  Clara Nunes - Não Me Prendas (Release Me) (Eddie Miller/W. S. Stevenson/Versão: Bruno Silva) 1968
  Beth Carvalho e As Gatas - A Velha Porta (Beth Carvalho/Edmundo Souto/Paulinho Tapajós) 1970
  Benito Di Paula - Hei John (Benito Di Paula) - 1970, tributo a John Lennon
  Genival Lacerda – Rock Do Jegue (versão dance) (Celio Roberto/Braulio de Castro) 1999

O ENTREVISTADOR ENTREVISTADO


Duas ocasiões recentes em que fui honrosamente entrevistado. Uma foi para o compositor Anand Rao, meu colega de Clube Caiubi de Compositores, para quem concedi entrevista - por sinal, minha primeira entrevista bilíngue - em 16 de fevereiro deste ano no Sarau do Anand Rao, dividida em três partes: estaesta e esta.

Outro colega, só que jornalista e pesquisador musical, que me entrevistou foi Antônio Celso Barbieri, atualmente radicado na Inglaterra e que está reunindo entrevistas de artistas e profissionais da música em geral para sua página; confiram minha parte aqui.

KINKS POR KARIDADE


De vez em quando lembro aqui - e sempre com orgulho - de que desde 1998 (há quinze anos!) sou integrante do fã-clube virtual Kinks Preservation Society (entrem vocês também: www.kinks.it.rit.edu), que ocasionalmente produz discos-tributo ao grupo. A maioria dos participantes regulares é dos EUA e Europa; o único latino-americano sou eu. A renda de um destes discos (The Great Lost KPS Album, cuja tiragem se esgotou rapidamente) destinou-se a uma entidade de combate à leucemia criada por John Dalton, ex-contrabaixista dos Kinks.


Pois bem, agora falarei de outro disco beneficente relacionado aos Kinks. Trata-se de Crossing Lives, da banda francesa The Low Budget Men, liderada pelo guitarrista, compositor (e também médico cardiologista) Claude Mariottini. E o grupo inclui nos vocais de fundo a inglesa Doreen Chanter (que já trabalhou como vocalista para Bryan Ferry, Joe Cocker, Van Morrison, Elton John, Ron Wood, Meat Loaf, Roger Waters e outros, além de ser autora da canção "Star", hit da cantora Kiki Dee).



A renda de Crossing Lives destina-se à associação de caridade 20 000 Vies, criada pelo Dr. Claude Mariottini e que visa proporcionar desfibriladores externos automatizados a cidades da região da Riviera Francesa e onde mais forem necessários; desfibriladores na França ainda são raros e de difícil manutenção e reparo. Mais detalhes em http://www.20000-vies.com/

O disco pode ser adquirido em shows dos Low Budget Men ou via PayPal na página (em inglês, como aliás todo o repertório) da banda, http://www.lowbudgetmen.com/

Como amostra, duas faixas do disco: "One and One" e "Mag The Fan" (esta é um tributo a Margaret Morel, inglesa radicada na França e que - você sabia? - aparece cantando com os Beatles no vídeo de "Hey Jude").

Tuesday, March 12, 2013

VITÓRIA!!! A CAMINHO!!!

No ano passado o cantor e compositor Soul Demetrio me convidou para participar do novo disco dele, e acabei me tornando diretor musical e "one-man band" no disco todo. O CD intitula-se Vitória!!!, assim mesmo, com três pontos de exclamação, e deve sair agora em abril ou maio. São 15 faixas, sete composições dele, sete minhas e uma nossa, e temos três pessoas convidadas especiais: Kid Vinil cantou em duas faixas, Nuno Mindelis tocou guitarra-solo em outras duas e Bee Scott cantou em outra. Demetrio colocou todas as faixas para serem ouvidas no Youtube; aqui vão elas.

Balada que transformei em marchinha-iê-iê-iê. Kid Vinil participa no vocal.

Um singelo ska; Nuno Mindelis toca guitarra-solo.

Uma palavra só: garageira.

Bela valsinha-jazz-rock.

Nada a ver com o ABBA, e sim mais garageira; imagine se os Kinks fossem judeus ou Los Brincos engatando uma segunda numa festa de casamento.

Balada-soul-pop meio Drifters; mais um belo solo de Nuno Mindelis.

Um folk-pop-gospel.

"Samba-rock-psycho" lento, lembrando Jorge Ben Jor em 1969-70 com uma amigável guitarrinha fuzz-monster no final.

O tema de abertura e encerramento que compus para o programa Soul Master, apresentado por Demetrio na TV CINEC toda terça-feira às 19h. Procurei imitar a banda The Meters e saiu The Centimetres. (Não digo "Centimeters" porque sou anglófilo, rerre.)

Minha primeira parceria com o caiubista Léo Nogueira, a qual eu havia lançado em meu disco Lados-E, e Demetrio resolveu regravar; fiz um arranjo bem diferente do original.

Segunda de três canções minhas que Demetrio resolveu regravar; é uma parceria com Laert Sarrumor e foi regravada pelo Língua em 1986. Meu registro original é de 1984 e imitava o Who de 1966; este tem inspiração mais recente, os Stones de 1971-2 com o solo imitando o Kiss imitando os Stones. Kid Vinil participa no vocal.

A terceira regravação, este samba-de-praia adonirânico foi composto com Carmen Flores e lançado por mim em 1995.

Mais um samba-rock, inspirado no título escolhido por Demetrio para o CD. Na guitarra procurei lembrar Lanny Gordin (não digo "imitar" porque isso poucas pessoas no mundo conseguem).

Canção gershwiniana, abrilhantada pela voz de Bee Scott.

Sambolero usando o mesmo mote literário de "Vitória!!!" e composto em parceria com Demetrio.

Monday, March 11, 2013

50 TONS DA MÚSICA

Em 9 de março, o Rádio Matraca, programa de música, humor e informação que produzo e apresento em trio com Laert Sarrumor e Alcione Sanna, iniciou a temporada de 2013 de programas inéditos. Pegando carona no sucesso do romance 50 Tons De Cinza, apresentamos o especialzão 50 TONS DA MÚSICA.

Seguimos o modelo de outro romance, Mil Histórias Sem Fim de Malba Tahan, que não inclui um milhar de histórias, mas "quase". Do mesmo modo, o programa teve "quase" 50 Tons dentre a quase centena que reuní (alguns foram ouvidos e os outros mencionados). Os brasileiros incluídos foram Tom Zé, Tom Jobim, Tom & Dito, o letrista Tom Gomes (um de seus sucessos pode ser ouvido na versão de uma de minhas bandas), o cantor de iê-iê-iê Tom Carlos (sim, houve um), Os Bi-Tons (grupo mineiro de iê-iê-iê), Os Megatons (grupo da jovem guarda de onde saiu Bitão dos Pholhas e do Coke-Luxe), o trio vocal Os Três Tons, o grupo gaúcho Tom da Terra (formado nos anos 1998 por Tasso Bangel do Conjunto Farroupilha), meu vizinho do Clube Caiubi de Compositores Nêggo Tom e até um Tom Maior e um Tom Menor, respectivamente a escola de samba paulistana e a dupla formada por Leo Karan e o saudoso Adauto Santos (esta gravou pelo menos um disco, um compacto hoje muito raro e que pode ser ouvido aqui).

Dos Tons estrangeiros ouvimos ou lembramos Tom Waits, Tom Jones, Tom Petty, Tom Robinson, Tom Verlaine e sua banda Television, Tom DeLonge (da banda Blink 182), fizemos um agá com Thom Yorke do Radiohead, mais o jazzista Tom Scott, o compositor folk Tom Paxton, o cantor country Tom T. Hall, o pioneiro da música eletrônica Tom Dissevelt, o compositor e humorista Tom Lehrer, as bandas Buffalo Tom e Tom Tom Club, a dupla Tom & Jerry (mais famosa como Simon & Garfunkel), e descobrimos que uma receita para o sucesso de uma banda é incluir um contrabaixista chamado Tom (vide Tom Araya do Slayer, Tom Evans do Badfinger, Tom Hamilton do Aerosmith e Tom Petersson do Cheap Trick - por sinal, o primeiro a tocar contrabaixo elétrico de 12 cordas), além de Tom Fogerty (que foi do Creedence e teve carreira-solo) e cantores ocasionais como Tom Cavalcante, Tom Hanks e Tom Cruise. Não esquecemos canções como “Tom’s Diner” de Suzanne Vega, “Tom Sawyer” do Rush, “Major Tom” de Peter Schilling, “Fora Do Tom” (de Carlos Imperial) com Roberto Carlos, “Tom Maior” de Martinho da Vila, "Tom Cat" de Muddy Waters, “Poor Tom” do Led Zeppelin, “Just Like Tom Thumb’s Blues” de Bob Dylan, "Tom Thumb's Tune" de Peggy Lee, "Tom Tom Turnaround" do Sweet. Nem poderiam faltar produtores de discos como Tom Capone, Tom Johnston, Tom Moulton e Tom Catalano e o emérito autor de capas de discos Tom Wilkes. Temos ainda casas de espetáculos como Tom Tom/New Tonton, Tom Tom Club e Tom Brasil.

E todo sábado, às 17h, o Rádio Matraca está na USP FM, 93,7 MHz ou na internet, em tempo real. Siiiiiim, estamos sempre dando o tom - no caso, os Tons.

Tuesday, March 05, 2013

COM TODOS OS ELES SEM ERRES

Em 2004 a emérita publicação independente Poeira Zine (da qual sou colaborador ocasional) apresentou num de seus primeiros números uma bela reportagem com o maestro, violonista e compositor Waltel Blanco (por sinal, seu nome se escreve assim, só com Ls, embora tenha variado nos primeiros tempos, aparecendo aqui e ali como "Walter" e/ou "Branco" - mas uma pista para a grafia correta é seu pseudônimo "W. Blanc" em temas "internacionais", embora sempre competentes, para telenovelas da Globo).

Lembrei-me dessa matéria ao descobrir dois detalhes que não constam nela: nosso amigo "escondido" em dois discos obscuros de iê-iê-iê do fim dos anos 1960. Um é Muito Legal - Linha Jovem (selo Spot - ao que me parece, a semente do selo Equipe - , número de catálogo SP-3002), creditado a The Song Boys e cujo repertório, uma boa e diversificada seleção de hits de 1967 e 1968, inclui um tema instrumental de Waltel intitulado "Inédita" (o disco não tem detalhe de gravação algum, a única pista da presença de Waltel sendo o crédito desta canção no selo a "Waltel Branco"). O outro é Direcional (selo Itamaraty/CID, ITAM 7050), um pouco mais fornido de créditos ("Uma produção Nilton Valle"; por sinal, os discos deste produtor merecem bons estudos à parte) e trazendo outra boa salada de sucessos de 1968, incluindo o divertido instrumental "Dixie Da Gata", outro brinde composto por Waltel (ou "Walter Branco", como diz o selo - John Entwistle e Ray Davies não eram os únicos a sofrerem com os nomes grafados errados em selos de discos). Por sinal, outra boa surpresa do disco Direcional é um hit menos óbvio, "O Barqueiro" dos Brazilian Bitles.

Pois bem, acho que vale a pena lembrar estes temas instrumentais de Waltel Blanco antes da fama:

The Song Boys - Inédita (Waltel Blanco)

Conjunto Itam - Dixie Da Gata (Waltel Blanco)

Friday, March 01, 2013

UMA ORAÇÃO PARA UM ANO 13 DE SORTE

Espero que o visitante menos frequente a meu blog tenha sido eu mesmo... Tenho tido tanta atividade que nem consegui vir registrar tudo neste diário de bordo à medida em que vinha acontecendo. Mas estou sempre por aí... e também aqui. Um de meus projetos prestes a se viabilizarem é um livro sobre um assunto que sempre me interessou e que há meses venho pesquisando com mais afinco: a relação entre o rock brasileiro e a religião (mesmo eu tendo passado para o time dos agnósticos na década de 1980). Eu até tenho um pequeno papel nessa história, não só como curador do Arquivo do Rock Brasileiro, mas também como autor da melodia da balada-rock "Ide Pelo Mundo", a canção escolhida como hino do cinquentenário da diocese de Lins, em 1977, quando morei lá. (Sim, tive participações em festivais anteriores - e melhores - àquele programa de televisão de doze anos depois.) Este meu livro sobre rock brasileiro e religião vai incluir padres e madres dedicadas a música religiosa em ritmos de rock, canções religiosas por artistas seculares de pop-rock e também a presença de crenças como espiritismo, judaísmo e candomblé com artistas leigos ou praticantes de tais fés - por exemplo, uma canção tida como composta por Noel Rosa no além foi psicografada e transformada em balada-rock pelo grupo Alta Tensão, e uma das últimas composições do sambista Heitor dos Prazeres foi um rock gaiato em parceria com seu filho, "Ié-Ié-Ié É Kandomblé". Sim, o elenco inclui o guitarrista Betinho, os padres Zezinho, Irala e Marcelo, as pioneiras Missionárias de Jesus Crucificado, Francisco Rossi, Catedral, Rebanhão, Katzbarnéa, cantores-compositores como Wolô, Nicoleti e Silvio Brito e equipes como Desafio Jovem, Jovens Da Verdade e Vencedores Por Cristo. Um grande favorito entre os temas religiosos é a Oração de São Francisco de Assis. A versão em rock mais conhecida - e talvez a melhor - seja a do Padre Irala, regravada algumas vezes desde seu lançamento em 1968 e que dez anos depois já residia no inconsciente coletivo e virou até jingle natalino de um banco. Mas há pelo menos uma versão mais antiga, que foi nada menos que o primeiro lançamento da efêmera porém histórica gravadora Villela Santos, um compacto com melodia e canto de Nelson Luiz, declamação de Omar Cardoso e arranjo de Rogério Duprat. Sim, o grupo Meninos de Deus fez sucesso com uma melodia influenciada pelo filme Godspell, em 1975. E aqui vai um pequeno relicário destas diversas gravações em rock da "Oração De São Francisco", como uma breve amostra deste meu livro, previsto para sair até o fim do ano. Se Deus quiser, é claro.

Monday, October 15, 2012

OS ENCANTOS DESTA SALOMÉ

Você conhece Salomé Parísio? Se não conhece e é fã de MPB dos anos 1950 para trás, precisa conhecer. Além de boa cantora, Salomé é a mais antiga vedete brasileira ainda em atividade, aos 73 anos de carreira ininterrupta e aparentando bem menos que seus 91 anos de idade cronológica. E ela acaba de ganhar uma homenagem à altura: o livro Salomé Parísio, O Rouxinol Do Norte, escrito por Thaïs Matarazzo, Diego Nunes e Fábio Siqueira.



Nascida Dulce de Jesus Parísio de Lira na cidade pernambucana de Bonito em 1921, Salomé teve uma infância materialmente pobre mas artisticamente rica e rodeada de música; seu pai era violonista amador e viveu promovendo saraus caseiros até falecer em 1926 ou 1927, quando nossa amiga tinha apenas cinco anos. Aos nove ela já subia em caixotes vazios de querosene e mandava ver e ouvir em modinhas, valsas, choros e cantigas do folclore; aos treze, morando no Recife, conheceu os blocos de frevo e, como dizem os pernambucanos, “pronto!” Salomé lembra que naquele tempo “lá só tinha frevo, não se sambava, não”, mas foi o suficiente para a guria resolver ser cantora de vez. Inclusive, ela cantava no coro da igreja da Penha, no Recife, mas vivia sendo repreendida pelo padre por seu pecado de brincar no Carnaval. Aos 17 anos ela tornou-se noviça, mas foi expulsa do convento por outro grande pecado, o de subir numa goiabeira e atirar longe goiabas para “uns loucos” que gostavam de andar pela rua vestidos como Adão correrem para apanhá-las.

Aos 17 anos, em 1939, a menina ainda chamada Dulce tornou-se “cantora do rádio”, no caso a PRA-8, Rádio Clube de Pernambuco (que disputa com a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro a primazia de primeira emissora brasílica, bom assunto para outra ocasião). Ela chegou a cantar a valsa “Minha Adoração”, do conterrâneo Nelson Ferreira (e sucesso com Francisco Alves), acompanhada pelo próprio Nelson ao piano. E foi também Nelson Ferreira que sugeriu a ela o nome artístico de Salomé, isso em 1942. Ela poderia ter se inspirado na sedutora personagem bíblica, mas na verdade escolheu o nome de sua mãe, que era Josefa Salomé Parísio de Lira. E sabem por quê ela não adorou de vez o nome Dulce? O Brasil estava em plena segunda guerra mundial e temeu-se que “Dulce” fosse entendido como “Duce”, alusão ao ditador Benito Mussolini. Foi ainda de Nelson, em dupla com o locutor Abílio de Castro, que Salomé ganhou dois eslôgans, “A Garota da Voz Doçura” e “O Rouxinol do Norte”.

Houve até um lance digno de Chiquinha Gonzaga. Salomé tinha um namorado firme que não gostava da ideia de namorar uma artista. Um dia ele impôs: ou ele ou a música. E Salomé não teve dúvida: escolheu a música.

Tudo isso somente nas primeiras 30 das 224 páginas do livro, obrigatório para fãs e estudiosos de MPB e também da História do rádio. Pode-se ler muito mais sobre os poucos discos que Salomé gravou (incluindo um CD ao vivo nos anos 2000), seus shows em conjunto com Dercy Gonçalves e outras vedetes (ganhando elogios não só como cantora mas também beldade, chegando a ser conhecida como “a mulher com as mais belas pernas”), o hino que ela compôs para a Associação Cristã de Moços... Tem ainda sua participação como atriz na telenovela Sangue do Meu Sangue (transmitida pela TV Excelsior em 1969) e como cantora no musical O Comprador de Fazendas, de 1970, baseado num texto de Monteiro Lobato e com música do veterano Hervê Cordovil em parceria com um jovem e talentoso paulistano chamado Walter Franco.

Enfim, Salomé Parísio, O Rouxinol Do Norte está disponível (por apenas R$ 30) graças a Deus, à editora ABR e ao apoio da empresária Lilian Gonçalves (o livro foi inclusive lançado em um de suas casas noturnas, o Bar do Nelson). Belo presente para Salomé, que continua ativa e em boa forma aos 91 anos, e para quem quiser fugir pelo menos um pouco da música que se ouve mais comumente por aí. Mais informações com a editora: 55 11 4603-9660. E, para que Salomé não seja apenas uma cantora bem lida, aqui vai, por cortesia de Thaïs Matarazzo, uma amostra de suas gravações, a saber:

Salome Parisio - Abraça Teu Amor (Hava Nagilah) (A. Idelsohn/adaptação de Maurício Weltan)
Salome Parisio - Amarga Recordação (Gracinha de Souza/Sócrates)
Salome Parisio - Bia Ta Tá (folclore brasileiro)
Salome Parisio - Sob Os Céus De Paris (Sous Le Ciel De Paris) (Hubert Giraud/Jean Drejac/versão de Lamartine Babo)
Salome Parisio - Valsa Do Imperador (Johann Strauss/letra de Lamartine babo)